sexta-feira, 10 de maio de 2013

Fatos & Boatos: Meu erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia age.


Eu sempre assisti telejornais, acompanhei os crimes bárbaros e brutais, mas nunca imaginei que um dia pudesse acontecer algo semelhante comigo e hoje estou aqui.
                Apesar do tempo já ter passado eu durmo mal à noite, tenho pesadelos, acordo chorando como se tivesse sido ontem.
                Eu duvido que um dia eu vá me acostumar com essa nova vida, ou talvez o certo seja dizer com essa falta de vida, porque viver me escondendo não é viver, é existir, é apenas esperar pela morte.
                E eu quem devia ter morrido. Eu não mereço estar aqui. A ferida nunca cicatriza, o sangue nunca para de jorrar e a cada vez que percorre meu corpo é como se estivesse envenenado, queima minhas entranhas e sufoca minha alma.
                Eu estar aqui é outro erro.
                Que país é esse onde os criminosos andam soltos nas ruas e as vitimas precisam se esconder? Onde quem tirou uma vida caminha impune trabalhando enquanto o julgamento não vem e a parte arrasada tem a vida desestruturada e ainda precisa viver como animal irracional, preso, sem poder ir e vir quando e para onde quiser? Do que adianta ter sobrevivido se minha vida acabou naquela noite?
                Aquela, tinha tudo para ser uma noite feliz. Heitor estava tão animado, tão alegre, narrava seus contos entusiasmado. Havíamos passado a tarde juntos e hoje analisando aquele dia, até parece que ele estava pressentindo que algo iria acontecer. Ele estava tao carinhoso, tao dengoso de minha atenção, e eu não me importei com nada, me dispus o dia todo a ele, fazendo suas vontades, brincando, sorrindo.
                Realmente aquela foi nossa despedida! Me lembro de cada detalhe daquele dia, me lembro de cada expressão de Heitor até seu ultimo minuto, quando a felicidade dá lugar a todo terror que surgiu...
                O ano era 2009, Heitor já estava com cinco anos, quando seu pai e eu após um casamento de longos oito anos nos separamos. A separação foi amigável e apesar das saudades Heitor aceitou bem a situação. Logo entrou na escola e acredito ter percebido que a vida é feita de escolhas, as quais nem sempre nos agrada, mas é preciso aceitar.
                Apesar da pouca idade Heitor sempre foi meu companheiro, meu amigo, meu parceiro mesmo. Sempre foi mais inteligente que as crianças da sua idade, tinha uma resposta para o que quer que fosse e uma imaginação de dar inveja. Eu quase explodia de alegria quando ele dizia que queria ser escritor.
                 Mal sabia escrever, rabiscava alguns traços de forma ordenada em uma folha e dizia que aquela seria a melhor das historias. Ele lia cada traço como se soubesse de fato o que estava dizendo. Contava historias seguindo um raciocino logico que não entendia de onde ele tirava, mas ele dizia que era só entrar no mundo da imaginação.
                Ele amava contos, escrevia e narrava uma bela floresta onde homem algum havia ido, com animais que ainda não eram conhecidos, em uma ilha isolada no meio do oceano, onde só se chegava à barco. Dizia que era uma ilha de mistérios, onde a noite fadas e duendes se reuniam para cantar, sereias vinham assistir, e seres não definidos participavam dançando e animando o ambiente.
                Ele descrevia cada ser como se pudesse vê los. Dizia que eu era a observadora, uma espécie de rainha que vivia no alto de uma colina longe da ilha, mas que mesmo de longe eu observava tudo. Minha visão era tao poderosa que mesmo as arvores tampando tudo eu ainda conseguia ver e assim saber tudo que se passava ali.
                Segundo ele minhas pernas eram fortes e rápidas como de leões, meus braços flexíveis como de macacos, meu corpo ágil como de uma cobra, meu rosto tinha uma luz branca muito forte que não permitia ninguém ver, mas ele dizia saber que nos meus olhos havia fogo. Mas o que ele mais gostava de admirar eram minhas asas, principalmente plainando no ar, eram como águia a voar.
