Quanto mais tento entender o sobrenatural mais me vejo
errante.
Sempre imaginei a Verdade se revelando de forma
arrebatadora, me roubando os sentidos, me tirando o sono, deixando nítido o porquê
de tudo ter sido como foi, no entanto não está sendo assim. As revelações estão
sendo mais brandas, cada situação está tão repleta de sentindo óbvio que não
entendo porque tive dúvidas.
Vejo meu ‘eu’ falho e precisando ser doutrinado, mas quando
analiso meu ‘ser’ uma calmaria me abraça. Na primeira o receio me incomoda,
pois a sensação de tempo perdido me envolve ao ponto de me sufocar, na segunda
o conforto vem de mãos dadas com a convicção de que o livre arbítrio pode até
ter me permitido andar por caminhos distantes, mas o Amor me trouxe de volta
para onde eu devo ficar...
Percebo que entre todas as minhas falhas predomina a vaidade
e o egoísmo. Nunca me achei bonita, nunca tive condições de me vestir como
gostaria andando na moda, nunca gostei do meu corpo, da minha pele, do meu
cabelo, sempre fui comum, normal, apenas mais uma entre tantas. Nunca tive
ambição suficiente para desejar ter bens, diplomas, luxo. Não sei dizer se
sempre fui assim ou se os acontecimentos em minha trajetória me moldaram, sei apenas
que desde muito cedo a única certeza que gritava dentro de mim é a de querer
conhecer a Verdade. Nunca soube aceitar o véu do esquecimento e sempre tentei
rompe lo, em alguns momentos consegui, no entanto ao passo que o conhecimento
me chegava ao invés de aprofundar nele eu me sentia completa, como se
finalmente entendesse o todo e pudesse seguir sozinha, pra qualquer lugar.
De certo modo estava certa, com os esclarecimentos devidos
as visões se abrandavam, as vozes silenciavam, e eu finalmente pensava ‘estar
normal’, mas o tempo de bonança era passageiro e logo tudo voltava ainda mais
intenso.
Onde quer que eu fosse sempre havia alguém para me dizer que
eu tinha um dom e que precisava ser trabalhado. Não importava a religião, podia
ser a primeira visita que alguém sempre vinha me cumprimentar e dizer algo que
soava especial. A principio eu sentia receio, pois todos diziam sobre uma
responsabilidade para com os outros, mas quando voltava para casa, na proteção
do meu quarto eu me sentia privilegiada, sem nem saber porque, era como se de
fato eu fosse um grão de areia com maior brilho.
Em minhas orações sempre me dispus a ser usada ao Bem Maior,
sempre desejei que o tal dom fosse revelado, porque eu não o vejo e gostaria
muito de me conhecer e saber dominar tudo que me acontecia. Nunca senti nada se
concretizar, nunca identifiquei de fato esse dom que todos dizem, mas aos
poucos percebo a razão.
Nunca soube ser grata. Grata em nada, nem por meu corpo
saudável, nem por minha aparência normal, nem por minhas conquistas, nem por
minhas vitórias.
Gastei toda minha existência até aqui procurando me
encontrar e em diversos momentos senti a plenitude de meu ser. Fases tão
intensas vistas como ideais, onde a felicidade se refletia como calmaria e o
Amor como normalidade no dia a dia, mas algo sempre fez esse cenário mudar
drasticamente e o pior é que muitos vezes eu tinha a opção, ou talvez a opção
fosse apenas acreditar no tempo e esperar, mas paciência nunca foi um de meus
atributos e munida de certeza agia de acordo com a intensidade do momento. Não
posso afirmar que esse tenha sido meu principal erro, até porque tudo isso me
ensinou mais que eu pensei poder aprender um dia.
Essas oscilações no meu percurso não só moldaram minha
personalidade, mudando meu ‘eu’ como também o deixou mais perto do meu ‘ser’.
Vejo nítido que os momentos de maiores aprendizados foram em
meio à dificuldade e a perda. Não sei dizer quantas vezes precisei morrer para
renascer mais forte na manhã seguinte. Não sei dizer quantas de mim se foram
para dar espaço a que existe hoje.
Lógico que em diferentes momentos se eu tivesse a cabeça que
tenho hoje minha vida não estaria como está, talvez eu tivesse um bom cargo em
uma boa empresa, talvez eu tivesse casada e com meus filhos, talvez eu tivesse
uma casa, com um belo jardim, um cachorro, um periquito, uma tartaruga e
peixes. Talvez eu tivesse um belo carrão, talvez eu tivesse diplomas e falasse
outros dois ou quem sabe mais idiomas.
São infinitas as possibilidades visto todas as oportunidades
que tive e me pergunto o que eu faria se pudesse voltar no tempo, mantendo a
maturidade que hoje possuo?
E a resposta não tarda: faria tudo exatamente igual.
Minha vaidade sempre predominou em acreditar que eu por mim
mesma fosse capaz de resolver qualquer conflito. Sempre me gabei por meu bom
senso, por ser responsável e do Bem. Sempre procurei me conhecer para moldar
meu ‘eu’ ao ‘ser’ que de fato gritava em meu peito e pude sentir em cada fase o
momento magico onde essa transformação ocorria.
