Falar sobre
relacionamentos se torna fácil quando a razão predomina.
Hoje estive conversando
com um amigo que conheço há anos, talvez seja a pessoa do sexo oposto que mais
conhece minha trajetória e o que se passa em minha mente, e juntos concluímos:
estou vacinada.
Sempre acreditei que um
dia encontraria um príncipe encantado, claro que não esperava que ele viesse em
um cavalo branco, mas o idealizava com valores, princípios, moral. Acreditava
que ele faria meu coração vibrar, o ar faltar, o corpo todo tremer.
O tempo foi passando e as
paixões da adolescência foram dando espaço a relacionamentos concretos, até que
o desejo pelo desconhecido me fez arriscar...
Observando minha
trajetória percebo que crer no príncipe não foi uma simples ilusão, foi de fato
uma utopia.
Dentre relacionamentos
concretos e passageiros muito aconteceu, mas pouco restou.
Sempre há as lembranças,
que deixam saudade ou não, mas as consequências e os aprendizados que de fato
tem valor, pois foi o que me moldou.
Após tantas renuncias
tantas investidas, o tempo finalmente trouxe a maturidade e com ela o amor
próprio.
Não sei dizer exatamente
quando mudou, mas algo nunca mais será igual e é isso que me preocupa.
É fascinante após certa
experiência fazer uma auto analise e perceber que da pessoa que se foi nada
resta, e que além disso a pessoa que se tornou é sem dúvida muito melhor do que
se imaginou um dia.
Na verdade falar com meu
eu sobre relacionamentos é me despir de mascaras, é me desfazer das armas, é me
privar dos conceitos pré-estabelecidos, por mim mesma, é como olhar no espelho e
ver minha alma.
Das que fui tenho certeza
que sou a melhor que poderia ser, mas das que um dia serei não sei dizer, mas
apesar de tudo sinto falta de alguns detalhes daquela adolescente maluquinha
que só queria descobrir os mistérios do mundo e ser feliz.
Quando adolescente sempre
recebi o titulo de ‘a maluca da turma’, a que não tinha medo de nada nem de
ninguém, a que era popular, que topava tudo, que conhecia todos. Mas no fundo,
tudo isso era para ocultar a personalidade tímida e detalhista.
Com o tempo as
oportunidades me permitiram escolhas tão distintas que daquela fase pouco me
recordo, o que sempre me constrange diante os personagens que foram tão
presentes e como tal especiais no percurso.
A verdade é que tentar
lembrar é vestir nostalgia, porque apesar de uma personalidade que nada condiz
com a atual, que lutei para moldar, há muita saudade de traços daquela.
A curiosidade era tamanha
em descobrir o que havia além daquela cidadezinha do interior, que a
curiosidade superava o medo. A certeza do tempo como autor da história era
tamanha que não via dificuldades em assumir sentimento. Deixava tudo fluir
naturalmente como as estações do ano. Se algo desse certo comemorava, se não
desse mudava as estratégias.
A sensação que percorria
meu corpo tinha gosto de juventude. Era como se o universo me estendesse o
tapete vermelho para meu caminhar.
Não tinha medo de lutar
pelos meus objetivos, não tinha medo de encarar os obstáculos, não tinha medo
de me jogar em uma nova situação, não tinha medo de gritar por liberdade, não tinha
medo da solidão...
Diante tal situação me
vejo sem chão. Sempre analisei meus erros a fim de melhora los. Sempre procurei
trabalhar minhas falhas, moldar minha personalidade de acordo com qual eu
julgasse ser correta e melhor do que aquela adolescente sonhadora e sem juízo
era.
De fato venci. Consegui,
após muito sofrer para aprender, me tornar quem de fato tanto desejei ser: uma
pessoa humana, que valoriza as coisas simples da vida, que não tem ambição
acima do que convém, que procura servir acima de conseguir pra si, que analisa
inúmeros pontos de vista, que sabe ouvir mais que falar, que aceita as
consequências.
Dentre todas as lições que
tive a mais formidável foi aprender a valorizar o tempo. Na casa dos 15 para 20
anos eu acreditava que o tempo girava a meu favor, pra me servir. Dos 20 aos 25
acreditava já ter aprendido tudo que devia, que podia usar toda sabedoria, dos
25 aos 30 descobri que o saber nunca finda, ele é diário e não podemos
subestima lo ou o tempo se faz voraz e leva tudo.