                Nem sei quantas historias diferentes Heitor narrou com essa personagem. Ele sempre a desenhou, uma figura que nunca consegui de fato imaginar, mas para ele ela era bela. Ele contava que ninguém nunca conseguiu ver o pico onde ela morava e que para ele era morava no céu, escondida nas nuvens. Porque sempre que ela ia embora da ilha ao atingir certa altura ela se transformava em fogo e todo seu corpo dava lugar a um rastro de fogo que se transformava em um belo arco ires.
                Cheguei a temer pela imaginação de Heitor, mas isso nunca o prejudicou na escola, ao contrario, ele tinha muita facilidade para aprender desde o alfabeto aos sinais matemáticos e sempre foi o contador de historia da turma. Era muito querido onde quer que fosse.
                E hoje tudo que restam são lembranças. E a culpa é toda minha. Fui eu quem causou tudo isso. Eu podia ter evitado se desde o começo eu tivesse prestado atenção nos sinais. Foram tantos sinais. Porque eu não vi? Porque eu não me afastei? Porque eu quis arriscar?
                Não eu não posso suportar a verdade. Eu não mereço viver e se estou viva de fato mereço viver aqui, longe da civilização, longe das pessoas que conheço, longe do mundo, longe da liberdade. Eu não aguento mais, não sei mais o que pensar, por tanto ângulo que analise eu vejo Heitor sorrindo, calma e feliz.
                Eu sei que não. Não foi assim que o vi pela ultima vez, mas eu não consigo me lembrar... sei que o vi, sei que estava ali, mas minha memoria não o recorda naquela noite.
                Meu erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia age.
                Haviam se passado apenas seis meses desde minha separação. Paulo já estava morando com outra mulher, na verdade não sei a quanto tempo ele mantinha uma vida dupla, mas sei que quando separamos não fez questão de esconder que tinha outra família.
                Eu nunca lamentei a situação de esposa traída, pois nunca soube de nada e meu casamento sempre havia sido perfeito, só no ultimo ano que Paulo não demonstrava mais interesse em mim, vivíamos como amigos, mas também, eu estava tao feia e descuidada que não era culpa dele.
                Quando propus a separação na verdade era acreditando que ele iria se comover e mudar, acreditava que nossa relação melhoraria. Esse foi o dia que Paulo mais se empolgou no ultimo ano, vi em seus olhos alivio, e ele me abraçou carinhosamente dizendo que estava muito feliz por eu ter essa iniciativa visto que não estávamos bem.
                Naquele momento eu soube que o problema não era eu, mas ele. Ele já não me amava mais, não me desejava mais, e na verdade já havia rompido nosso casamento há muito tempo, só não tinha coragem de dizer.            Diante o animo dele não pude dizer nada a não ser que seria melhor assim.
                Nos separamos sem grandes atritos, vendemos a casa onde morávamos e dividimos todo dinheiro. Ainda fiquei com a vantagem do carro, pois facilitaria minha locomoção com Heitor.
                O divorcio não representou guerra para nós, pelo contrario, acho que também estava cansada de uma relação insossa. Nos casamos jovens e acabamos não aproveitando muito da solteirice da juventude. Paulo havia namorado muito pouco e quanto a mim, foi meu primeiro namorado.
                 Nos tornamos amigos dentro do possível, mantínhamos uma boa relação pelo Heitor. Eu costumava dizer que se não havia conseguido ser uma boa esposa eu queria ser a melhor ex mulher possível.
                Menos de dois meses depois Paulo já estava morando com outra mulher. Não sei muito sobre ela, apenas que tinha um bebe de poucos meses. Nunca quis confirmar se era de Paulo ou não.
                Durante os primeiros meses dediquei minha atenção a Heitor, havíamos acabado de nos mudar para um apartamento, e para uma criança que é acostumada com um quintal enorme essa era uma mudança e tanto.
                Não queria que ele se sentisse prejudicado de alguma forma, mas logo ele se adaptou, o que surpreendeu até mesmo a mim.
                Tínhamos uma rotina programada, saiamos pela manha e antes de ir para o trabalho deixava Heitor na escola, onde ele ficava por tempo integral. A escola é excelente e ele além de aulas de inglês, dança, aeróbica, ainda fazia duas habilidades extras, as quais ele escolheu natação e caratê.
                Eu me sentia segura com meu filho ali. A fortuna mensalmente empregada compensava meu sossego mental, por saber que ele estava sendo bem tratado.
