Eu sempre assisti telejornais, acompanhei os crimes bárbaros
e brutais, mas nunca imaginei que um dia pudesse acontecer algo semelhante
comigo e hoje estou aqui.
Apesar
do tempo já ter passado eu durmo mal à noite, tenho pesadelos, acordo chorando
como se tivesse sido ontem.
Eu
duvido que um dia eu vá me acostumar com essa nova vida, ou talvez o certo seja
dizer com essa falta de vida, porque viver me escondendo não é viver, é
existir, é apenas esperar pela morte.
E eu
quem devia ter morrido. Eu não mereço estar aqui. A ferida nunca cicatriza, o
sangue nunca para de jorrar e a cada vez que percorre meu corpo é como se
estivesse envenenado, queima minhas entranhas e sufoca minha alma.
Eu
estar aqui é outro erro.
Que
país é esse onde os criminosos andam soltos nas ruas e as vitimas precisam se
esconder? Onde quem tirou uma vida caminha impune trabalhando enquanto o
julgamento não vem e a parte arrasada tem a vida desestruturada e ainda precisa
viver como animal irracional, preso, sem poder ir e vir quando e para onde
quiser? Do que adianta ter sobrevivido se minha vida acabou naquela noite?
Aquela,
tinha tudo para ser uma noite feliz. Heitor estava tão animado, tão alegre, narrava
seus contos entusiasmado. Havíamos passado a tarde juntos e hoje analisando
aquele dia, até parece que ele estava pressentindo que algo iria acontecer. Ele
estava tao carinhoso, tao dengoso de minha atenção, e eu não me importei com
nada, me dispus o dia todo a ele, fazendo suas vontades, brincando, sorrindo.
Realmente
aquela foi nossa despedida! Me lembro de cada detalhe daquele dia, me lembro de
cada expressão de Heitor até seu ultimo minuto, quando a felicidade dá lugar a
todo terror que surgiu...
O ano
era 2009, Heitor já estava com cinco anos, quando seu pai e eu após um
casamento de longos oito anos nos separamos. A separação foi amigável e apesar
das saudades Heitor aceitou bem a situação. Logo entrou na escola e acredito
ter percebido que a vida é feita de escolhas, as quais nem sempre nos agrada,
mas é preciso aceitar.
Apesar
da pouca idade Heitor sempre foi meu companheiro, meu amigo, meu parceiro
mesmo. Sempre foi mais inteligente que as crianças da sua idade, tinha uma
resposta para o que quer que fosse e uma imaginação de dar inveja. Eu quase
explodia de alegria quando ele dizia que queria ser escritor.
Mal sabia escrever, rabiscava alguns traços de
forma ordenada em uma folha e dizia que aquela seria a melhor das historias.
Ele lia cada traço como se soubesse de fato o que estava dizendo. Contava
historias seguindo um raciocino logico que não entendia de onde ele tirava, mas
ele dizia que era só entrar no mundo da imaginação.
Ele
amava contos, escrevia e narrava uma bela floresta onde homem algum havia ido,
com animais que ainda não eram conhecidos, em uma ilha isolada no meio do
oceano, onde só se chegava à barco. Dizia que era uma ilha de mistérios, onde a
noite fadas e duendes se reuniam para cantar, sereias vinham assistir, e seres
não definidos participavam dançando e animando o ambiente.
Ele
descrevia cada ser como se pudesse vê los. Dizia que eu era a observadora, uma
espécie de rainha que vivia no alto de uma colina longe da ilha, mas que mesmo
de longe eu observava tudo. Minha visão era tao poderosa que mesmo as arvores
tampando tudo eu ainda conseguia ver e assim saber tudo que se passava ali.
Segundo
ele minhas pernas eram fortes e rápidas como de leões, meus braços flexíveis
como de macacos, meu corpo ágil como de uma cobra, meu rosto tinha uma luz
branca muito forte que não permitia ninguém ver, mas ele dizia saber que nos
meus olhos havia fogo. Mas o que ele mais gostava de admirar eram minhas asas,
principalmente plainando no ar, eram como águia a voar.
Nem sei
quantas historias diferentes Heitor narrou com essa personagem. Ele sempre a
desenhou, uma figura que nunca consegui de fato imaginar, mas para ele ela era
bela. Ele contava que ninguém nunca conseguiu ver o pico onde ela morava e que
para ele era morava no céu, escondida nas nuvens. Porque sempre que ela ia
embora da ilha ao atingir certa altura ela se transformava em fogo e todo seu
corpo dava lugar a um rastro de fogo que se transformava em um belo arco ires.
