14/07/2013 as 17:17hs
Hoje na casa de minha mãe recebemos a visita de duas tias,
sendo que uma delas eu não via desde meus 8 anos de idade.
As melhores recordações que tenho de minha infância, ou que
ao menos imagino ter, são na presença dela.
As diversas férias já narradas em outros textos, onde
passada dias em na roça sem me preocupar com nada, ouvindo as historias que
mais pareciam contos, comento biscoitos assados no forno de barro na folha de
bananeira...
Não sei exatamente o grau de parentesco que temos, me foi
ensinado chama la de tia.
A historia de vida de minha mãe é um tanto confusa para eu,
não sei ao certo como se deu. Em resumo ela foi criada como filha dos avós, por
ser fruto de uma traição entre empregada e o filho do patrão.
Apesar de saber que as tias que me foi permitido ter são
irmãs de coração a minha mãe nutro um imenso carinho por cada uma, até porque
elas fazem parte de minha história. Me alegro poder revê los, mas quando a
visita chega ao fim me deixa uma sensação de ingratidão.
Não cultivo muito laços sanguíneos, não que tenha alguma
magoa, na verdade talvez eu não saiba cultivar amizades, pois mesmo a família
escolhida pelo coração eu não mantenho muito vinculo.
De certo modo acredito que devemos manter boas lembranças a
fim de liberarmos pensamentos bons e boas vibrações aquela pessoa, mesmo que
ela esteja distante, mesmo o tempo passe sem que a vejamos. Assim não me
perturba me afastar das pessoas e ficar anos sem vê las, o que de fato importa é que quando nos
reencontrarmos o respeito e o carinho estejam vivificados.
Me disponho a ajudar não só a família e os amigos, mas a
quem quer que me procure. De certo modo vejo que todo orgulho que nutria vem
sendo minimizado pela dependência que tenho vivido. Tento me manter calma, não
demonstrar muita indignação, mas no meu intimo adoraria ter minha liberdade
financeira de volta, mas aceito a situação como ensinamento, na verdade é
resposta a minha oração sobre humildade.
Voltando as visitas que recebemos houve um momento que me
deixou um tanto pensativa, precisei me segurar para não demonstrar o instante
magico de aprendizados que estava tendo.
Estávamos em casa meus pais, meus filhos e eu, quando chegou
minhas 2 tias, uma prima e sua filha, e um primo, filho da outra tia. Esse
estava com o lado direito imperfeito, caminhava com a ajuda de uma bengala e
não movimentava o braço direito, a face desse lado também sofria certo
desnível.
Todos conversávamos e brincávamos muito, quando ao tentar
roer uma azeitona senti uma grande dor nos dentes e me coloquei a reclamar. Há
dois dias havia feito manutenção nos aparelhos, quando me foi outorgado usar
uma liga, a fim de alinhar os dentes superiores e inferiores. Após um ano de
tratamento pude concluir que essa era uma das fases mais dolorosas. Para comer
podia tirar a liga, mas os dentes pareciam estar moles, como se fossem cair a
qualquer momento e mastigar era uma tarefa dificílima e delicada.
A liga era colocada apenas do lado direito, logo mastigava
apenas com o lado esquerdo. Quando tentei roer o caroço de azeitona a dor foi
tamanha que não consegui segurar a careta, ao passo que minha priminha
perguntou o que eu tinha. Respondi que meu dente estava doendo e narrei o
ocorrido, fechando a narração com um comentário infeliz onde disse: ‘nossa, é
horrível mastigar usando apenas um lado da boca’.
Acho que ninguém observou o que eu disse, estavam atentos a
dor que eu havia sentido e não as minhas palavras em si, mas nesse instante uma
cortina caiu diante mim.
Meu primo estava sentado na minha frente, comia devagar e
educadamente, foi quando o observei e um filme se passou em minha mente.
Na verdade também não o via há muitos anos e ele nem de
longe se parecia com o homem de minhas lembranças. Em outrora era um homem
forte, cheio de vida, robusto. Recordo me que era festeiro e estava sempre
metido em confusão. Agora estava debilitado, com expressão de cansaço, com uma
aparência talvez mais envelhecida que sua real idade cronológica, com um lado
paralisado, apesar de já ter evoluído o tratamento físico.
Senti uma grande pesar me acusar, estava ali reclamando por
ter dificuldades em me alimentar utilizando apenas um lado da boca enquanto ele
já comia assim há anos.
Lembrei de minha outra tia que sofreu um AVC a 8 meses e
está com o lado esquerdo paralisado, dependendo de outra pessoa até mesmo para
sua higiene pessoal.
Não demonstrei minha lamentação diante a fragilidade da
vida, mas inúmeros pensamentos me surgiram.
Como humanos nos sentimos donos do mundo, acreditamos que o
mundo nos serve, que tudo podemos e tudo nos cabe. Nos sentimos onipotentes
diante a vida. Sabemos que a morte virá, mas nunca esperamos por ela. Sabemos
que qualquer um é suscetível a sofrer algum problema de saúde, mas nunca
imaginamos que aconteça conosco ou próximo de nós. E pensando assim passei o
resto da tarde.
Nos últimos dias minha condição de dependência financeira
tem me incomodado muito, sei que é um período de tratamento no qual estou
recebendo respostas de orações, mas me sinto inútil e sempre que tento reverter
à situação algo acontece que impede meu progresso. Há momentos que desejo que
essa fase passe logo, pois não sinto mais forças para continuar com tanta
inutilidade, no entanto uma voz interior me diz para cultivar a paciência.