                Foi nas primeiras férias de Heitor, após a separação, que tudo começou. A madrinha dele nos convidou para uma viagem ao litoral, visto tudo que havíamos vivido recentemente não podia dizer não. Eu também estava precisando descansar e ela sempre havia sido uma ótima companhia.
                O destino escolhido foi às praias de Rio Grande do Norte. Passamos uma semana lá, teria sido perfeito, não fosse por Gisele insistindo em dizer que eu devia sair e arrumar um namorado, afinal já haviam se passado mais de seis meses e eu ainda não havia sequer olhado para outro homem.
                Para mim não era tao fácil, Paulo havia sido o único homem da minha vida. Tinha quatorze anos quando o conheci e ele dezesseis. Foi no final do segundo grau e para não nos separarmos optamos pelo mesmo curso na universidade, assim podíamos ficar próximos, não demorou muito mais que quatro anos e estávamos casados. Foi o melhor ano de nossas vidas, a menos víamos assim, primeiro nosso casamento, depois a formatura, tudo estava perfeito e foi assim por anos.
                Agora lá estava eu, vivendo meus trinta anos e solteira, sem a mínima ideia de como uma mulher solteira dessa idade se comporta, tao menos como paquerar.
                Gisele me dava muitos conselhos durante a viagem, estava na casa dos trinta e alguma coisa, nunca dizia exatamente. Já havia sido casada também, mas preferiu não ter filhos. Ela dizia que bom mesmo eram os afilhados, assim enquanto os pais educavam, ela como madrinha mimava.
De fato isso acontecia. Heitor era apaixonado por ela, pois sempre que estavam juntos era garantia de muitos sorrisos, repletos de chocolates, cachorro quente e outras delícias que ele amava.
Voltamos para casa e fiquei pensando sobre isso. Já estava mesmo me sentindo sozinha nas noites frias de inverno. Poucos dias depois liguei para Gisele e combinamos de sair.
Heitor foi para a casa do pai, então aproveitamos para ir a um barzinho que Gisele frequentava sempre.
Fiquei admirada com a agitação da noite, no principio me perguntei onde estive por tanto tempo que não conhecia aquele lugar. Na verdade eram vários bares um ao lado do outro, sentamos em um que era dois andares. Ficamos no térreo. Haviam algumas TVs espalhadas no local e nessa noite transmitia uma luta de MMA.
Um som ao fundo embalava Capital Inicial, o que me agradou ainda mais, quando na sequencia veio Titãs, Legião Urbana e diversos rocks nacionais.
Eu nunca havia visto tanta gente bonita reunida. As pessoas estavam bem arrumadas, as mulheres maquiadas e deslumbrantes. Os homens sorridentes. Um clima de harmonia no ar.
Gisele logo pediu um caipirango, que veio seguido de um caipixi, caipiuva, e por fim já nem consegui acompanhar mais, pois a cada um que ela pedia para ele vinha um para mim. Nunca tive o habito de beber então essas doses foram suficientes para me fazer esquecer toda responsabilidade e deixar me envolver quando dois homens pediram para sentar na nossa mesa.
Para ser sincera não recordo exatamente da cena, nem me recordaria do homem não fosse acordar em um quarto de motel ao lado dele na manhã seguinte.
Havia ido no carro de Gisele e lapsos de memoria me diziam que ela estava por ali também, o que pude confirmar quando abri a porta do quarto duplo e a peguei nua na piscina.
Tive coragem apenas de dizer que queria ir embora, ela insistiu que era cedo, que podíamos passar a tarde ali, assando uma carne, em uma tarde descontraída, mas insisti e ela não hesitou.
No percurso de casa não sabia se minha cabeça doía mais pelos drinks ou pela vergonha de saber que havia me deitado com uma pessoa que não conhecia. A cada lembrança que me surgia a vergonha crescia e proporcionalmente a dor de cabeça.
Para Gisele tudo era festa, afinal ela estava acostumada com isso. Dizia que eu devia me acostumar, pois isso era normal. Como ser normal pessoas que mal conversaram, não sabem nada da vida uma da outra, terem tanta intimidade? Definitivamente isso não era pra eu.
Os dias seguiram normais, Gisele sempre me convidando para sair, o homem da tal noite mandando mensagem, já que eu não atendia as ligações, mas eu não desejava isso. Podia estar solteira, podia estar com 30 anos, mas ainda acreditava no amor construído, ainda acreditava no romantismo, ainda acreditava que as pessoas compartilhassem ideais.