Cheguei
a temer pela imaginação de Heitor, mas isso nunca o prejudicou na escola, ao
contrario, ele tinha muita facilidade para aprender desde o alfabeto aos sinais
matemáticos e sempre foi o contador de historia da turma. Era muito querido
onde quer que fosse.
E hoje
tudo que restam são lembranças. E a culpa é toda minha. Fui eu quem causou tudo
isso. Eu podia ter evitado se desde o começo eu tivesse prestado atenção nos
sinais. Foram tantos sinais. Porque eu não vi? Porque eu não me afastei? Porque
eu quis arriscar?
Não eu
não posso suportar a verdade. Eu não mereço viver e se estou viva de fato
mereço viver aqui, longe da civilização, longe das pessoas que conheço, longe
do mundo, longe da liberdade. Eu não aguento mais, não sei mais o que pensar,
por tanto ângulo que analise eu vejo Heitor sorrindo, calma e feliz.
Eu sei
que não. Não foi assim que o vi pela ultima vez, mas eu não consigo me
lembrar... sei que o vi, sei que estava ali, mas minha memoria não o recorda
naquela noite.
Meu
erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia age.
Haviam
se passado apenas seis meses desde minha separação. Paulo já estava morando com
outra mulher, na verdade não sei a quanto tempo ele mantinha uma vida dupla,
mas sei que quando separamos não fez questão de esconder que tinha outra
família.
Eu
nunca lamentei a situação de esposa traída, pois nunca soube de nada e meu
casamento sempre havia sido perfeito, só no ultimo ano que Paulo não
demonstrava mais interesse em mim, vivíamos como amigos, mas também, eu estava
tao feia e descuidada que não era culpa dele.
Quando
propus a separação na verdade era acreditando que ele iria se comover e mudar,
acreditava que nossa relação melhoraria. Esse foi o dia que Paulo mais se
empolgou no ultimo ano, vi em seus olhos alivio, e ele me abraçou
carinhosamente dizendo que estava muito feliz por eu ter essa iniciativa visto
que não estávamos bem.
Naquele
momento eu soube que o problema não era eu, mas ele. Ele já não me amava mais,
não me desejava mais, e na verdade já havia rompido nosso casamento há muito
tempo, só não tinha coragem de dizer. Diante
o animo dele não pude dizer nada a não ser que seria melhor assim.
Nos
separamos sem grandes atritos, vendemos a casa onde morávamos e dividimos todo
dinheiro. Ainda fiquei com a vantagem do carro, pois facilitaria minha
locomoção com Heitor.
O
divorcio não representou guerra para nós, pelo contrario, acho que também
estava cansada de uma relação insossa. Nos casamos jovens e acabamos não
aproveitando muito da solteirice da juventude. Paulo havia namorado muito pouco
e quanto a mim, foi meu primeiro namorado.
Nos tornamos amigos dentro do possível,
mantínhamos uma boa relação pelo Heitor. Eu costumava dizer que se não havia
conseguido ser uma boa esposa eu queria ser a melhor ex mulher possível.
Menos
de dois meses depois Paulo já estava morando com outra mulher. Não sei muito
sobre ela, apenas que tinha um bebe de poucos meses. Nunca quis confirmar se
era de Paulo ou não.
Durante
os primeiros meses dediquei minha atenção a Heitor, havíamos acabado de nos
mudar para um apartamento, e para uma criança que é acostumada com um quintal
enorme essa era uma mudança e tanto.
Não
queria que ele se sentisse prejudicado de alguma forma, mas logo ele se
adaptou, o que surpreendeu até mesmo a mim.
Tínhamos
uma rotina programada, saiamos pela manha e antes de ir para o trabalho deixava
Heitor na escola, onde ele ficava por tempo integral. A escola é excelente e
ele além de aulas de inglês, dança, aeróbica, ainda fazia duas habilidades
extras, as quais ele escolheu natação e caratê.
Eu me sentia
segura com meu filho ali. A fortuna mensalmente empregada compensava meu
sossego mental, por saber que ele estava sendo bem tratado.
Foi nas
primeiras férias de Heitor, após a separação, que tudo começou. A madrinha dele
nos convidou para uma viagem ao litoral, visto tudo que havíamos vivido
recentemente não podia dizer não. Eu também estava precisando descansar e ela
sempre havia sido uma ótima companhia.