Me vi tao impotente diante aquela situação. O primo que em
minhas lembranças infantis era tão cheio de vida, de energia, agora estava ali,
abandonado as consequências da vida, com expressão sofrida, como quem apenas
espera a hora de partir. Percebi nele, apesar da fragilidade, certa
conformidade com a situação e um apego incondicional com Deus.
Meu coração se compadeceu de amor ao vê lo, mesmo entre as
infinitas conversas de todos, orando silenciosamente em seu intimo, ao findar
cada refeição, até mesmo a sobremesa. Quando algo lhe era oferecido ele
agradecia dizendo: ‘obrigado, Deus abençoe’.
Nem sei dizer como me senti, me vi inútil, mesmo gozando da
perfeição aos olhos humanos estou vivendo como paralitica. Não consigo encontrar
meios de evoluir a vida terrestre, de sair da condição de dependente física, de
conseguir caminhar sozinha meu destino. Há anos não sei o que é trabalho
voluntario, não tenho praticado a caridade em suma, não percebi nenhum bem em
mim e meu coração chorou um lamento desconfortante.
Pouco depois do almoço as visitas partiram e fui ler o livro
de Chico Xavier Paz e Renovação, ditado por diversos espíritos, o qual me
deixou ainda mais convicta de que não preciso entender minha missão e sim
cumprir minha obrigação que é praticar o amor ao próximo.
Em meu peito um desejo por reclusão se fez ainda maior.
Porque mesmo desejando desbravar o mundo do conhecimento, desejando conhecer as
belezas físicas da terra eu ainda mantenho esse louco desejo de reclusão?
No meu mais intimo acredito que meu gosto pela natureza se
dá ao fato da fixação. Uma grande arvore por exemplo, ela cria raízes profundas
e fica anos em um mesmo lugar, crescendo no seu máximo e suportando a
intempereis do tempo. Assim que quiser desfrutar de sua sombra, ou necessitar
de suas folhas, que vá até ela.
Gostaria de ser uma grande arvore frutífera que além de
adoçar a vida de muitas pessoas ainda oferecesse descanso e repouso, mas não
posso de um tronco sem vida, jogado ao leu, o qual o vento leva para onde bem
quer e ao invés de oferecer desfrute se torna um peso inútil.
Me sinto neste exato minuto reduzida ao pó. Um ser
desprovido de forças, mas repleta de fé e é essa fé que me diz que mesmo como
pó em algum momento ei de encontrar agua e ganhar forma.
Apesar do tempo ter se esvaído não vejo impossível para os
sonhos que estavam adormecidos.
Até mesmo para amar encontrei novo sentido.
Mais uma vez repito que hoje não sou a mesma de ontem e
estou longe de ser a mesma amanhã. Cabe a cada dia seu próprio peso, o que me
permite novos aprendizados, assim aprendo não apenas com o que me dizem ou com
o que leio, aprende ainda além com o que penso e sinto, o que comprova o código
que há entre eu e o sobrenatural, bem como confirma o poder da mente e a
intuição do coração, que são eles um só.
Passei a vida acreditando que não praticar o mal, usar o bom
senso e procurar entender o sobrenatural bastava, hoje começo a crer que sem a
caridade, a compaixão e o amor nada tem valia.
Rogo para que os céus entendam a prece de meu coração e
conduza minha vida em direção ao Bem Maior, que eu possa servir alegremente,
que tenha discernimento e que acima de tudo o Amor prevaleça sempre.
Me assusta a fragilidade humana, hora a saúde é inabalável
hora ela se vai como gás solto ao vento. E assim é tudo nessa passagem, hora
somos imbatíveis, hora estamos totalmente a mercê da sorte. Revejo a formiga
como melhor exemplo, hora são minúsculas e as pisoteamos, de repente, com o
corpo já sem vida, são elas que nos pisoteiam.
Do que vale alimentar o corpo e se esquecer da alma? Do que
vale demasiada preocupação com a aparência, com vestimenta, com apresentação,
se a alma está poluída com magoas, rancores e desamores? Do que adianta
demonstrar uma vida perfeitamente estável se seu interior está em total
desequilíbrio?
Antes de tudo é preciso que cuidemos do espirito, pois assim
o corpo físico responde de forma positiva aos cuidados, mas se for o contrario
dores físicas podem reclamar atenção e o dia a dia acaba nos cegando a visão e
assim procuramos apenas tratar as dores e não os males que nos conduzem a elas.
Sejamos todos pacientemente compassivos, saibamos ouvir o
momento do despertar de forma a dar vazão ao novo aprendizado e não desprezemos
os ensinamentos, pois cada momento é ideal para um passo a mais rumo à
evolução.
Há lições que nos surgem como simples pensamentos vãos, que
se ignorados simplesmente passam, por isso precisamos estar atentos e com o
coração quebrantado para identificar, mesmo sem entender, e assim tirar desde
instante magico o melhor proveito.
Que os anjos me guie rumo à luz, que a Paz e o Amor de Jesus
me conduza a Verdade e que eu jamais me distancie dela, passe o que passar e
venha o que vier.
Que eu consiga desenvolver o trabalho ao qual que comprometi
mesmo inconscientemente, e que além dele eu possa auxiliar há muitos que
precisam de apoio e atenção.
Que meu lamento seja vivicação de fé, que minhas dores sejam
conforto, que as lagrimas sejam emoção e que a esperança seja vida!
Gratidão ao Amado Mestre e desejo de muita luz a todos.
Que as bênçãos estejam presentes no dia a dia, que Seu reino
venha a nós.
Graça e Paz.
Ps.: ao findar ao findar a escrita o nome Severino me veio à
mente. Não sei porque.
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