Me permiti sair com o pessoal do trabalho algumas vezes e pude conferir que o que Gisele dizia era certo, era uma pegação geral. Cada fim de semana uma pessoa diferente. Para quem via pareciam namorados, sendo que haviam acabado de conhecer. O que eu não me permiti novamente foi beber e perder a razão.
Após alguns fins de semanas esses passeios estavam sem graça, foi quando um comercial publicitário me chamou atenção. Era um site de relacionamentos. Me perguntei que tipo de pessoa apelava para esses sites, visto que nas baladas o negocio estava tão fácil porque um site?
A curiosidade foi maior que eu e quando vi já havia não só me cadastrado, mas estava trocando mensagens.
Alguns homens desde o primeiro contato já percebi que estavam ali só por curtição, para ver se encontravam alguma bobinha carente para usar, ou mesmo para banca los, mas um homem especificamente me chamou a atenção.
Seu perfil era sucinto e não dava muitas explicações, em frases curtas demonstrava cultura e maturidade. Começamos a trocar e-mails, acabei criando uma rede social para manter contato com os amigos e com ele. Evitei falar sobre mim, mas o básico que havia sido casada, que tinha um filho de quase seis anos, que era publicitária. Ele me contou sobre ele também, estava com trinta e três anos, a idade de Cristo como ele dizia. De família simples, porem guerreira, teve uma adolescência difícil, por isso não casou antes, preferiu investir nos estudos, de modo que conseguiu se formar em direito e pouco depois passar em um concurso para delegado federal, o que era recente.
Conversamos por quase um mês até que eu sentisse liberdade para conhece lo pessoalmente.
Era uma sexta feira anoite, eu sugeri que fossemos ao shopping, pensando ser um lugar publico sem grandes problemas, mas nada resolveria, visto que ele fez questão de me buscar em casa.
Tive medo, pois por mais que nos falássemos diariamente eu nunca havia o visto pessoalmente, não conhecia mais que as historias que contava, não sabia sobre sua índole.
Gisele quem ficou com Heitor essa noite, quando sai ele já estava dormindo. Eu dizia a ela que mandaria um sms por hora, que se não mandasse ela podia me ligar e ver o que aconteceu. Ela ria e dizia que isso não era necessário, afinal hoje em dia era normal esse tipo de encontro.
De fato estávamos vivendo a era digital, onde os relacionamentos já não tinham o calor humano de antes. Na minha adolescência namorava tomando sorvete na esquina, comendo pipoca na praça, comendo pastel na feira, meu filho provavelmente não verá nada disso, pois enquanto ele ainda é uma criança os namoros são na tela de um computador ou celular, e o tempo que seria de conhecer a personalidade da pessoa e preparar o futuro não existe, vão direto para a faze da intimidade, o que após enjoar do produto faz com que a relação termine.
Foi quando entendi que essa geração vive relacionamentos instantâneos, não há mais romantismo, não há mais respeito, não há tempo de ter afeto e carinho, é só o sexo que importa e não faz diferença se muito ou pouco, se bom ou ruim, nem mesmo com quem seja, quanto mais melhor.
Receosa, passei meu endereço a Martins, que na hora exata já me aguardava. Antes de entrar no carro memorizei sua placa e na sequencia enviei em um sms ao meu e-mail e a Gisele. Sei que se algo acontecesse isso de nada valeria, mas ao menos já teriam uma luz para entender o que se passou. Quando viu que estava no celular questionou o que eu fazia, não neguei e falei a verdade.
Ele sorriu, disse que se ele um psicopata ou coisa assim isso de nada adiantaria. Concordei com ele, mas reafirmei minha tese de que a menos estava fazendo minha parte. Ele sorria, pois era nítido que eu não estava a vontade com aquela situação e mesmo assim arrisquei.
Meu erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia age.
No principio estava nervosa, não sabia como agir. Martins parecia tranquilo, como se aquilo fosse rotineiro na vida dele, fato que ele negava.
Conversamos um pouco e resolvemos assistir a uma comedia. O filme foi ótimo, sorrimos muito e ao final fomos lanchar, momento onde ele me pediu um beijo. Não neguei, afinal eu também queria.