O destino
escolhido foi às praias de Rio Grande do Norte. Passamos uma semana lá, teria
sido perfeito, não fosse por Gisele insistindo em dizer que eu devia sair e
arrumar um namorado, afinal já haviam se passado mais de seis meses e eu ainda
não havia sequer olhado para outro homem.
Para
mim não era tao fácil, Paulo havia sido o único homem da minha vida. Tinha
quatorze anos quando o conheci e ele dezesseis. Foi no final do segundo grau e
para não nos separarmos optamos pelo mesmo curso na universidade, assim
podíamos ficar próximos, não demorou muito mais que quatro anos e estávamos
casados. Foi o melhor ano de nossas vidas, a menos víamos assim, primeiro nosso
casamento, depois a formatura, tudo estava perfeito e foi assim por anos.
Agora
lá estava eu, vivendo meus trinta anos e solteira, sem a mínima ideia de como
uma mulher solteira dessa idade se comporta, tao menos como paquerar.
Gisele
me dava muitos conselhos durante a viagem, estava na casa dos trinta e alguma
coisa, nunca dizia exatamente. Já havia sido casada também, mas preferiu não
ter filhos. Ela dizia que bom mesmo eram os afilhados, assim enquanto os pais
educavam, ela como madrinha mimava.
De fato isso acontecia. Heitor
era apaixonado por ela, pois sempre que estavam juntos era garantia de muitos
sorrisos, repletos de chocolates, cachorro quente e outras delícias que ele
amava.
Voltamos para casa e fiquei
pensando sobre isso. Já estava mesmo me sentindo sozinha nas noites frias de
inverno. Poucos dias depois liguei para Gisele e combinamos de sair.
Heitor foi para a casa do pai,
então aproveitamos para ir a um barzinho que Gisele frequentava sempre.
Fiquei admirada com a agitação da
noite, no principio me perguntei onde estive por tanto tempo que não conhecia
aquele lugar. Na verdade eram vários bares um ao lado do outro, sentamos em um
que era dois andares. Ficamos no térreo. Haviam algumas TVs espalhadas no local
e nessa noite transmitia uma luta de MMA.
Um som ao fundo embalava Capital
Inicial, o que me agradou ainda mais, quando na sequencia veio Titãs, Legião
Urbana e diversos rocks nacionais.
Eu nunca havia visto tanta gente
bonita reunida. As pessoas estavam bem arrumadas, as mulheres maquiadas e
deslumbrantes. Os homens sorridentes. Um clima de harmonia no ar.
Gisele logo pediu um caipirango,
que veio seguido de um caipixi, caipiuva, e por fim já nem consegui acompanhar
mais, pois a cada um que ela pedia para ele vinha um para mim. Nunca tive o
habito de beber então essas doses foram suficientes para me fazer esquecer toda
responsabilidade e deixar me envolver quando dois homens pediram para sentar na
nossa mesa.
Para ser sincera não recordo
exatamente da cena, nem me recordaria do homem não fosse acordar em um quarto
de motel ao lado dele na manhã seguinte.
Havia ido no carro de Gisele e
lapsos de memoria me diziam que ela estava por ali também, o que pude confirmar
quando abri a porta do quarto duplo e a peguei nua na piscina.
Tive coragem apenas de dizer que
queria ir embora, ela insistiu que era cedo, que podíamos passar a tarde ali,
assando uma carne, em uma tarde descontraída, mas insisti e ela não hesitou.
No percurso de casa não sabia se
minha cabeça doía mais pelos drinks ou pela vergonha de saber que havia me
deitado com uma pessoa que não conhecia. A cada lembrança que me surgia a
vergonha crescia e proporcionalmente a dor de cabeça.
Para Gisele tudo era festa,
afinal ela estava acostumada com isso. Dizia que eu devia me acostumar, pois
isso era normal. Como ser normal pessoas que mal conversaram, não sabem nada da
vida uma da outra, terem tanta intimidade? Definitivamente isso não era pra eu.
Os dias seguiram normais, Gisele
sempre me convidando para sair, o homem da tal noite mandando mensagem, já que
eu não atendia as ligações, mas eu não desejava isso. Podia estar solteira,
podia estar com 30 anos, mas ainda acreditava no amor construído, ainda acreditava
no romantismo, ainda acreditava que as pessoas compartilhassem ideais.
