Sempre afirmei que dentre todos os duelos de meu interior o
mais voraz sempre foi à guerra espiritual constante na qual sempre vivi.
Até aqui, durante quase 28 anos dessa experiência terrestre,
sempre me vi convicta de uma imensurável fé no Criador, no entanto nunca estive
certa sobre o todo.
Sempre acreditei no bem e no mal, como representação e não
como condição humana.
Durante esse período procurei manter a razão sem ignorar os
mistérios do mundo oculto aos olhos humanos, até porque se tratando de
ocultismo nunca me vi normal.
Desde criança algo dentre de mim grita por liberdade. Não
apenas liberdade de expressão, de ir e vir, de fazer o que deseja, mas sim
liberdade de conseguir negar as futilidades sociais e permitir que meu ser supere
meu eu.
Talvez por ter tido um lar instável minhas ambições sempre
foram de formar uma família que unida superaria qualquer obstáculo da vida.
Podia falhar no que fosse, nos estudos, no trabalho, em casa como filha, mas
não aceitaria falhar como mãe e esposa.
Nunca me vi rica, gozando dos prazeres que o dinheiro pode
oferecer, nunca me vi ostentando, sempre desejei ter condições de ajudar os
menos favorecidos, no entanto nas poucas vezes que tive, me esqueci desse
anseio de meu coração, estava ocupada de mais desfrutando dos momentos de
alegria, pois estava certa que seriam passageiros. E de fato foram.
Hoje além de estar na condição de dependente ainda almejo
ajudar o próximo, não com bens materiais, porque esses tenho recebido por
caridade de minha família, mas com apoio emocional, com disposição de tempo a
ouvir, com uma palavra de consolo, no entanto ainda hoje, ciente de meus erros
do ontem, mantenho minhas mãos atadas para a pratica do bem. Permitindo-me
auxiliar apenas aos que a mim chegam.
Algo dentro de mim chora um choro sentido e silencioso por
isso, foge a minha mente, mas vem do coração. É como se a consciência pesada
ultrapassasse qualquer máxima e atingisse meu ser em uma profunda lamentação
por não me fazer disposta a consolar e dessa forma ajudar.
Vivi os estremos dessa vida corpórea, hora desfrutando dos
prazeres da carne hora desfrutando da santidade de caminhar no Espirito. Hora
estando no topo da popularidade hora sendo esquecida até mesmo pelos
familiares. Hora sendo admirada pela força e coragem hora sendo criticada pela
acomodação e depressão. Hora buscando o bem hora me vendo mal. Hora tendo fé
hora questionando a Verdade. Hora sendo racional hora deixando evidente a
sensibilidade espiritual. Hora me fazendo mulher hora assumindo ser uma eterna
adolescente perdida...
De tudo que vivi me resta o que aprendi, das experiências
veio a consciência, do que ainda não discerni fica as duvidas, mas junto a
certeza de que no momento exato o porque do todo será revelado.
Nunca soube de fato a veracidade dos fatos, tão pouco a
razão, mas sempre soube que nada é em vão. Acaso é diversão do destino. No
universo tudo está interligado, não há fio solto, há um padrão sequencial que
não pode ser explicados aos ‘normais’, que chega a ser confuso até mesmo aos
mais esclarecidos.
Há mais ou menos um ano tenho sentido que algo em minha vida
começa a mudar. Não é algo físico, nem tao pouco algo no qual eu possa
interferir. É como se meu eu estivesse se quebrando pouco a pouco.
Posso sentir que isso acontece, posso sentir que algo muito
maior irá acontecer, mas não consigo dizer o que exatamente, nem como, nem
quando. Tudo que sei é que o sobrenatural tem se revelado de forma mais intensa
e sempre que percebo seus sinais é como se uma parte do grande quebra cabeça da
vida se encaixasse.
Vejo no presente significados de momentos vividos há anos
atrás, que lá foram tão dolorosos e hoje se revelam como simples expiação.
Olho para meu eu superficialmente e confirmo que meu ser
sempre teve voz ativa, até mesmo quando fez escolhas erradas.
Meu eu comparado às pessoas se vê fracassado, um grande
perdedor, por não ter bens materiais, por não ter equilíbrio financeiro, por
não ter conseguido honrar com o único anseio que tinha referente à família, por
não ter uma profissão, por não ter o controle total da vida.
Meu eu comparado a ele mesmo não é diferente, ainda me vê
jogada no chão, humilhada, rendida, com uma vida toda perdida, em vão, no
entanto algo faz com que me veja superior, é quando agradeço me pelo bom senso,
pelo discernimento, pela facilidade de socialização, pelas múltiplas faces. Assim
meu eu se revela egoísta e percebo o por que de todas as percas, bem como a
atual situação de dependência.
Meu eu sempre buscou justificativas, sempre quis se revelar,
mas meu ser mesmo oprimido, mesmo rejeitado, sempre se fez ativo.
Nunca entendi muito bem como um duelo invisível podia ser
tão voraz, mas sempre o senti avassalador e por isso nunca pude ignora lo.
Por anos sem fim tentei entender como ponderava a balança
entre o eu e o ser. Procurava identificar, entender o bem e o mal, classificar
cada um. Maquiava como sexto sentido, como a razão e o além, como o visual e o
insano, como o tangível e o poder da mente.
Pode ser que eu nunca descubra exatamente como é e/ou como
funciona de fato esse duelo. Pode ser que eu nunca descubra exatamente quem é o
vencedor.