Conversamos por horas, sorrimos muito, até consegui me soltar. Quando foi me deixar em casa ele tentou de todas as maneiras tocar em meu corpo, mas claro que não deixei e ele até se divertiu com isso. Disse que me respeitava, mas preferia que eu me soltasse mais. Eu disse que quando sentisse liberdade para isso o faria.
Pude confirmar que ele falava a verdade sobre ser delegado, afinal era o que parecia, pois cheguei a pegar o distintivo e ver. Ele também não fez questão de esconder a arma, que estava sempre na cintura, tirando apenas quando entrava no carro. Cheguei a questionar sobre andar armando mesmo estando a paisana e ele disse que andava assim 24 horas.
Talvez aquele fosse o primeiro sinal e eu ignorei...
No decorrer da semana nos falávamos diariamente e apesar de não termos muito em comum ele se tornou uma companhia agradável. Era uma possibilidade, alguém em quem pensar, alguém para quem ligar, alguém com quem planejar sair.
No meio da semana teria um evento alternativo, o qual a agencia estava divulgando. Seria em um local centralizado, o que já não é bem visto, por ser um local com um numero grande de moradores de ruas e usuários de drogas, mas pelo que vi da organização o evento estava bem planejado, teria bandas locais de blues e jazz, além de comidas e bebidas.
Não pensei em outra pessoa se não em Martins, mas mal terminei de falar e ele já falou sobre ser um local de maconheiros. Me assustei com o comentário e disse a ele que fosse sem pré conceitos, aberto para ouvir um bom som e comer alguns aperitivos, que se não tivesse legal não precisaríamos ficar, que ele até podia deixar a arma em casa para evitar constrangimentos. Nesse momento minha surpresa foi ainda maior, ele disse que eu estava era armando uma ‘casinha’ para ele. Demorei entender o que isso significava, mas assim que consegui me desculpei e disse que preferia que ele não fosse.
O segundo sinal e eu não percebi...
Fui ao evento e pude conferir que de fato estava muito bem organizado, tudo muito simples, lembrando interior, mas as pessoas estavam produzidas. Não vi nenhum marginal por perto, se bem que marginal não é só pedinte e andarilho, há tantos marginais vestidos de ternos e usando gravatas, mas não vi os tais maconheiros que Martins havia citado, pelo contrario, haviam muitos idosos e até crianças. O evento seria bem familiar, não fosse as bebidas alcoólicas.
No dia seguinte nos encontramos e pude compartilhar com ele os acontecimentos do evento. Sempre que entrava no carro dele me assustava com a pistola que ficava ao lado do cambio do carro. Dizia a ele que preferia que ele a deixasse em um lugar que eu não visse, mas ele fazia questão de pega la, me dizia para pegar, sentir o peso, me mostrava como se destravava. Eu preferia não ver, mas por outro lado entendia que aquele era o mundo dele, então devia ser normal que ele se comportasse assim.
Começamos a namorar. Desde o principio Martins se mostrou muito ciumento. Queria saber de cada passo que dava. Se ia as compras queria saber até o que comprava. Acreditei que aquilo fosse normal e pensei que ele se sentisse um pouco inseguro porque eu não quis apresenta lo para minha família, afinal havia o Heitor e eu não queria o envolver em uma relação que eu não sabia no que daria.
Quando Heitor completou seis anos ainda estávamos nos conhecendo e ele não se importou por não ir à festa, mas quando ele fez sete anos foi diferente. Sempre convivi bem com Paulo e isso incluía sua nova família também. Mesmo sabendo que Sheila sua nova mulher podia ter sido sua amante nunca a maltratei, afinal segundo Heitor ela lhe tratava muito bem e isso bastava para que eu a respeitasse.
No entanto o fato de saber que eu receberia no aniversario do meu filho a mulher do meu ex marido deixou Martins desequilibrado, eu até disse que ele estava convidado, mas no fundo tinha medo de como ele se portaria no mesmo ambiente que Paulo, certo disso não fez esforço para mudar o dia de seu plantão.
Já estávamos há pouco mais de um ano juntos e não tenho nada a reclamar dele. Era atencioso, respeitava meu espaço, mesmo sendo ciumento e querendo saber de meus passos, mas como não tinha nada a esconder não me incomodava.