Me permiti sair com o pessoal do
trabalho algumas vezes e pude conferir que o que Gisele dizia era certo, era
uma pegação geral. Cada fim de semana uma pessoa diferente. Para quem via
pareciam namorados, sendo que haviam acabado de conhecer. O que eu não me
permiti novamente foi beber e perder a razão.
Após alguns fins de semanas esses
passeios estavam sem graça, foi quando um comercial publicitário me chamou
atenção. Era um site de relacionamentos. Me perguntei que tipo de pessoa
apelava para esses sites, visto que nas baladas o negocio estava tão fácil
porque um site?
A curiosidade foi maior que eu e
quando vi já havia não só me cadastrado, mas estava trocando mensagens.
Alguns homens desde o primeiro
contato já percebi que estavam ali só por curtição, para ver se encontravam
alguma bobinha carente para usar, ou mesmo para banca los, mas um homem
especificamente me chamou a atenção.
Seu perfil era sucinto e não dava
muitas explicações, em frases curtas demonstrava cultura e maturidade.
Começamos a trocar e-mails, acabei criando uma rede social para manter contato
com os amigos e com ele. Evitei falar sobre mim, mas o básico que havia sido
casada, que tinha um filho de quase seis anos, que era publicitária. Ele me
contou sobre ele também, estava com trinta e três anos, a idade de Cristo como
ele dizia. De família simples, porem guerreira, teve uma adolescência difícil,
por isso não casou antes, preferiu investir nos estudos, de modo que conseguiu
se formar em direito e pouco depois passar em um concurso para delegado
federal, o que era recente.
Conversamos por quase um mês até
que eu sentisse liberdade para conhece lo pessoalmente.
Era uma sexta feira anoite, eu
sugeri que fossemos ao shopping, pensando ser um lugar publico sem grandes
problemas, mas nada resolveria, visto que ele fez questão de me buscar em casa.
Tive medo, pois por mais que nos
falássemos diariamente eu nunca havia o visto pessoalmente, não conhecia mais
que as historias que contava, não sabia sobre sua índole.
Gisele quem ficou com Heitor essa
noite, quando sai ele já estava dormindo. Eu dizia a ela que mandaria um sms
por hora, que se não mandasse ela podia me ligar e ver o que aconteceu. Ela ria
e dizia que isso não era necessário, afinal hoje em dia era normal esse tipo de
encontro.
De fato estávamos vivendo a era
digital, onde os relacionamentos já não tinham o calor humano de antes. Na
minha adolescência namorava tomando sorvete na esquina, comendo pipoca na praça,
comendo pastel na feira, meu filho provavelmente não verá nada disso, pois
enquanto ele ainda é uma criança os namoros são na tela de um computador ou
celular, e o tempo que seria de conhecer a personalidade da pessoa e preparar o
futuro não existe, vão direto para a faze da intimidade, o que após enjoar do
produto faz com que a relação termine.
Foi quando entendi que essa
geração vive relacionamentos instantâneos, não há mais romantismo, não há mais
respeito, não há tempo de ter afeto e carinho, é só o sexo que importa e não
faz diferença se muito ou pouco, se bom ou ruim, nem mesmo com quem seja,
quanto mais melhor.
Receosa, passei meu endereço a
Martins, que na hora exata já me aguardava. Antes de entrar no carro memorizei
sua placa e na sequencia enviei em um sms ao meu e-mail e a Gisele. Sei que se
algo acontecesse isso de nada valeria, mas ao menos já teriam uma luz para
entender o que se passou. Quando viu que estava no celular questionou o que eu
fazia, não neguei e falei a verdade.
Ele sorriu, disse que se ele um
psicopata ou coisa assim isso de nada adiantaria. Concordei com ele, mas
reafirmei minha tese de que a menos estava fazendo minha parte. Ele sorria,
pois era nítido que eu não estava a vontade com aquela situação e mesmo assim
arrisquei.
Meu erro foi querer agir como
todo mundo hoje em dia age.
No principio estava nervosa, não
sabia como agir. Martins parecia tranquilo, como se aquilo fosse rotineiro na
vida dele, fato que ele negava.
Conversamos um pouco e resolvemos
assistir a uma comedia. O filme foi ótimo, sorrimos muito e ao final fomos
lanchar, momento onde ele me pediu um beijo. Não neguei, afinal eu também
queria.
