quarta-feira, 17 de abril de 2013

Vícios


Amante das questões psíquicas e do comportamento humano faço-me estudante na trajetória da existência tentando seguir o curso normal da vida.
Minha mente aceita que vícios sejam distúrbios psicológicos, mas meu ser nega esse fato.
Quando se fala em vício se lembra logo de drogas ilícitas, mas e as licitas que são vendidas livremente nas esquinas? Há também as compulsões, o toque, alucinações. Ao meu ver se se trata da mente está tudo ligado.
O ser humano com sua mania de querer levar vantagem sempre se fecha no seu mundo de certezas e acaba olhando os problemas alheios como escape dos próprios. Ontem um colega de trabalho me contou a seguinte historia:
“Certa vez uma mulher passava os dias a observar a vizinha, que diariamente lavava roupa. A vizinha colocava muitos lenções e camisas brancas no varal, mas ao ver da mulher as peças estavam amareladas, e todo dia ela observava a vizinha colocar as peças que ao invés de clarear pareciam mais e mais amareladas. A mulher ficava indignada se perguntando se não sabia a vizinha lavar roupa direito, se não percebia o quão encardido as roupas estavam, se não tinha vergonha de deixar as roupas assim. Um dia, enquanto a mulher observava à vizinha, a campainha tocou, ela abriu a porta e antes mesmo de cumprimentar a visita a chamou até a janela e disse: - Todo dia aquela vizinha lava roupa, mas ao invés das roupas clarearem todo dia fica mais amarelada. Será que ela não aprende nunca? Olhe que vergonha! A jovem que acabara de chegar então se coloca a observar e não leva mais de dois segundo para perceber e comentar: - Veja aqui. Passa a mão no vidro formando um circulo. Não é a roupa da mulher que está encardida, é sua janela que está suja.”
Infelizmente a maioria das pessoas são assim, preferem apontar erros nos outros a identificar e corrigir os próprios. Por isso sempre digo ‘A verdade de cada um’ depende do ângulo de visão. Cada é responsável por suas ações e por mais que seja difícil a situação há sempre mais de uma opção, a escolha é sempre pessoal.
Falando de drogas vejo os vícios por esse ângulo também, há sempre outra opção.
O vicio se apodera de pessoas fracas. Pessoas que preferem fugir a encarar a realidade. Pessoas que não tem objetivos.
Não nego que das drogas que experimentei muitas me agradaram, causam uma sensação única de liberdade, de onipotência. É o mesmo que felicidade em capsulas, amor em capsulas, mas quando o efeito passa a realidade volta mostrando sua face mais cruel, pois o que era festa se torna tristeza. É por isso que pessoas fracas querem sempre mais, precisam ficar alheias a realidade, procuram conforto na ilusão e cada vez mais se perdem no espaço tempo-razão.
Acredito que haja muitos fatores socioeconômicos e socioculturais que levam algumas pessoas a preferirem as drogas, as ruas, o crime, mas muitos são simplesmente por fraqueza emocional.
Recentemente observei de perto a historia de uma mulher muito honrada, líder de células, lidera os jovens de um determinado ministério ao lado do marido, revela sua luz por onde passa, deixando uma sensação de paz pelo caminho. Certa manhã ela chegou à empresa aflita, sua expressão ainda demonstrava fé, mas seus olhos marejados de lagrimas revelava o desespero. Logo entendi, seu irmão era usuário de drogas, dentre elas o crack e estava devendo para os traficantes, que cansados de esperar o pagamento pegaram o jovem e o espancaram, deixando o na porta de casa ainda na madrugada, momento no qual acordou toda a família e gritando disse que caso eles não pagassem a divida do rapaz eles seriam os próximos, um a um seria espancados, do homem aos filhos. Desesperada ela providenciou o dinheiro para sanar a divida do jovem. No momento pensei: ele vai continuar usando cada vez mais e causando maiores atritos, pois se cada vez que um traficante ameaçar eles pagarem a divida eles saberão que ali há uma fonte de renda, mas e se não pagarem? E se de fato os traficantes pegarem um a um da família e espancar? O jovem além de muito machucado quebrou uma costela e teve muitos ferimentos, e se pegassem uma das crianças?