Essa ultima fase me fez
rever toda minha história e me colocou diante uma situação inédita: ter que me
quebrantar diante o presente de forma a resgatar pedaços do passado e agrupar
aos atuais, para assim conseguir compor um ser de qualidade para o amanhã.
Foi difícil escolher o que
manter e do que me desfazer, mas fiz consciente, usando principalmente o
coração, mas temo que algo possa ter saído errado na hora da montagem.
A guria do passado que se
arriscava, que se entregava, que acreditava no final feliz deu lugar a uma
mulher decidida, consciente, isso analisando o lado positivo porque o fato é
que estou calejada, cansada, desiludida.
Me pergunto se um dia irei
novamente amar, me entregar, sofrer, chorar.
Hoje entendo os poetas que
diziam que: mais vale a dor do amor à solidão angustia de quem vive.
De certa maneira assumi a
solidão como uma excelente companhia. Ela me escuta, me aconselha, me acalma,
me entende. Claro que há dias em que ela parece estar de TPM e me sufoca, mas
ai saiu, ligo para amigas (o), faço algo diferente e ela logo se acalma.
Sempre que converso com as
pessoas sobre ela escuto opiniões distintas, é o tipo que ou as pessoas amam ou
odeiam, eu definitivamente amo.
No entanto sou ser humano,
logo abstrato, e como tal há a necessidade de afeto, de carinho, de atenção...
tudo isso tenho de minha família e amigas (o) certo, mas e as necessidades
“viscerais”, ditas carnais?
Ai que a coisa pega...
Se fosse uma pessoa
carente que não liga para sexo e sim para afeto seria fácil me apaixonar. Se
fosse uma pessoa decidida que não liga para afeto só quer sexo seria fácil me
acertar. Se fosse uma pessoa fria que
não sente carência nem desejo sexual seria fácil existir.
O problema é que sou uma
pessoa carente, que não vive sem sexo, mas que não consegue se apegar ao ponto
de desfrutar. Deu pra entender?
Acredito no sentimento
acima de qualquer desejo. Acredito na relação diária acima da entrega vã.
Acredito na construção acima da ocasião. Acredito na tolerância acima da oferta
do mercado.
Diante tal situação como
agir então?
Me vejo em um momento onde
qualquer um pode ser ideal, mas nenhum será de fato especial. Não que eu procure
perfeição, não que eu idealize algo ou situação, não que eu tenha um padrão
pré-definido, ao contrario, sei que assim como cada um tem qualidades também
tem defeitos.
Na verdade relacionamento
é uma corda bamba, onde hora um lado se sai melhor, hora o outro. Não se trata
de ganhar ou perder e sim de saber o momento de ceder.
A balança está sempre a
postos, as qualidades são evidencias e estão sempre ponderando os defeitos, que
precisam de atenção. Manter uma relação é reconhecer os defeitos do outro e
suporta los, assim como assumir os seus e tentar molda los.
Como ser humano somos
seres errantes e imperfeitos e só a luta diária pela evolução permite a
lapidação e o melhoramento.
Não sei o efeito que
causei nas pessoas que passaram em minha vida, mas sei que cada uma deixou
muito de si, pois com cada qual muito aprendi. Algumas eu até brinco sobre não
entender como me aguentavam.
Há pouco menos de 5 anos
nem eu mesma me aguentaria...
Isso é o bom da vida, é
aprender diariamente e poder filtrar o que quero levar daqui por diante.
A pergunta que me faço
hoje é: algum dia haverá alguém que fará meu coração vibrar como na
adolescência ou a fase passou, agora a questão é aceitação e conformação?
Sei que o tempo é voraz e
avassalador, mas me recuso a acreditar que o amor olhe idade, classe, raça ou
cor.
Olhando para dentro de mim
vejo que estou pronta para o amor. Hoje sei sobre tolerância, respeito,
cumplicidade, afeto. Me vejo a pessoa mais tranquila do mundo, que sabe dosar o
ciúme, que sabe analisar toda e qualquer situação, que valoriza o dialogo, que
valoriza o tempo, que quer escrever uma história de conquistas, que anseia a
independência.
Quem me “lê” de fato
conhece o mais sincero de mim, me vê nua e aposta que vale a pena.
O problema é que me
conheço, assumo que sou uma metamorfose ambulante, valorizo isso, mas a questão é que também conheço bem o amor
e as dores que ele pode causar e isso de certa forma me blinda.
Não que eu esteja fechada,
claro que quero me apaixonar, ter por quem suspirar, ter inspiração, mas a
questão é que sempre que essa possibilidade surge minha defesa fala mais alto
me mostrando que devo evitar.