Conversamos por horas, sorrimos
muito, até consegui me soltar. Quando foi me deixar em casa ele tentou de todas
as maneiras tocar em meu corpo, mas claro que não deixei e ele até se divertiu
com isso. Disse que me respeitava, mas preferia que eu me soltasse mais. Eu
disse que quando sentisse liberdade para isso o faria.
Pude confirmar que ele falava a
verdade sobre ser delegado, afinal era o que parecia, pois cheguei a pegar o
distintivo e ver. Ele também não fez questão de esconder a arma, que estava
sempre na cintura, tirando apenas quando entrava no carro. Cheguei a questionar
sobre andar armando mesmo estando a paisana e ele disse que andava assim 24
horas.
Talvez aquele fosse o primeiro
sinal e eu ignorei...
No decorrer da semana nos
falávamos diariamente e apesar de não termos muito em comum ele se tornou uma
companhia agradável. Era uma possibilidade, alguém em quem pensar, alguém para
quem ligar, alguém com quem planejar sair.
No meio da semana teria um evento
alternativo, o qual a agencia estava divulgando. Seria em um local
centralizado, o que já não é bem visto, por ser um local com um numero grande
de moradores de ruas e usuários de drogas, mas pelo que vi da organização o
evento estava bem planejado, teria bandas locais de blues e jazz, além de
comidas e bebidas.
Não pensei em outra pessoa se não
em Martins, mas mal terminei de falar e ele já falou sobre ser um local de
maconheiros. Me assustei com o comentário e disse a ele que fosse sem pré
conceitos, aberto para ouvir um bom som e comer alguns aperitivos, que se não
tivesse legal não precisaríamos ficar, que ele até podia deixar a arma em casa
para evitar constrangimentos. Nesse momento minha surpresa foi ainda maior, ele
disse que eu estava era armando uma ‘casinha’ para ele. Demorei entender o que
isso significava, mas assim que consegui me desculpei e disse que preferia que
ele não fosse.
O segundo sinal e eu não
percebi...
Fui ao evento e pude conferir que
de fato estava muito bem organizado, tudo muito simples, lembrando interior,
mas as pessoas estavam produzidas. Não vi nenhum marginal por perto, se bem que
marginal não é só pedinte e andarilho, há tantos marginais vestidos de ternos e
usando gravatas, mas não vi os tais maconheiros que Martins havia citado, pelo
contrario, haviam muitos idosos e até crianças. O evento seria bem familiar,
não fosse as bebidas alcoólicas.
No dia seguinte nos encontramos e
pude compartilhar com ele os acontecimentos do evento. Sempre que entrava no
carro dele me assustava com a pistola que ficava ao lado do cambio do carro.
Dizia a ele que preferia que ele a deixasse em um lugar que eu não visse, mas
ele fazia questão de pega la, me dizia para pegar, sentir o peso, me mostrava
como se destravava. Eu preferia não ver, mas por outro lado entendia que aquele
era o mundo dele, então devia ser normal que ele se comportasse assim.
Começamos a namorar. Desde o
principio Martins se mostrou muito ciumento. Queria saber de cada passo que
dava. Se ia as compras queria saber até o que comprava. Acreditei que aquilo
fosse normal e pensei que ele se sentisse um pouco inseguro porque eu não quis
apresenta lo para minha família, afinal havia o Heitor e eu não queria o
envolver em uma relação que eu não sabia no que daria.
Quando Heitor completou seis anos
ainda estávamos nos conhecendo e ele não se importou por não ir à festa, mas
quando ele fez sete anos foi diferente. Sempre convivi bem com Paulo e isso
incluía sua nova família também. Mesmo sabendo que Sheila sua nova mulher podia
ter sido sua amante nunca a maltratei, afinal segundo Heitor ela lhe tratava
muito bem e isso bastava para que eu a respeitasse.
No entanto o fato de saber que eu
receberia no aniversario do meu filho a mulher do meu ex marido deixou Martins
desequilibrado, eu até disse que ele estava convidado, mas no fundo tinha medo
de como ele se portaria no mesmo ambiente que Paulo, certo disso não fez
esforço para mudar o dia de seu plantão.
Já estávamos há pouco mais de um
ano juntos e não tenho nada a reclamar dele. Era atencioso, respeitava meu
espaço, mesmo sendo ciumento e querendo saber de meus passos, mas como não
tinha nada a esconder não me incomodava.