Nunca foi fácil rasgar o casulo para voar, eram momentos
dolorosos, mas planar no ar sempre compensou, mas mais uma vez eu me vesti de
egoísmo e não agradeci o conhecimento adquirido nem tão menos as metamorfoses
sentidas, assim me vi em um ciclo vicioso onde nunca passei do ponto de
partida, mas quer saber?
Talvez o ponto final não passe de reticencias.
Se pudesse voltar no tempo faria tudo exatamente igual.
Minha visão sobre a vida ser vividas em fases não estava em
tudo errada, de fato o universo conspira em diferentes sintonias onde a maneira
com que recebemos essa energia é que dita a fase a ser vivida.
Vivi fases boas, ruins, algumas péssimas, outras das quais
me envergonho, umas que lamento, mas todas foram em suma importantes para meu
único objetivo na vida: me conhecer.
Mesmo após quase três décadas, por vezes, me sinto perdida,
sem saber quem de fato sou, o que de fato quero, mas isso me parece um detalhe
tão simples que não entendo como nunca percebi antes. A vida é feita por fases,
assim de fato preciso estar em constante mudança, só é preciso aprender a
respeitar o tempo.
É estranho ver minha vida de pernas por ar e ainda sentir o
equilíbrio predominar. Não é difícil imaginar o que as pessoas pensam, mas de
repente isso perdeu o valor, o que me importa é como eu me vejo e
principalmente como eu me sinto.
O sentir que já foi tão criticado por alguns se concretiza
mais e mais como parâmetro de discernimento.
Vejo meu passado tão errante e ainda assim sou grata por
tudo que foi. Sei que muito virá, sei que não posso evitar errar, mas quero
agir muito diferente. Mais uma ‘eu’ foi velada, agora uma mais perto do ‘ser’
nasce e assim o despertar para o Amor vem mais intenso.
A humanidade está cada dia menos humanizada, os valores
estão sendo esquecidos, os princípios apagados, não se vê mais raiz, apenas
filhos do sistema, robotizados, manipulados. Bens de consumo, com valores
estipulados, se tornaram mais valiosos que vidas. O juntar predomina o
compartilhar. O ter sobressai ao ‘ser’. O fazer igual ou o que mandar substitui
o saber. Aprender se tornou histórias lidas e contadas ao passo que se conhecer
beira a utopia. Pessoas acreditando cada vez mais na segurança armada,
eletrônica, programada e se distanciando cada vez mais da fé. Milagres se
tornando lendas. Exemplos contos. Religião virando comercio. Líderes usando e
desenvolvendo dons para explorar os menos esclarecidos. Guerra silenciosa e
fria...
Sempre afirmei que ‘o que não faço em ação faço em oração’,
mas será que isso basta?
Talvez pior que a vaidade e o egoísmo seja o medo e a
vergonha. O medo de tentar que anda de mãos dadas com a vergonha de falhar.
Minha timidez sempre me inibiu, talvez seja fruto do excesso
de bom senso, ou talvez seja apenas uma fraqueza assumida e mascarada para ser
usada como desculpa por não assumir responsabilidades, o que na verdade é
gerado pelo medo de falhar, de não ser capaz.
Aos poucos vou percebendo que o pior vilão na minha
trajetória foi na verdade uma grande vilã: eu mesma. Enquanto as pessoas sempre
acreditaram em mim eu sempre me coloquei em prova. Nunca vi o tal potencial que
todos dizem, nunca vi a tal coragem, a força, a capacidade de persuasão, a
liderança, a tal dedicação. Sempre agi de maneira simples conforme minha
consciência outorgou, nunca desejei ser destaque nem melhor que ninguém. Até
prefiro os bastidores ao palco principal. Egoistamente prefiro ajudar, mesmo
que não receba gratidão, a ter uma rotina imposta a ser cumprida. Seja como e o
que for a rotina sempre se revela mesmice e o tédio se torna uma companhia
desagradável, repetindo sempre que estou agindo como a massa, sendo apenas mais
um robô do sistema.
Mas e se o detalhe estiver ai, talvez eu pudesse ser um robô
da Verdade, carregado de luz, onde as pessoas pudessem recarregar suas
energias, assim seria mais fácil ter uma rotina onde elas saberiam me encontrar
que caminhar sem destino.
O saber nunca cessará pois o aprender é constante, assim se
ficar parada procurando acumular informações jamais conseguirei compartilhar o
que sei e assim o conhecimento será privado, logo inútil.
O conhecimento deve ser compartilhado, distribuído
gratuitamente e meu coração de repente anseia por isso, mas eu nada sei,
compartilhar o quê? O desejo da autobiografia volta a queimar, mas as
tentativas são em vão. Há detalhes que precisam ser colocados com outro ângulo,
pois as futilidades existenciais ainda ponderam as narrativas.
É tao mais fácil narrar os caminhos que minha imaginação me
leva a contar os caminhos que percorri nessa jornada até aqui. Talvez ainda não
seja hora, talvez eu ainda não esteja pronta, mas será que um dia estarei?