De fato é uma dura escolha. Acredito que ela tenha sido sábia, pagou aos traficantes e mandou internar o jovem em uma clinica de desintoxicação. Ficarão 6 meses sem falar com ele, saberão noticias apenas pelo pessoal da clinica, assim uma nova questão surge:
O jovem foi levado por uma intervenção, ou seja, contra a vontade, quais as chances dele superar a fase da abstinência e se manter limpo depois?
O não usar entorpecentes pode até limpar o corpo físico, mas a mente está manchada, se a pessoa viciada não desejar se curar não haverá cura, na primeira oportunidade ela começará tudo outra vez. Por isso acredito que o tratamento tem que ser de dentro pra fora e não ao contrario.
Ao invés de impor o que a pessoa deve ou não fazer deveríamos incentivar o despertar a consciência.
A pessoa tem que desejar mudar, desejar viver a mudança, desejar fazer diferente, desejar ver a diferença. É como dizem nos alcoólicos anônimos ‘mais 24horas’.
A luta é diária, não existe ex viciado em alguma coisa, existe viciado em tratamento continuo, que se vacilar e ‘experimentar’ novamente acaba caindo de novo na armadilha da mente, na ilusão de fuga.
E analisar tudo isso me leva a analisar os compulsivos. A compulsão em si nada mais é que um vicio não tratado. Muitos veem como distúrbio psicológico, mas que diferente há de quem usa drogas? Usar drogas também se torna um distúrbio, pois muda o psicológico.
Há vários graus de compulsão, os acumuladores, os compradores, os estupradores, os estripadores, mas independente de qual é está ligado à mente. Mais uma vez afirmo que fatores socioeconômicos e socioculturais podem influenciar, mas a base está ligada a mente.
Algumas doenças são facilmente explicadas pela medicina, como a bipolaridade, a esquizofrenia, são elas degenerativas do cérebro, mas outras nunca foram claramente definidas, ao menos não que eu tenha aprendido ainda, como o caso de certos distúrbios desenvolvidos por fatores externos, os quais considero também fraqueza humana.
Quando analiso minhas experiências vividas peço ao sobrenatural proteção para meus filhos, pois cada um reage de maneira diferente nas situações e eu acredito que em cada uma agi consciente, pois além de temer a Deus sempre tive muito receio de ofender ou magoar minha mãe, então por mais que fizesse algo errado fazia analisando não só o presente momento, mas o futuro próximo. Assim me tornou egoísta e nunca me permiti ser dominada por vícios, sempre fui muito eu, sempre fiz questão de ter controle de mim e de minhas escolhas.
Em muitos momentos de dificuldades senti vontade me entregar, fugir da realidade. O mundo ilícito é tão mais prazeroso. Mas minha consciência me revela que não passa de ilusão, que nada tem a me acrescentar. Que é apenas perca de tempo. Então a velha ‘Verdade de cada um” retorna e analiso minha história como produtiva, pois por pior que tenha sido, por mais tenho que eu tenha perdido, cheguei onde estou consciente de cada erro, de cada dificuldade, do tempo perdido, mas cheguei com muita força e coragem para começar de novo.
Não me importa o passado, me importa manter a consciência tranquila no presente e fé no futuro.
Ainda não aprendi a extrair o meu melhor, talvez eu ainda esteja perdendo unção, mas tenho consciência do todo.
Se Cristo voltasse hoje para o arrebatamento talvez eu fosse direto para o inferno, viveria a eternidade agonizando dor, mas seria a alma mais consciente do lugar. Essa convicção me leva a outra questão: do que adianta a consciência? Mas isso é questão para outro texto, por hoje basta.
Reflexão geral: Vicio é uma questão de escolha, de determinação, de força de vontade, de coragem. Se curar do vicio não existe, existe se tratar. Como todo e qualquer tratamento esse também é para os fortes, para os que acreditam na vida além da existência, para os que não temem começar de novo. As tentações são diárias, cabe a cada um aprender a dizer não.
Seja mais você. Prefira seu ser.




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