É como se os anticorpos
gritassem no meu peito e com isso fizessem meu coração recuar, tornando tudo um
breve blefe.
O pior é que meu eu não
importa de sofrer, de chorar, o importante é ter historia pra contar, ter em
quem pensar, sentir o apaixonar, mas meu ser não permite, me faz analisar os
detalhes, pesar as atitudes, ponderar as ações, e no final a questão se torna
momentânea e quando percebo o interesse passou.
Quando me analiso diante
tal situação é que sinto que não sou desse planeta.
Minha realidade exige uma,
no entanto sou outra. Converso com diferentes pessoas e a maneira com qual elas
lidariam estando no meu lugar é tao distinta da forma que tento levar.
Houve um tempo em que me
via tão velha para certas coisas e em suma nova para outras, olhando meu eu
frente ao meu ser ainda me vejo assim, no entanto analisando-os ao todo me vejo
no momento ideal.
Já mencionei, em outros
“desabafos” que idade cronológica nada tem haver com mental e ainda sustento
essa tese. Como dizia minha psicóloga eu tenho a cabeça de uma mulher de uns 50
anos, sendo assim me pergunto como estarei quando chegar lá?
Estou pronta para o amor,
mas talvez ele não esteja pronto para eu...
Não quero mais me
arriscar, não quero mais maquiar minhas convicções, não quero mais enganar
corações, não quero mais evitar emoções, quero um amor sincero, disposto a
fazer acontecer, que busque a eternidade, que queira reciprocidade, que
acredite em fidelidade. Talvez isso seja a síndrome de Cinderela falando alto,
talvez seja a fé no príncipe encantado que mudou de fase, seja como for quero
que seja.
As pessoas estão buscando
aparência, status, poder, e com isso perdem os valores, é dessa forma que fidelidade
se tornou ilusão, mas se crer em princípios for infantilidade eternamente
criança serei.
Não sei ser falsa
moralista, não sei me fingir de santa, nem negar qualquer situação, mas sei
valorizar o que se passa em meu coração, assim sou mais fiel a sentimento que a
relação.
A fase na qual o príncipe
era lindo de se ver, gentil no intuito de conquistar, que vinha em um cavalo
branco me buscar passou, mas deu lugar a que valoriza atitude e personalidade,
sem imposição.
O amor pode ser comparado
a uma rosa, dá trabalho para cultivar, precisa de cuidados, antes mesmo de
florescer vêm os espinhos, que começam sutis, mas vão ganhando força, no
entanto ao passo que ficam fortes as pétalas começam a aparecer. Surge pequena,
um botão, que desabrocha lentamente, até se transformar e ser o desejo de
muitas pessoas (na grande maioria mulheres).
A rosa só chega ao estagio
final, onde fica bela, com muito zelo e cuidado, assim como todo e qualquer
relacionamento.
Meu coração é terreno
arado, cuidado, já está preparado, mas a semente tem que ser forte pra
germinar.
A vacina foi bem dada em
doses cavalares e o pior é que os anticorpos me fazem bem, é ótima companhia e
não me permitem arriscar. Tornaram-me seletiva, não querem me ver errar..
Deixo acontecer, mas me
pergunto: como reconhecer?
Acho que irei saber, até
sem ver, ou querer...
Meu lado abstrato grita
por emoção, alguém que faça vibrar meu coração, que me deixe sem reação, que
roube meu chão, que me faça perder a razão, que não me deixe ver a direção, que
me dê palpitação, que faça suar minha mão.
Será essa mais uma utopia
ou apenas um momento do meu dia?
Me sinto tão vazia... É
tao cruel não conseguir me apegar, não me permitir me envolver, não ceder ao
ponto de fazer acontecer ou sofrer.
De fato de todas que fui
sinto falta da adolescente apaixonada, que não temia nada, que simplesmente se
arriscava.
É nostálgico olhar pro
passado e ver o quanto era empolgante a paixão sincera, sem pesar lucros,
vantagens, apenas compartilhando momentos, escrevendo historias...
Talvez amar seja apenas um
detalhe no meu conto, talvez a eternidade seja a busca infinita e incessante
pelo saber se irá ou não conhecer, talvez o viveram felizes para sempre se
baseie em nunca saber...
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Me pergunto se sou mesmo maluca ou há mais alguem que pensa como eu? Critícas são sempre construtivas, deixe seu comentário.