Em instantes mágicos sou guiada aos momentos que vivi sem
entender e o discernimento me surge de forma tão clara que não entendo como não
percebi antes e é então que percebo que estava cega pelo medo.
Hoje não tenho duvidas que a religiosidade engana não apenas
a mente confusa, mas principalmente a que teme. É mais fácil acreditar na
simplicidade do céu e inferno que conhecer caminhos intermediários. É mais
fácil assumir apenas Deus e o diabo a reconhecer a evolução humana ao ponto de
estar perto de Cristo. É mais fácil reunir com outros em um templo de adoração
que ser um. É mais fácil acreditar na igreja, nos pastores, nos líderes, que
assumir a responsabilidade de ter que se auto doutrinar. É mais fácil ter
desculpas que agir. É mais fácil seguir a trilha que abrir o caminho. É mais
fácil caminhar com a multidão sem querer saber a direção que entrar na
contramão, mesmo que essa guie a Verdade.
Sou apenas mais um grão de areia na multidão, quero sim ter
um brilho diferente, para que Deus me
perceba chamando Sua atenção, mas não consigo ser manipulada. O sobrenatural e
eu temos um código que tem funcionado bem e cada vez mais fica claro, assumo
que ainda não entendo muito do que me é revelado, mas sigo confiante que cedo
ou tarde o discernimento chegará.
Por anos me fiz critica e agora percebo que a critica não
passou de ignorância. Por falta de conhecimento segui um padrão pré
estabelecido por homens, como eu falhos, e o todo que era tao complicado vem se
revelando simples e sutil. Ainda há tanto que “rejeito”, mas respeito e assumo
assim minha coparticipação, mas sei que o Criador conhece meus pensamentos bem
como meu coração e tudo me será revelado no momento propicio.
O engraçado é que agora que me sinto preparada tudo
minimizou, restam as sensações, as vibrações, ainda escuto vozes aleatórias,
mas as visões não passam de vultos que estão em seus afazeres diários, nenhum
me fita, me sorri, me espera, me toca...
É a primeira vez que vivo essa fase de aprendizagem e não me
sinto louca, talvez eu deva ter me assumido assim e ainda não sei, mas a
calmaria me abraça de todas as formas e se isso for insanidade eu a desejo.
Pode o céu desabar, o chão se abrir, as rochas ruir, que eu
continuarei aqui, convicta de que tudo tem um quê, nada fica sem por quê. A lei
da atração é nítida bem como ação e reação, por isso meu momento de ‘ser’
(melhor) é agora, hoje, já. Nada pode ficar pra depois, o amanhã pode me reservar
surpresas que deixam o projeto inacabado...mas bem sei que de fato ele está
longe de ser concluído.
Me pergunto se verei em vida as mudanças que tanto
acredito... começando por meu ‘ser’.
Ah, vaidade hostil que me leva a pensar que no pouco faço algo.
Egoísmo enraizado que não me permite ir além de meu ‘eu’. Timidez demasiada que
me faz estacionar. Medo incoerente que se apega as desculpas e me conduz na
direção contraria.
Rogo para que a Verdade me chegue límpida como agua
cristalina, que o Bem Maior se manifeste em confirmações, que o selo entre o
sobrenatural e o ‘eu’ (pouca fé) seja cumprido, que não me falte socorre,
capacitando me assim a socorrer, mesmo inconscientemente, quem a mim recorrer.
As dores físicas incomodam cada vez mais, não sei discernir
se por um trabalho não desenvolvido ou por auxilio prestado, mas acredito mais
naquela que nessa, por isso espero que as energias vitais me guiem a atração
dos que procuram trilhar o mesmo caminho que eu. Que as dificuldades no caminho
sejam apenas degraus rumo a tal almejada evolução e que a eternidade me afague
com carinho, mesmo em dor, pois mesmo sigo viajante, passageira errante dessa
dimensão.
O que anos neguei de repente clama por ser revelado, será
tarde? Terá Deus atendido o desejo criado pelo medo? Não sei, mas seja como for
é e sempre será. Continuo acreditando que não há mal que possa me derrubar.
Podem até tentar me tocar, mas maior é aquele que está comigo. Onde há luz as
trevas não predominam.
Meu anjo da guarda é de fato muito persistente de um amor
incondicional... quantos livramentos, quantos esclarecimentos, quanta
inspiração.
Obrigada ao sobrenatural por tanto carinho a mim dedicado,
peço lhes perdão por tanta confusão, mas aos poucos retomo aos trilhos que um
dia me conduzirão ao meu verdadeiro lugar. Ah, não fazem ideia de quantas
saudades sinto. Aqui, mesmo com as orientações recebidas, me sinto perdida, não
consigo discernir o real da imaginação, mas sei que há muito mais do que minha
fé consegue alcançar. Aos poucos me preparo para o trabalho a ser feito. Sei
que não me faltará apoio. Paz!
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Me pergunto se sou mesmo maluca ou há mais alguem que pensa como eu? Critícas são sempre construtivas, deixe seu comentário.