No começo saiamos com o pessoal
da agencia, mas houve dias em que Martins bebia de mais e sabendo que ele era
delegado as pessoas ficavam perguntando como era o trabalho, sobre grupos de
extermínio na policia, sobre crimes não solucionados, e tudo mais sobre esses
assuntos que eu tanto evitava. Em alguns momentos os sinais eram claros e ainda
assim eu ignorava. Um dia terminamos uma campanha publicitaria tarde e passei
com a equipe em uma lanchonete para tomar um açaí, era uma sexta feira de
feriado, só não sabia que Martins havia passado a tarde bebendo com os amigos.
Ele me ligou e eu sem hesitar disse onde e com quem estava, ele logo se dispôs
a ir me encontrar. Estava tao bêbado que já chegou colocando a arma sobre a
mesa, falava alto sobre uma prisão que haviam feito dias atrás, um caso que
ainda estava na mídia. Um colega que nutria um desejo reprimido por ser
policial não poupava perguntas e ele embriagado não media as respostas. Após
aquela noite pedi a ele que quando bebesse não me procurasse.
Ele ficou muito tento sem beber,
dizia que não fazia questão e já que eu não gostava não queria mais. Achei
bonitinho o ato, visto que a maioria dos homens acham vantagem sair e beber
horrores. Por muito tempo Martins não fez graça, mas não sei se foi coincidência
nas vésperas do aniversario de Heitor ele estava irritadíssimo. Há pouco havíamos
viajado juntos comemorando nosso aniversario de namoro, mas mesmo fora da
cidade, onde ninguém o conhecia ele não relaxava. Parecia sofrer síndrome de perseguição,
acreditava que estava sendo observado, que a qualquer momento alguém tentaria
contra sua vida. Analisava as pessoas pela forma de se vestir e de falar. Suspeitava
de tudo e de todos, até eu me sentia analisada as vezes.
Na verdade ele sempre foi
nervoso, acreditava ser pelo trabalho, mas preferia ficar alheia ao que
acontecia, afinal eu não podia ajudar em nada mesmo. Ouvia o que ele contava e
pronto.
Nas vésperas do aniversario de
Heitor ele estava tao nervoso que uma noite enquanto conversávamos no carro
outro carro surgiu acelerando e quase bateu no carro dele, tudo aconteceu em um
milésimo de segundo, mas quando voltei o olhar a ele já estava com a arma em
posição de tiro.
E os sinais naquela semana não
pararam...
Na noite anterior ao aniversario paramos em
uma rua paralela a minha apenas para virar o carro e retornar, já eram mais de
23 horas e do nada surge um andarilho, mas vendo que acelerou o carro foi mexer
em uma cesta de lixo. Martins passou devagar ao lado dele que pediu umas
moedas, Martins disse que daria, que era para ele se aproximar. Enquanto falava
já tirou a arma da bainha, nem o andarilho acreditava que ele fosse dar moedas
e questionando se era verdade mesmo se aproximou, foi quando Martins empunhou a
arma e ordenou que ele se mandasse. Meus pedidos para não agir daquela maneira
eram em vão. Não havia necessidade daquilo, mas confesso que nunca vi alguém
correr tanto sem nem olhar para traz. Não sei quantas vezes aquele homem viu a
morte de perto, mas aquela com certeza foi uma delas.
O
aniversario de Heitor foi um grande evento para ele que via toda família reunida
com os amigos da escola e para mim, que pude perceber que por mais que a vida
tivesse tomado rumo diferente do planejado tudo ia bem.
Quando
me casei com Paulo estava certa de que ele era o homem da minha vida, o que
seria pai dos meus filhos, com o qual eu envelheceria, mas ele estava ali, ao
lado de outra mulher e com uma criança que sem dúvida era sua, visto os traços
tao semelhantes. Mas ainda assim eu não conseguia amaldiçoar minha sorte,
afinal todos estavam bem, com saúde e aparentemente muito felizes, até eu que
imaginei que jamais conseguiria me envolver com outro homem estava bem com
Martins.
Pensava
assim naquele dia enquanto olhava Heitor brincar no pula pula, abrir os
presentes, cortar o bolo...
Foi sem
duvida o melhor dos aniversários de Heitor, afinal ele era um rapazinho agora,
ele se transformava no nosso Contador de Histórias.
Por
mais que eu tento só me lembro de Heitor feliz e sorrindo, não tenho outra
imagem dele se não essa e ainda assim uma dor me sufoca, é um misto de saudade
e culpa...