No começo saiamos com o pessoal da agencia, mas houve dias em que Martins bebia de mais e sabendo que ele era delegado as pessoas ficavam perguntando como era o trabalho, sobre grupos de extermínio na policia, sobre crimes não solucionados, e tudo mais sobre esses assuntos que eu tanto evitava. Em alguns momentos os sinais eram claros e ainda assim eu ignorava. Um dia terminamos uma campanha publicitaria tarde e passei com a equipe em uma lanchonete para tomar um açaí, era uma sexta feira de feriado, só não sabia que Martins havia passado a tarde bebendo com os amigos. Ele me ligou e eu sem hesitar disse onde e com quem estava, ele logo se dispôs a ir me encontrar. Estava tao bêbado que já chegou colocando a arma sobre a mesa, falava alto sobre uma prisão que haviam feito dias atrás, um caso que ainda estava na mídia. Um colega que nutria um desejo reprimido por ser policial não poupava perguntas e ele embriagado não media as respostas. Após aquela noite pedi a ele que quando bebesse não me procurasse.
Ele ficou muito tento sem beber, dizia que não fazia questão e já que eu não gostava não queria mais. Achei bonitinho o ato, visto que a maioria dos homens acham vantagem sair e beber horrores. Por muito tempo Martins não fez graça, mas não sei se foi coincidência nas vésperas do aniversario de Heitor ele estava irritadíssimo. Há pouco havíamos viajado juntos comemorando nosso aniversario de namoro, mas mesmo fora da cidade, onde ninguém o conhecia ele não relaxava. Parecia sofrer síndrome de perseguição, acreditava que estava sendo observado, que a qualquer momento alguém tentaria contra sua vida. Analisava as pessoas pela forma de se vestir e de falar. Suspeitava de tudo e de todos, até eu me sentia analisada as vezes.
Na verdade ele sempre foi nervoso, acreditava ser pelo trabalho, mas preferia ficar alheia ao que acontecia, afinal eu não podia ajudar em nada mesmo. Ouvia o que ele contava e pronto.
Nas vésperas do aniversario de Heitor ele estava tao nervoso que uma noite enquanto conversávamos no carro outro carro surgiu acelerando e quase bateu no carro dele, tudo aconteceu em um milésimo de segundo, mas quando voltei o olhar a ele já estava com a arma em posição de tiro.
E os sinais naquela semana não pararam...
 Na noite anterior ao aniversario paramos em uma rua paralela a minha apenas para virar o carro e retornar, já eram mais de 23 horas e do nada surge um andarilho, mas vendo que acelerou o carro foi mexer em uma cesta de lixo. Martins passou devagar ao lado dele que pediu umas moedas, Martins disse que daria, que era para ele se aproximar. Enquanto falava já tirou a arma da bainha, nem o andarilho acreditava que ele fosse dar moedas e questionando se era verdade mesmo se aproximou, foi quando Martins empunhou a arma e ordenou que ele se mandasse. Meus pedidos para não agir daquela maneira eram em vão. Não havia necessidade daquilo, mas confesso que nunca vi alguém correr tanto sem nem olhar para traz. Não sei quantas vezes aquele homem viu a morte de perto, mas aquela com certeza foi uma delas.
                O aniversario de Heitor foi um grande evento para ele que via toda família reunida com os amigos da escola e para mim, que pude perceber que por mais que a vida tivesse tomado rumo diferente do planejado tudo ia bem.
                Quando me casei com Paulo estava certa de que ele era o homem da minha vida, o que seria pai dos meus filhos, com o qual eu envelheceria, mas ele estava ali, ao lado de outra mulher e com uma criança que sem dúvida era sua, visto os traços tao semelhantes. Mas ainda assim eu não conseguia amaldiçoar minha sorte, afinal todos estavam bem, com saúde e aparentemente muito felizes, até eu que imaginei que jamais conseguiria me envolver com outro homem estava bem com Martins.
                Pensava assim naquele dia enquanto olhava Heitor brincar no pula pula, abrir os presentes, cortar o bolo...
                Foi sem duvida o melhor dos aniversários de Heitor, afinal ele era um rapazinho agora, ele se transformava no nosso Contador de Histórias.
                Por mais que eu tento só me lembro de Heitor feliz e sorrindo, não tenho outra imagem dele se não essa e ainda assim uma dor me sufoca, é um misto de saudade e culpa...
