Há anos tento escrever sobre minhas experiências
sobrenaturais, mas a cada tentativa desvio a atenção e me perco nas palavras.
Não sou boa em conversas faladas, opto sempre por palavras
escritas. Escrever torna sentimentos tangíveis, eterniza momentos, testemunha situações,
alivia a alma, acalma o coração.
Não sei ao certo a partir de quando passei a não me sentir
normal, mas sempre soube que era diferente. Talvez porque minha família não era
tão convencional quando a das minhas amiguinhas.
Era a segunda filha de uma mãe solteira, morávamos em uma
pequena cidade do interior. Apesar de toda simplicidade nunca me faltou nada,
apesar da ausência de minha mãe, que trabalhava mais de 10 horas por dia para
manter a casa. Recordo-me que no principio havia uma pessoa em especial que era
a figura representativa de um pai, mas nunca foi de fato, e entre idas e vindas
com meu pai biológico muitas figuras paternas surgiam, mas sempre que o afeto
começava a surgir o rompimento da relação me lançava à estaca zero.
Minha mãe sempre foi uma grande amiga e confidente, mesmo em
meio a dificuldades deu a minha irmã e a mim a melhor educação possível, nos
ensinando princípios morais, como respeito ao próximo e honestidade.
Hoje, gozando de toda maturidade que as experiências vividas
me permitem e ciente de que tudo que sei e nada perto do que ainda será
revelado, posso dizer que tive uma infância feliz. Apesar de não ter tido uma
família unida, como a representação da palavra cobra, tive uma infância alegre,
desprovida das maldades da humanidade.
Talvez minha diferença esteja baseada na falta de malicia
que me seguiu até bem recente e que de certa forma ainda me rondam. Não consigo
acreditar que as pessoas sejam más, acredito que os fatores as deixam assim,
mas com amor e carinho pode se criar novamente o elo do respeito e qualquer
cidadão é capaz de voltar a cultivar o respeito, gozando assim da essência da
vida.
Cresci no interior, entre os amigos que se tornaram a
família escolhida pelo coração. Mau podia esperar as férias para viajar, nada
longe, muitas vezes a distancia podia ser percorrida a pé por qualquer adulto, mas
a minha mente infantil sair da rotina já era uma grande viagem e assim sempre
que podia ia para uma fazenda diferente, desde as mais pomposas com grandes
criações de animais e todo conforto possível, até as roças mais simples.
Confesso que essas me alegravam mais que aquelas...
Desde muito cedo vivo permanentemente em uma condição de
aceitação a qual faz com que eu me sinta bem em lugares simples, que não
dependem em suma de tecnologia. Ainda hoje não sei exatamente o porque isso se
dá, mas desde sempre o contato com a natureza faz com que eu me sinta em
contato comigo mesma.
Nas roças tinha o privilegio de ter satisfação e estar ali
não só me alegrava, mas também me acalmava. Lembro me de crescer tratando de
galinhas e porcos, ouvindo os pássaros, correndo de cobras, chutando sapos,
tomando banho de rio, descendo cachoeiras, cavalgando, chupando frutas no pé,
colhendo legumes e folhagens na horta, cultivando flores, preparando adubo,
tomando leite direto da teta da vaca, da búfala, da cabra...
Em minhas melhores lembranças recordo o cheirinho do chá que
me despertava enquanto o sol ainda dormia, o aroma dos bolos que assavam no
imenso forno de barro no quintal, onde as formas eram folhas de bananeiras e as
chamas eram alimentadas por gravetos colhidos no mato.
Na sede da casa não havia energia elétrica, nem agua
encanada. Luz era da lamparina, agua potável vinha de um poço, para banho era
do rio, o mesmo que conservava frio certos alimentos. Não havia fogão a gás, o
ferro era a brasa, o chão era de terra batida, as paredes de barro, o teto era
de folhas grandes não sei de quê, os colchões eram de palhas secas de milho
envoltas em sacos costurados, os quais abertos eram cobertas, banheiro era o
mato que tinha nas folhas o papel natural.
Era tudo encantador e mágico. Os desafios eram subir em
arvores, saltar das pedras no rio, procurar coco no mato. A adrenalina era
correr de vaca parida, soltar distante da casa as cobras que insistiam em
aparecer, testar o limite dos equinos cavalgando o mais rápido que minhas mãos
e pernas pudessem segurar, se bem que diversas vezes não conseguiam. Emoção era
andar de carroça, escutar atenta as historias de caça dos adultos, as lendas de
espíritos vagantes. Medo era não deitar com o por do sol, imaginar o que havia
fora da casa durante a madrugada e esse imaginar que sempre me perturbou...