Assumi
uma campanha nova na agencia, o que me tomaria mais tempo e dedicação, mas também
me renderia uma grana melhor. Teria que trabalhar dobrado por uns três meses.
Nesse período Tina foi indispensável, a babá que cuidava de Heitor desde
sempre, e agora intensivamente.
Martins
quem não gostou muito desse meu empenho e ficou ainda mais possessivo que o normal.
Ligava de minuto em minuto, passou a vigiar a porta da agencia para confirmar
se eu estava lá, por fim insinuava que eu estava com rolo com alguém de lá
mesmo. Foi tanta a alienação que eu não vi outra saída se não terminar nosso
namoro.
Meu
erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia age.
Não quis
muita conversa nem explicações, afinal ele estava desorientado e já perdia o
respeito insinuando que eu tivesse outra pessoa além dele.
No
primeiro momento ele disse palavras torpes, como se me confundindo com o tipo
de gente que ele era acostumado a lidar, estava fora de si, dizia que rompimento era a confirmação de que eu tinha
outra pessoa.
Tentei
convence lo de que ele precisava se tratar, mas foi em vão, aos olhos dele
apenas ele tinha razão e o resto tramava contra ele.
Mantinha
meu celular desligado e não tinha muito tempo para pensar nas discussões, o
trabalho ocupava minha mente e em casa Heitor era meu foco.
Já
haviam se passado duas semanas desde o rompimento e eu sabia que ele havia
colocado pessoas para me vigiar, mas isso não me incomodava, ao contrario
cheguei a imaginar que com isso ele percebesse que estava ficando neurótico, pois
ia do trabalho para casa e vice versa, mas isso não aconteceu.
Em uma
tarde de domingo estava no parque com Heitor e tudo estava bem. O sol já havia
partido, dando lugar ao anoitecer vermelho como ele gostava de dizer. Segundo
ele era o momento que a observadora saia para ir a tal ilha da fantasia, onde a
mata ganhava vida e os animais festejavam.
Foi no
meio de uma das historias de Heitor que Davi surgiu, era um amiguinho da escola
que estava por ali caminhando com o pai. Heitor e eu havíamos combinado de
comer uma pizza e ele não fez segredo a Davi que logo se ofereceu para ir
junto, sem como dizer não seu pai concordou e fomos todos a pizzaria que ficava
a duas quadras dali.
Enquanto
as crianças brincavam o pai de Davi e eu conversávamos sobre a lida de crianças
de pais separados, sobre como era preciso trabalhar a mente da criança de forma
a lhes ensinar valores de família, afim de que não crescessem achando que ser
pais solteiros fosse normal, afinal é o que parecia a essa geração.
Sem
duvida aquela foi à única conversa que tive com alguém que de certo modo me compreendia
por pensar como eu. Nos conhecíamos apenas dos eventos da escola, ele até
chegou a ir no aniversario de Heitor, visto que ele e Davi eram muito unidos,
mas nós havíamos trocado poucas palavras até ali.
A noite
foi perfeita e voltávamos para casa cantarolando quando na vi na porta do
prédio o carro de Martins. Antes que o portão da garagem abrisse suficiente para
que eu pudesse entrar ele me gritou.
Pela
voz percebi que estava nervoso e parecia agitado, logo imaginei que tivesse
bebido. Disse que iria subir e logo desceria, mas ele não quis aguardar, desceu
pela garagem mesmo seguindo o carro.
Pedi a
Heitor que aguardasse no carro por um instante e aumentei o volume do som para
que ele não escutasse o que quer que fosse.
Sai do
carro e pelo odor confirmei que Martins estava alcoolizado. Não podia disfarçar
meu medo, mas tentei ser o mais natural possível, procurei manter meu equilíbrio,
o que enfureceu o ainda mais, pois ele estava pronto para briga.
Começou
me chamando de vadia, dizia que eu havia rompido com ele porque já estava com
outro e que agora ele sabia quem era. Era o cara da pizzaria. Dizia que havia
visto tudo, que estávamos rindo, parecíamos uma família feliz com nossos
filhos.
Eu
tentava explicar que tudo havia sido uma coincidência, que havíamos nos
encontrado ao acaso, mas ele não ouvia nada do que eu dizia, que sempre alterava
mais o tom da voz.
Disse inúmeras
palavras torpes de baixo calão, algumas que minha mente não esquece, mas minha
boca nem consegue proferir.