Pode ser ainda que ambos nunca ganhem, ou quem sabe ganhem
sempre.
Pode ser que um complemente o outro, ou que um sempre
confunda o outro, ou que um seja a base para o outro.
Pode ser que só exista excelência se um se livrar definitivamente
do outro, ou quem sabe a excelência se baseei em um acordo onde ambos precisem
conviver juntos em equilíbrio.
A vida se revela redundante. Anos afinco, inúmeros
acontecimentos inéditos, de nada valem se o comportamento continua o mesmo,
desse modo jamais conseguirei me afastar do ponto de origem, por mais que ele
esteja diferente será sempre o ponto inicial.
Para ir além é preciso soltar as cordas que prendem o barco,
é preciso enfrentar as ondas, superar a maré, vencer a imensidão e seguir
adiante com a certeza de que o tempo é mera representação e o momento final não
será ver o quanto se percorreu, nem comemorar tudo que superou e sim sentir a
paz ao ver que o mais difícil, que de tão simples é sempre ignorado, foi
cumprido: o soltar o nó que o prendia.
Manter o nó atado dá segurança ao barco enquanto ele está
estagnado, no entanto para que se possa chegar a algum lugar é preciso desatar
o nó. É preciso soltar as cordas e encarar o desconhecido, mesmo ciente das
possíveis dificuldades.
Nesses 28 anos aprendi, que o nada e o tudo depende mais do
observador que do ângulo de visão. Um copo de vidro transparente sobre uma mesa,
por exemplo, pode estar meio cheio ou meio vazio, isso vai depender de quem
observa e não do ângulo de observação.
Até aqui a vida me ensinou que quando se tem é fácil desejar
ter cada vez mais, mas quando nada se tem é fácil ser grata pelo pouco que lhe
é oferecido.
Meu eu desesperado adoraria que a vida fosse opcional
durante toda existência, pois assim poderia findar toda vergonha que sente, mas
meu ser, mesmo sem saber exatamente como e porque, sente que de certa forma até
mesmo o lamentar do eu faz parte de um grande processo evolutivo e é isso que
me motiva a nunca desistir.
Sempre disse que por pior que seja, que esteja, começo
quantas vezes forem preciso, que pior que errar é não ter coragem de tentar.
Só erra quem se arrisca a acertar!
Sou humana, logo errante e falha. Meu ser silenciosamente já
conseguiu moldar meu eu diversas vezes. A sutileza com qual ele age passa
despercebida, mas mesmo sutil ele se faz notado e o objetivo é alcançado.
Vivo hoje contrario a tudo que desejei, mas algo dentro de
mim diz que vivo meu melhor e sou grata por ainda ter a oportunidade de começar
novamente.
Não me importa condições financeiras ou físicas e sim
morais.
Sei que nunca conseguirei agradar a todos ou estar certa
sempre, mas anseio por ser o mais gentil possível, tratando cada ser como
gostaria de ser tratada.
Minha timidez se funde ao bom senso e acaba por me manter
alheia a buscar a socialização, o que muitas vezes é visto como prepotência, no
entanto estou sempre aberta a quem me procura.
Adoraria ser mais ousada, puxar assunto, me apresentar, me
fazer aceita, mas isso foge a minha personalidade. Até que me sinta segura sou
sempre discreta e quieta. Falo o indispensável e procuro mais observar que
aparecer. Ainda assim em diversos momentos me sinto o centro dos olhares, o que
muitas vezes é confirmado pelos comentários posteriores. Desse modo sem saber
se há coerência em estar no meio sem fazer parte ou fazer parte sem estar no
meio, sigo avante, sempre adiante e além.
Sei que a Verdade nunca será, no todo, revelada, sei que o
aprender não cessa, sei que o conhecer é constante, mas espero um dia
identificar meu dom, conhecer de fato meu talento, tendo assim ciência de minha
missão, a fim de poder me dedicar a ela, tendo pela primeira vez, nessa
passagem terrestre, satisfação.
Digo que a felicidade é uma escolha diária e hoje acredito
que ela independe da alegria. Felicidade é ser grato seja na alegria seja na
dor. Felicidade é ter ciência que seja como for será. Felicidade é saber que
algo sempre há de acontecer. Felicidade é viver um dia de cada vez ansiando a
eternidade plena. Felicidade é viver sem medo de ser feliz, pois nesse contexto
o feliz se baseia nas ações e convicções do ser. Felicidade é acreditar na
supremacia do bem, sabendo que qualquer mal que seja é apenas um desvio
momentâneo que pode ser trabalhado. Felicidade é manter o equilíbrio acima do
desespero. Felicidade é sentir paz mesmo em guerra. Felicidade é manter a calma
acima da euforia. Felicidade é a intensidade do querer gozando da conquista,
bem como a aceitação em caso de perda. Felicidade é ser acima de estar, é ser
acima de ter, é ser acima de querer, dessa forma posso definir que felicidade é
a constante lapidação do ser.
Que a felicidade, desse modo, se cumpra, pois assim saberei
que estou no caminho da evolução.
Texto digno de reflexão. Acho que todas as pessoas passam por estes dilemas existenciais, inclusive tenho os meus "infernos astrais" a diferença é a postura afirmativa ou negativa, na qual enfrentamos estes fantasmas e por este motivo, parabenizo a sua coragem por enfrentar os questionamentos e localizar o alvo desejado. Desejo que seja bem sucedida na busca da serenidade.
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