Nunca soube discernir o que acontecia do que minha
imaginação alimentava. Talvez seja certo dizer que sempre tive uma imaginação
forte que gerava fantasmas, mas me perguntava porque os fantasmas não passavam
como os sonhos... porque o medo não trazia de volta a razão... porque as
imagens estavam presentes... porque os sons não cessavam... porque os cheiros
eram tão sufocantes, mesmo quando bons...
Lembro me que adorava viajar sim, mas a viagem em si era um
tormento. Apesar de amar a natureza observa la de longe era um sofrimento. Não
digo referente a ver uma mata e observa la, mas estar no meio dela. Não sei
explicar como era a sensação da infância, mas havia um medo terrível que gerava
uma grande dor no peito.
Quer fosse de carro ou de ônibus a sensação era a mesma.
Olhar o horizonte era agradável enquanto havia apenas o verde representando a
vida da natureza, o problema é que após alguns minutos surgiam grandes seres,
sempre em formas disformes, desprovidos de sexo, não identificava vestimenta ou
face, mas eu sabia que eles guerreavam. A direita estava sempre a figura
branca, que era envolta por uma luz brilhante que me encantava. Essa sempre
aparecia primeiro, e de certa forma me sorria, mas em seguida surgia na
esquerda uma sombra negra, que se concretizava. Via apenas um ser negro, sem
forma, mas sentia que havia nele muito ódio e desejo de vingança. Era como se o
ser da direita soubesse que ele estava ali, mas não quisesse desviar o olhar
(que eu não via, mas sentia), e assim o ser que surgia o golpeasse, mesmo sem
lhe tocar e o que antes emanava paz se tornava uma grande agonia. Sem se
tocarem eles guerreavam e era como se eu sentisse cada sensação daquele
momento. Eu não sabia o que pensar ou fazer e fechava forte os olhos na
tentativa de que aquilo desaparecesse, o que sempre funcionava, até que eu
começasse a observar o horizonte novamente, momento no qual tudo recomeçava,
sempre da mesma forma. O ser da direita estava sempre à frente do da esquerda,
mas de algum modo o da esquerda é que sempre corria atrás do da direita. E
assim eles voavam na mesma velocidade do veiculo que me conduzia.
Quando chegava na roça no primeiro momento sentia medo de
que aquelas figuras surgissem do meu lado e me levassem para algum lugar que eu
não conhecia, pior que esse medo era o pavor que sentia ao estar sozinha em
pequenas matas. Era como se me colocasse no centro da batalha e houve vezes que
de fato me vi ali. Paralisada com o ser da direita me chamando ao passo que o
da esquerda quisesse me convencer de que ele era bom e ideal e o outro era
apenas uma ilusão, assim entre eles viajava em meus pensamentos sem saber de
fato o que acontecia, até que sentia meu corpo formigar como se tivesse
recebido uma descarga elétrica e saia correndo para perto de um adulto, pois
acreditava que estaria protegida.
Nunca consegui falar sobre essas visões e sensações, até
porque nas tentativas zombavam de mim e diziam que era louca, assim minha mãe
me ensinou a orar e pedir a Deus que o que quer que me fosse revelado que fosse
em sonhos. Mesmo sem entender o que isso queria dizer comecei a faze lo.
Acredito que já tinha uns 7 anos quando isso começou de fato a concretizar, foi
ai que tudo piorou. As visões diminuíram, mas não cessaram, e eu já não sabia
se via os acontecimentos ou se eram lembranças de sonhos e assim segue até
hoje...
Recordo me que na infância as revelações de possíveis
acidentes e mortes me eram claras, e nunca falhavam. Não sei quantas vezes
previ o que aconteceria e isso começou a me perturbar de forma tal que fez
despertar minha curiosidade em relação ao sobrenatural.
Minha mãe nunca frequentou nenhuma religião, meu pai tão
menos, minha irmã mais velha frequentava a igreja católica, a qual eu não
conseguia entender, logo não aceitava. Não tinha mais que 3 anos e ao ir a
igreja católica perguntava em alto e bom tom porque todo dia era a mesma coisa,
o padre lia aquele papel e repetia as mesmas orações, os mesmos gestos. Não
entendia as pessoas se curvando aquelas estatuas, que a mim eram brinquedos.