                Assumi uma campanha nova na agencia, o que me tomaria mais tempo e dedicação, mas também me renderia uma grana melhor. Teria que trabalhar dobrado por uns três meses. Nesse período Tina foi indispensável, a babá que cuidava de Heitor desde sempre, e agora intensivamente.
                Martins quem não gostou muito desse meu empenho e ficou ainda mais possessivo que o normal. Ligava de minuto em minuto, passou a vigiar a porta da agencia para confirmar se eu estava lá, por fim insinuava que eu estava com rolo com alguém de lá mesmo. Foi tanta a alienação que eu não vi outra saída se não terminar nosso namoro.
                Meu erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia age.
                Não quis muita conversa nem explicações, afinal ele estava desorientado e já perdia o respeito insinuando que eu tivesse outra pessoa além dele.
                No primeiro momento ele disse palavras torpes, como se me confundindo com o tipo de gente que ele era acostumado a lidar, estava fora de si, dizia que  rompimento era a confirmação de que eu tinha outra pessoa.
                Tentei convence lo de que ele precisava se tratar, mas foi em vão, aos olhos dele apenas ele tinha razão e o resto tramava contra ele.
                Mantinha meu celular desligado e não tinha muito tempo para pensar nas discussões, o trabalho ocupava minha mente e em casa Heitor era meu foco.
                Já haviam se passado duas semanas desde o rompimento e eu sabia que ele havia colocado pessoas para me vigiar, mas isso não me incomodava, ao contrario cheguei a imaginar que com isso ele percebesse que estava ficando neurótico, pois ia do trabalho para casa e vice versa, mas isso não aconteceu.
                Em uma tarde de domingo estava no parque com Heitor e tudo estava bem. O sol já havia partido, dando lugar ao anoitecer vermelho como ele gostava de dizer. Segundo ele era o momento que a observadora saia para ir a tal ilha da fantasia, onde a mata ganhava vida e os animais festejavam.
                Foi no meio de uma das historias de Heitor que Davi surgiu, era um amiguinho da escola que estava por ali caminhando com o pai. Heitor e eu havíamos combinado de comer uma pizza e ele não fez segredo a Davi que logo se ofereceu para ir junto, sem como dizer não seu pai concordou e fomos todos a pizzaria que ficava a duas quadras dali.
                Enquanto as crianças brincavam o pai de Davi e eu conversávamos sobre a lida de crianças de pais separados, sobre como era preciso trabalhar a mente da criança de forma a lhes ensinar valores de família, afim de que não crescessem achando que ser pais solteiros fosse normal, afinal é o que parecia a essa geração.
                Sem duvida aquela foi à única conversa que tive com alguém que de certo modo me compreendia por pensar como eu. Nos conhecíamos apenas dos eventos da escola, ele até chegou a ir no aniversario de Heitor, visto que ele e Davi eram muito unidos, mas nós havíamos trocado poucas palavras até ali.
                A noite foi perfeita e voltávamos para casa cantarolando quando na vi na porta do prédio o carro de Martins. Antes que o portão da garagem abrisse suficiente para que eu pudesse entrar ele me gritou.
                Pela voz percebi que estava nervoso e parecia agitado, logo imaginei que tivesse bebido. Disse que iria subir e logo desceria, mas ele não quis aguardar, desceu pela garagem mesmo seguindo o carro.
                Pedi a Heitor que aguardasse no carro por um instante e aumentei o volume do som para que ele não escutasse o que quer que fosse.
                Sai do carro e pelo odor confirmei que Martins estava alcoolizado. Não podia disfarçar meu medo, mas tentei ser o mais natural possível, procurei manter meu equilíbrio, o que enfureceu o ainda mais, pois ele estava pronto para briga.
                Começou me chamando de vadia, dizia que eu havia rompido com ele porque já estava com outro e que agora ele sabia quem era. Era o cara da pizzaria. Dizia que havia visto tudo, que estávamos rindo, parecíamos uma família feliz com nossos filhos.
                Eu tentava explicar que tudo havia sido uma coincidência, que havíamos nos encontrado ao acaso, mas ele não ouvia nada do que eu dizia, que sempre alterava mais o tom da voz.
                Disse inúmeras palavras torpes de baixo calão, algumas que minha mente não esquece, mas minha boca nem consegue proferir.
