Fatos & Boatos
Cada pessoa carrega em si um anjo que duela com um demônio e
não há um vencedor, há batalhas vencidas.
Ter personalidade é se conhecer suficiente para não permitir
que padrões sociais influenciem no seu gosto de viver. É saber tirar proveito
de todas as situações. É sorrir de si mesmo. É não ter medo das consequências
dos erros. É ter coragem suficiente para arriscar se. É ansiar ser feliz
diariamente.
Narrar minha trajetória seria como revive la em câmera lenta,
pois olhando as lembranças são tantos detalhes a serem narrados para um bom
entendimento do contexto, que um dia vivido se equivaleria a três descritos.
Por alguns momentos que vivi passei a acreditar que um dom,
ou uma maldição, me acompanha: o fato de ganhar de imediato à confiança das
pessoas. Não sei se as pessoas confiam em mim ou veem em mim uma pessoa para
desabafar, uma espécie de psicóloga.
Com tudo que a vida me ensinou procura ouvir as pessoas sem
tomar partido e sem opinar, tudo que faço após analisar a situação de diversos ângulos
de visão é tentar orientar a pessoa a fazer o mesmo, a sair do papel de vitima
e se colocar alheia à situação, para assim ter uma visão mais consciente e
racional do todo e assim analisar outros pontos de vista.
Não acredito que exista certo ou errado o que existe é uma infinidade
de possibilidades, mas que só surgem com clareza quando se observa de forma
racional o contexto, o que normalmente é difícil sendo personagem.
Em um dado momento de minha existência, digo existência porque
de fato eu havia desistido da vida, estava eu sem perspectivas, sem anseios,
apenas uma alma vazia e sofrida arrastando um corpo que se negava a ceder. Após
algumas experiências vividas com o sobrenatural decidi existir consciente já
que viver não era uma opção. Muni-me de força mesmo com todo medo que me
abraçava, fingi disposição mesmo com toda depressão que me acometia, sorria
mesmo chorando por dentro, respirava mesmo desejando a morte e ainda assim as estratégias
do destino me mostraram novos horizontes, não necessariamente a seguir, mas a
observar e analisar se minha situação de fato era a pior.
Após muitos acontecimentos, muita perca muitas desilusões,
vi minha vida ser tirada de mim instantaneamente e o pior foi que deixou a existência,
que passou a ter um peso insuportável. Pensei em muitas maneiras de findar a existência,
mas a cada possibilidade um detalhe me inspirava vida, por mais que ela
estivesse distante, por mais que fosse uma utopia...
Sem vida e certa de que não conseguiria findar minha existência
eu descobri o começo. Foi quando aprendi que recomeçar pode ser valioso, mas
pode conter manias, vícios, então aprendi e escolhi começar de novo.
Recordo-me bem e jamais ei de esquecer uma tarde em que
estava no trabalho e um grupo de atletas me chamou a atenção. Era um grupo
grande de umas 20 pessoas, em média de uns 30 anos. Todos bem apessoados e
muito comunicativos. Não me recordo de que estado eram, mas conversei com
alguns, indiquei lugares como bares, hotéis e restaurantes. Na conversa soube
que eram atletas paraolímpicos que estavam chegando para um campeonato que
estava acontecendo. Fiquei surpresa, pois a maioria não apresentava deficiência
visível, mas um a um eles começaram a falam de suas deficiências como que se
orgulhassem delas.
Havia dois deficientes visuais, uns três em cadeira de
rodas, que chegaram minutos depois, esses as deficiências eram mais visíveis,
mas os outros eram imperceptíveis, ao me revelarem pude entender por que.
Alguns usavam prótese na perna toda, outro do joelho para baixo, havia um com prótese
na mão, outro em todo braço, cada um de fato tinha algo faltando para poder se
dizer com o corpo humano perfeito, mas isso não lhes tirava a alegria de
existir e o prazer de viver. Haviam encarado horas de voo e estavam ansiosos
por conhecer a cidade, por iniciarem o torneio, nem de longe pareciam lamentar
sua condição. Pode ser que essa tenha sido apenas a primeira impressão, mas
duvido muito que fosse de todo diferente.
Fiquei entusiasmada com esse grupo, afinal eram tao animados,
alegres, cheios de vida, tinham tudo que eu havia perdido e de repente desejava
encontrar. Como sempre observei a situação como um sinal do sobrenatural, para
que eu passasse a observar minha existência de outra maneira, afinal podia ter
perdido tudo, mas ainda tinha saúde e fé suficiente para resgatar a esperança.