Pedi a
ele que fosse embora, que voltasse depois quando estivesse mais calmo para
conversarmos, mas ele dizia que só iria embora quando terminasse o que queria
fazer. Eu dizia a ele que não fizesse nada que fosse se arrepender depois, que
ele havia bebido, que devia ponderar seus atos e ele dizia que devia ter ponderado
quando me conheceu. Que acreditou que eu era uma e na verdade não era. Dizia
que eu era uma atriz, que devia trabalhar na rede globo, que ficaria milionária,
que seria popular, mas que isso também me faria ser desejada por outros homens
e que isso ele não aceitaria. Que se eu não fosse dele eu não seria de mais ninguém.
Foi dizendo isso que ele empunhou a arma em minha direção.
Senti muito
medo, mas duvidei que ele fosse atirar e tentava conversar com ele, que parecia
estar cedendo, quando Heitor olhou e vendo o que acontecia saiu correndo do
carro e pulou no Martins, em uma tentativa insana que tirar lhe a arma das
mãos.
Eu sei
que foi ai que tudo aconteceu, mas eu não me lembro de mais nada. Heitor saltou
como um dos cangurus gigantes de seus contos, mas infelizmente ele não tinha o
pelo de aço. Ele viveu a fantasia de ser o herói, ele salvou a observadora e
hoje é ele quem observa do céu a realidade desumana dessa humanidade insana e
torpe que o homem se tornou.
Foi naquele
momento que meu Heitor se tornou um raio de sol.
Só faz
oito meses, mas para mim quando penso que ele não está aqui parece oito anos.
O tempo sem ele tem um peso insuportável, meus
dias se arrastam, mas quando me recordo dos detalhes tudo ganha cor. É como se
tudo fosse cinza e lembrar o sorriso dele colorisse o lugar.
Acredito
que seria mais fácil suportar a situação se me fosse permitido tentar seguir
sem muitos alardes, mas essa já não é uma opção.
Já não tenho
vida, vivo refém do medo, da insegurança, da impunidade.
Martins
conseguiu se safar mesmo com todos os indícios contra ele. Ganhou liberdade,
alegando insanidade temporária, por uso de entorpecentes na primeira audiência.
Foi afastado do cargo, mas ainda exerce influencia no meio e enquanto ele anda
solto por ai eu fico aqui, ilhada, escondida, refugiada como se a prisioneira
fosse eu.
Me
colocaram aqui com a alegação de proteção, mas enquanto isso ele está solto,
caminhando e sabe se lá fazendo novas vitimas.
Até
quando ficarei aqui? Dizem que a escolha é minha, assim como a responsabilidade
de sair, mas sobre sair o tom é ameaçador, como se ele estivesse me esperando
na porta.
De um
jeito ou de outro ele conseguiu o que queria, não acabou com minha vida diretamente,
mas matou minha alegria de viver e ainda me mantem prisioneira, pois tenho
certeza que ele tem ciência de minha atual situação e se diverte com isso. Hoje
estou como ele gostaria, eu não trabalho, não estudo, não me socializo, vivo
escondida de todos, só não consigo me esconder de meus pensamentos.
O pior
é que ninguém sabe me dizer quanto tempo essa situação durará, pois julgamento
no Brasil é ágil quando nenhuma das partes envolve influencias, no meu caso já não
tenho esperanças. Se nem as imagens do circuito interno do prédio foram
suficientes para incriminar Martins o que mais será?
Pode
até ser que ele não seja criminoso, mas naquele momento ele se tornou um e isso
que deve ser levado em consideração. Melhor seria que ele tivesse acabo com
minha vida naquela garagem, aquela noite.
Como
outra pessoa agiria no meu lugar? Sairia daqui correndo o risco de ser
assassinada na esquina? Continuaria aqui agarrada apenas na esperança de viver
mais um dia? Vai ver o melhor seja assumir o posto de observadora e com o olhar
de fogo me tornar justiceira, acabando com a vida do ceifador de sonhos... mas
isso me tornaria como ele e a culpa me acompanharia para toda eternidade.
Em pensar
que meu erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia age, achando normal
conhecer uma pessoa através de um site e logo me envolver, sem saber do
passado, sem conhecer a família...
Logo eu
que sempre segui padrões, que sempre fui disciplinada, que acreditava tanto nas
pessoas como humanas. É meu erro foi querer agir como todo mundo hoje em dia
age.