                Pedi a ele que fosse embora, que voltasse depois quando estivesse mais calmo para conversarmos, mas ele dizia que só iria embora quando terminasse o que queria fazer. Eu dizia a ele que não fizesse nada que fosse se arrepender depois, que ele havia bebido, que devia ponderar seus atos e ele dizia que devia ter ponderado quando me conheceu. Que acreditou que eu era uma e na verdade não era. Dizia que eu era uma atriz, que devia trabalhar na rede globo, que ficaria milionária, que seria popular, mas que isso também me faria ser desejada por outros homens e que isso ele não aceitaria. Que se eu não fosse dele eu não seria de mais ninguém. Foi dizendo isso que ele empunhou a arma em minha direção.
                Senti muito medo, mas duvidei que ele fosse atirar e tentava conversar com ele, que parecia estar cedendo, quando Heitor olhou e vendo o que acontecia saiu correndo do carro e pulou no Martins, em uma tentativa insana que tirar lhe a arma das mãos.
                Eu sei que foi ai que tudo aconteceu, mas eu não me lembro de mais nada. Heitor saltou como um dos cangurus gigantes de seus contos, mas infelizmente ele não tinha o pelo de aço. Ele viveu a fantasia de ser o herói, ele salvou a observadora e hoje é ele quem observa do céu a realidade desumana dessa humanidade insana e torpe que o homem se tornou.
                Foi naquele momento que meu Heitor se tornou um raio de sol.
                Só faz oito meses, mas para mim quando penso que ele não está aqui parece oito anos.
                 O tempo sem ele tem um peso insuportável, meus dias se arrastam, mas quando me recordo dos detalhes tudo ganha cor. É como se tudo fosse cinza e lembrar o sorriso dele colorisse o lugar.
                Acredito que seria mais fácil suportar a situação se me fosse permitido tentar seguir sem muitos alardes, mas essa já não é uma opção.
                Já não tenho vida, vivo refém do medo, da insegurança, da impunidade.
                Martins conseguiu se safar mesmo com todos os indícios contra ele. Ganhou liberdade, alegando insanidade temporária, por uso de entorpecentes na primeira audiência. Foi afastado do cargo, mas ainda exerce influencia no meio e enquanto ele anda solto por ai eu fico aqui, ilhada, escondida, refugiada como se a prisioneira fosse eu.
                Me colocaram aqui com a alegação de proteção, mas enquanto isso ele está solto, caminhando e sabe se lá fazendo novas vitimas.
                Até quando ficarei aqui? Dizem que a escolha é minha, assim como a responsabilidade de sair, mas sobre sair o tom é ameaçador, como se ele estivesse me esperando na porta.
                De um jeito ou de outro ele conseguiu o que queria, não acabou com minha vida diretamente, mas matou minha alegria de viver e ainda me mantem prisioneira, pois tenho certeza que ele tem ciência de minha atual situação e se diverte com isso. Hoje estou como ele gostaria, eu não trabalho, não estudo, não me socializo, vivo escondida de todos, só não consigo me esconder de meus pensamentos.
                O pior é que ninguém sabe me dizer quanto tempo essa situação durará, pois julgamento no Brasil é ágil quando nenhuma das partes envolve influencias, no meu caso já não tenho esperanças. Se nem as imagens do circuito interno do prédio foram suficientes para incriminar Martins o que mais será?
                Pode até ser que ele não seja criminoso, mas naquele momento ele se tornou um e isso que deve ser levado em consideração. Melhor seria que ele tivesse acabo com minha vida naquela garagem, aquela noite.
                Como outra pessoa agiria no meu lugar? Sairia daqui correndo o risco de ser assassinada na esquina? Continuaria aqui agarrada apenas na esperança de viver mais um dia? Vai ver o melhor seja assumir o posto de observadora e com o olhar de fogo me tornar justiceira, acabando com a vida do ceifador de sonhos... mas isso me tornaria como ele e a culpa me acompanharia para toda eternidade.
                Em pensar que meu erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia age, achando normal conhecer uma pessoa através de um site e logo me envolver, sem saber do passado, sem conhecer a família...
                Logo eu que sempre segui padrões, que sempre fui disciplinada, que acreditava tanto nas pessoas como humanas. É meu erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia age.

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Me pergunto se sou mesmo maluca ou há mais alguem que pensa como eu? Critícas são sempre construtivas, deixe seu comentário.

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