Pouco depois, no mesmo dia, recepcionei outro grupo de
amigos, agora eram apenas quatro rapazes e duas moças, que vinham pela primeira
vez ao estado para o casamento de um amigo. Em poucos minutos surgiu uma
empatia tão grande com um deles que acabamos trocando telefone, o que não era
um procedimento aceitável, mas foi mais forte que eu.
O rapaz não só era muito bonito como também educadíssimo e agradável,
não puder dizer não quando perguntou se eu podia orienta lo sobre os pontos
turísticos fora dali também. Por algum motivo senti que não se tratava de um
flerte, mas sim de uma ingenuidade por estar em um estado desconhecido e temer
que os amigos não o acompanhassem nos passeios.
O casamento seria na mesma noite, no entanto ele ainda
ficaria na cidade por mais dois dias e não pretendia ficar o tempo todo preso
em um hotel bebendo como os amigos.
No dia seguinte me ligou ainda pela manhã questionando sobre
um shopping na cidade e um bom local para almoçar, sugeri um restaurante em um
dos shoppings mais conhecidos, talvez por ser o maior da cidade não sei, mas
normalmente quando se fala em um shopping aqui ele é o primeiro a ser mencionado,
então levei isso em consideração para indicar.
Não bastasse a indicação me veio o convite para acompanha lo
no almoço. Sem hesitar aceitei, afinal além de lindo era de educação admirável,
por que não me arriscar?
Encontramos-nos no shopping como combinado e durante o
almoço conversamos muito. O teor da conversa que de fato me deixou atônita.
Ele me contou sobre sua vida difícil, foi criado com a mãe e
o padrasto que abusava dele desde os sete anos de idade. Segundo ele a mãe dele
sabia e pouco depois um tio também começou a abusar, assim ele cresceu achando
que aquilo era normal, até que aos 13 anos, cansado de sofrer abusos resolveu
ir para um monastério, queria estudar e ser padre para não mais passar por situações
parecidas, porem logo no primeiro ano começou a ser aliciado. Segundo ele diferente
padre assediava os menores e os ameaçava no nome de Cristo.
Diante a situação ele realmente acreditou que aquilo era
normal, que onde quer que fosse seria assim, pois a vida toda era aquilo que
lhe acontecia. Ficou com os padres até perto dos 18 anos, quando revoltado
deixou tudo e resolveu tentar a vida em outro estado. Começou a trabalhar, a
estudar, já morava sozinho, foi quando conheceu uma jovem e se apaixonou pela
primeira vez.
Sentiu-se feliz, aquela sim era a realidade que ele achava
que devia existir, mas pouco tempo depois de namoro ele descobriu que a moça
não namorava só com ele, que ficava com os ‘amigos’ dele. Era do tipo que
estava no quarto da casa dele como namorada, mas pegava o ‘amigo’ na cozinha.
Ficou muito revoltado, não sabia como a vida era de fato,
pois tudo ia contrario ao que ele acreditava e desejava, por isso se fez
recluso por uns anos, período em que até se envolveu com algumas mulheres e também
com homens, mas focou nos estudos e na carreira. Agora que estava formado, bem
empregado e ganhando bem ele se via perdido diante a vida. Não sabia de fato
como devia seguir, não sabia se gostava de ficar com homens ou mulheres, não sabia
se era heterossexual ou homossexual. Dizia que não sentia interesse por homens,
mas que por passar a vida todo sendo assediado achava que aquilo tinha que
continuar, havia aprendido a ter prazer daquela maneira.
Ele me contava esses detalhes com tanta verdade nas
palavras, com tanta sinceridade no olhar, que durante nossa conversa me esqueci
de que ele era um estranho e apenas me vi ouvinte do contexto. Em minha mente
as cenas narradas se formavam como uma novela que se revela capitula após capitulo.
Tudo que pude concluir é que daquela história ele era o personagem principal,
como o protagonista que sofre, sofre, mas no final acaba bem e feliz.
Tentei mostrar a ele esse ponto de vista, mas ele realmente
estava perdido em relação a sua sexualidade, o que contradizia com sua vida
profissional.
Conversamos a tarde toda, apesar do assunto ser serio
sorrimos pelas possibilidades e procurei olhar o lado positivo do todo: ele era
lindo, saudável e agora bem sucedido.
Trocamos contatos e no dia seguinte ele voltou para o estado
onde estava morando.
Mantivemos contato por muito tempo, até onde ele me disse
que estava namorando. Perguntei se era um homem ou uma mulher, ele disse que
era uma mulher, que estavam bem e ele estava feliz. Alegrei-me por ele, parecia
mais centrado.
Nosso contato ficou cada vez menor, mas guardei a imagem que
ele havia se encontrado e estava bem.
Anos depois pude reencontra lo. Fui ao estado em que ele
estava morando e não medi esforços para vê lo. Encontramos-nos em um barzinho
badalado da cidade. Ele não havia mudado muito, estava com o jeito mais másculo,
mas continuava lindo e com a mesma educação diferenciada de antes.