Tentavam me convencer que o homem na cruz era Cristo, que as estatuas eram de
santos, mas pra mim eram apenas imagens.
Com o passar dos anos comecei a estudar o catolicismo, fiz
primeira comunhão, catequese, mas nada adiantou para me convencer de que aquilo
tudo era verdade, o que piorou quando na escola comecei a estudar a história da
igreja católica e vi nítida as imagens da guerra sangrenta que foi para que a
igreja se tornasse a potencia que é hoje.
Comecei então a estudar o evangelho, passei a frequentar
igrejas evangélicas, mas de acordo com que aprofundava os estudos percebia que
o sistema não era de todo correto, haviam inúmeras falhas, pois era governado
por homens e não pelo sobrenatural e assim de denominação em denominação
seguia.
Houve grandes intervalos no qual me dediquei a estudar
outras filosofias de vida, conheci o Kardecismo, quando me encantei com tanto
amor e caridade, conheci o Rastafary, que admirei e tentei seguir certos
princípios como humildade, o Budismo, do qual adquiri o anseio por meditar
antes de agir, e assim no decorrer dos anos estudei inúmeras outras ideologias,
como Caballa, Satãnismo, Wicca, Islãmismo, etc. Sempre entre idas e vindas do
protestantismo do evangelho, até os dias de hoje, onde minha visão se difere de
tudo que sempre acreditei...
Voltando a infância, não era fácil estar sozinha e ter
pessoas desconhecidas caminhando em casa, não era fácil estar deitada no
silencio da noite e ouvir gemidos, gritos de socorro, sons indescritíveis, não
era fácil sentir do nada cheiros de rosas, de ervas, de algo que não tivesse
por perto.
Minha mãe foi a única a nunca duvidar do que eu falava e
quando compartilhava com ela as visões tudo que ela me dizia era para orar.
Foram várias as noites que dormi esgotada, chorando,
desejando que as visões sessassem, mas quanto mais pedia a Deus para me livrar
dessa insanidade mais eu via.
Na adolescência já havia me acostumado com tudo isso, apesar
de ainda não saber como lidar. Ainda via as pessoas, mas agora era como se
fossem vultos, não conviviam comigo mais. Acredito que foi nessa fase que a
guerra interior começou...
Era como se eu desejasse ser uma e agisse como outra. Mesmo
sendo tímida e autoritária era muito popular e estava sempre rodeada de amigas.
Acho que por sempre ver pessoas que não existiam, que eu
pensava existir apenas na minha imaginação, sempre valorizei a companhia da
solidão, mas preferia estar rodeada pelas amigas, porque assim não tinha tempo
para pensar, logo as visões não vinham. No entanto mesmo rodeada de amigas,
mesmo entre sorrisos e brincadeiras sempre me senti sozinha, como se nada
fizesse sentido, como se nada fosse real, como se tudo fosse transitório...
Essas sensações se intensificavam com o passar do tempo e foi assim que passei
a crer que a vida é feita de fases e que por melhor ou pior que sejam elas
sempre irão passar, deixando apenas lembranças na mente e saudades no coração.
Mesmo tendo estudado várias religiões nunca desejei de fato
ser religiosa. O sobrenatural sempre se fez presente nos meus dias, se
revelando de maneiras distintas em ocasiões peculiares. Assim eu me agarrei a
fé de que Deus não é apenas o Criador a ser cultuado, adorado e exaltado, mas
que Ele vai além de preceitos, de dogmas, de ilustração, de conhecimento.
Passei a assumir Deus como o ponto central de causa e efeito. Assim pude me
despir do medo do julgamento final, no qual o destino seria o céu ou o inferno
e passei a acreditar em minha salvação. Assumi como certo ser uma mulher
segundo o coração de Deus não por santificação, mas por moral. Ainda hoje
continuo errante e quanto mais o sobrenatural se revela mais procuro estudar o
oculto e mais percebo que menos sei.
Sigo com a certeza que minha curiosidade nunca será em suma
sanada, mas não me canso de buscar o bem sem olhar a quem, pois a mim é desse
preceito que o julgamento virá e esse será pessoal, logo na balança estará de
um lado minhas ações e de outro meu coração, espero que mesmo falha e errante o
equilíbrio predomine.
Que assim seja!
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Me pergunto se sou mesmo maluca ou há mais alguem que pensa como eu? Critícas são sempre construtivas, deixe seu comentário.