Conversamos sobre quando nos conhecemos, sobre o quanto nos
identificamos e conversamos, sobre as dificuldades existencialistas que ambos estávamos
passando, mesmo que sendo de maneiras distintas, sobre todo aquele tempo e tudo
que havia ocorrido nele.
Ele me contou que chegou a morar com a mulher que me disse
estar namorando, mas que quando tudo ia bem, quando já tinha concedido quitar a
casa, o carro, e fazer uns investimentos ela simplesmente decidiu se separar e não
abriu mão dos bens, visto que haviam morado juntos.
Certo de que a vida realmente não era como ele imaginava que
deveria ser ele abriu mão de tudo para ela e foi viver uma vida louca, já que
assim devia ser. Começou a mexer com coisas pesadas (o que da maneira que ele
me disse envolvia não só drogas, mas quem sabe prostituição, tráfico, sabe lá, prefiro
não me dizer explicitamente, apenas repetia que era coisa muito mais pesada que
eu pudesse imaginar), realmente saiu de si para viver o que a existência impunha.
Se tornou o que ele mesmo taxava de ‘porra louca’. E assim ficou por um período
até que se cansou e resolveu voltar ao seu estado dito normal, onde trabalhou
em dobro para reconquistar tudo que havia perdido o que ainda não estava perto
de se concluir, mas ele já havia traçado o objetivo, o que é o primeiro passo
da conquista.
Quase não nos falamos, mas vez ou outra trocava uma mensagem
na rede social e até onde sei ele já comprou um carro bom, comprou outra casa, não
tao boa quanto à outra, mas está feliz por estar conseguindo pagar as prestações
e por te la mobilhado como desejava, se definiu como heterossexual e está
recuperando o tempo perdido, aproveitando a boa fase para pegar muitas mulheres,
o que não fez no passado. Segundo ele a única certeza que tem é que não quer se
casar tão cedo.
Sempre que conversamos declaro a ele a admiração que tenho
por ele ter superado os traumas, os medos, as duvidas e ter optado pelo caminho
“correto”, de ser um trabalhador honrado e honesto e conseguir conquistar seus
objetivos pelo suor do seu trabalho.
Ele sempre comenta não entender porque quando nos conhecemos
já me contou tudo isso. Segundo ele negava até para si mesmo o todo e de
repente se abriu a mim, mas que nunca se arrependeu, pois eu nunca o critiquei,
apenas escutei.
Isso acontece com frequência na minha vida, pessoas que nem
conheço, nunca vi antes, puxam papo e desabafam suas dores. Não sei exatamente
se a pessoa que é muito carente e tem a necessidade de conversar ou se de fato
minha personalidade inspira confiança.
Sei apenas que a meu ver isso é devaneio, por isso digo que
todo mundo preciso de um psicólogo, não precisa necessariamente ser um profissional,
basta eleger uma pessoa em quem confia de verdade, um bom ouvinte que não opine,
apenas escute e dê opções diferentes de visão.
No meu caso continuo vivendo situações assim, seja no ônibus,
sejam na recepção de uma clinica, na fila do banco, no caixa do supermercado,
onde quer que eu vá a sempre alguém querendo desabafar. Nem sempre consigo ser
racional e interagir, na maioria delas apenas escuto e finjo atenção, não sei
de fato o que a pessoa pensa, mas pela empolgação da despedida em meio a
agradecimentos acredito que fica mais aliviada.
Hoje vejo essas situações como estratégias de Deus, pois com
elas posso aprender que há situações piores que a minha, que há pessoas mais
carentes de atenção que eu e principalmente aprendo a como não agir com
estranhos, ou seja, Deus usa esses momentos para trabalhar quem fala e para me
moldar como ouvinte.
É por isso que ao invés de sair por ai falando da minha vida
com todo mundo, lamentando minhas dores ou gritando minhas alegrias eu
simplesmente escrevo. Ao menos assim só tem acesso quem é curioso e não roubo a
atenção nem o tempo de ninguém. Parar e ler são uma opção.
Conclusão: Não conhecemos as estratégias do Criador, podemos
passar por uma situação que parece constrangedora, mas há um por que. Algo está
sendo trabalhado naquele momento. Seja percepção, aceitação, discernimento.
Tudo tem uma razão de ser e até no silencio há resposta. É preciso aceitar cada
situação como lição e não se deixar traumatizar. O que faz a diferença e
começar quantas vezes precisas for. Em alguns momentos somos anjos na vida de alguém,
mas em outro podemos ser demônio.
Uma amiga de infância que era casada com um amigo em comum também
da infância, certa vez me procurou para desabafar sobre seu casamento. Já
estavam juntos há alguns anos e na época tinham um garoto de uns três aninhos.
Eu sou um tanto fria para lidar com relacionamentos, pois
seja como for acredito que valha enquanto faz bem a ambos, a partir do momento
que começa a magoar é porque não deve prosseguir, até por isso não gosto de aconselhar
ninguém. Já sofri suficiente para aprender que o amor dura enquanto há
felicidade, depois insistir é pedir para sofrer, então prefiro a separação amigável
que a tentativa traumatizante.
Ela me disse apenas que os dois estavam brigando muito e que
ela havia descoberto que ele estava traindo ela, que aquilo era um absurdo e
que eu devia falar com ele, visto que sempre fui muito amiga de ambos. Na ocasião
me muni de razão para falar a ela que nessa situação ela tinha duas opções:
1° Conversar com ele, pedir desculpas pelo que quer que
fosse, perdoa lo como marido e esquecer o assunto e começar de novo o
casamento.
2° Conversar com ele, pedir desculpas pelo que quer que
fosse, perdoa lo como pai do seu filho, aceitar a situação e tocar a vida.
Ela achou um absurdo eu ser tao fria diante a situação,
segundo ela como amiga eu devia brigar com ele, dizer a ele que ele era um moleque,
que não podia fazer aquilo, que ela não merecia etc.
Eu até podia fazer dessa maneira, mas que diferença faria na
vida deles? Eu seria apenas mais uma pessoa tomando partido e acusando o. Na
verdade não estive com eles durante o casamento para saber como era o dia a
dia, para ponderar o que o levou a tal ação, então como julga lo?
Tudo que sei é que naquele momento fui demônio na vida dessa
amiga, tanto que anos já se passaram e até hoje ela não fala comigo.
Sei que voltaram pouco depois, que a maneira deles está bem,
mas de uma forma que eu não desejo para mim. Vive uma vida noturna, de baladas,
o que permite que um viva corneando o outro, que por sua vez finge não saber.
Se ao menos fosse com pessoas distantes, que provavelmente não verão novamente,
mas é com os amigos próximos, do convívio social, que frequentam a casa deles.
Melhor seriam se assumir como adeptos ao swing e viver uma relação aberta de
vez, assim causaria menos espanto, mas quem sou eu para criticar? Cada um vive
o que acredita.
Por isso estou na fase da reciprocidade. Acredito estar
completa com meu eu, após anos trabalhando meu ser, finalmente sei quem sou, o
que quero e como conseguir. Pode ser que eu continue com dificuldade de
evoluir, pode ser que eu continue a perder tempo, mas agora o faço de forma
nitidamente consciente.
Foi à fase em que tocava o terror sem me preocupar com o que
as pessoas achavam, vivo em sociedade e querendo ou não preciso respeitar os padrões,
por mais que eu não concorde nem viva com eles, mas respeito é sinal de
maturidade.
Passou a fase em que precisava me fazer aceita para me
sentir confortável, hoje se aproxima de mim quem quer e fica quem suportar, sou
quem sou tenho bom senso suficiente para entender que minha liberdade vai até
onde a do outro começa.
Já não mais preciso estar presente para estar junto, tao
menos participar para me manter, o ditado “diga-me com quem tu andas que te
direi quem és” não cabe a mim. Consigo andar com porcos e por mais que os
respingos me atinjam consigo não me lambuzar.
Toda ignorância e intolerância cederam lugar a ponderação e
cautela, onde procuro mais ouvir que falar escutar além de ouvir, refletir
antes de falar, ser flexível diante um novo ângulo de visão e manter minha opinião
acima de qualquer imposição.
Aprendi que muitas vezes é melhor ouvir asneira e silenciar para
evitar atritos que tentar alertar um tolo de sua ignorância.
Curtindo cada segundo dessa nova fase: reciprocidade. Onde
cada um tem de mim exatamente o que merece não como vingança, mas como
respeito. Chega de jogar perolas aos porcos. Não acredito que cada um colha o
que planta, pois não consigo ser rude como algumas pessoas, mas acredito que a indiferença
é a mais forte das armas contra os insensatos.
Vamos que vamos avante e além me doando na mesma proporção que
recebo.
Meus pensamentos vagam na direção que meus anseios mandam,
as lembranças são apenas nostalgias.
Não tenho saudade do passado, tenho saudade de pessoas e de situações,
mas definitivamente estou vivendo minha melhor fase.
RECIPROSIDADE JÁ!
#despertaréaprenderaAMARasiassimadetudoetodos
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Me pergunto se sou mesmo maluca ou há mais alguem que pensa como eu? Critícas são sempre construtivas, deixe seu comentário.