sábado, 23 de março de 2013

Carta recebida


Começo a narrar não parte de minha história vivida, mas um episódio especial que mudou todo meu existir.

Era uma manhã de segunda feira, ao acordar parecia ter perdido a memória. Não despertei em meu quarto como costumava, nem tão pouco em minha casa. Na verdade lembro-me de sentir muito frio e por isso acordei, mas ao abrir os olhos o susto superou a surpresa e me deixou atônito diante as imagens que meus olhos contemplavam.

Estava em um lugar desconhecido e difícil de descrever. Não era parecido com nada que já havia visto antes.

Não havia ruas nem calçadas, nem mesmo casas ou comercio, talvez fosse assemelhado a uma caverna. Eu não conseguia ver começo nem fim, não sabia como havia chegado aquele lugar. As paredes eram grotescas e baixas, deixando evidente serem rochas, mas delas brotavam água sem parar, que deixava o solo pantanoso e causava a sensação de frio.

A princípio eu pude observar as paredes e o chão, não queria sair do lugar, olhava para direita e não via ninguém, mas ouvia diferentes pedidos de socorro e gritos de dor. Eram gemidos sofridos e aflitos, como se tivessem sendo torturados, os gritos intercalavam com risadas macabras que soavam crueldade. Olhei para esquerda e também não vi muito além, o ambiente era escuro, não havia luz alguma, meus olhos só conseguiam ver ao meu redor.

Distante dali, ainda à esquerda, por vezes surgia um raio de luz seguido de certa calmaria, mas tudo se passava de forma muito rápida e quando a luz se esvaia os gritos se tornavam ainda mais intensos e desesperados.

Por muito tempo fiquei ali parado, sem me mover, sem sair do lugar. O medo parecia ter me roubado as pernas e só a mente estava ativa. Depois de certo tempo já nem me importava onde estava ou como havia parado ali, só desejava encontrar a saída. Ciente que me manter ali não mostraria como sair, coloquei-me a andar. Como os gritos da direita eram estridentes optei por seguir para a esquerda, onde os gritos pareciam mais distantes, mas a cada passo uma visão me surpreendia.

Meus olhos pareciam habituados à escuridão e via tudo como vultos. A princípio tentava olhar adiante o que pudesse ver, caminhava sobre a água fria e barrosa daquele lugar. Dei alguns passos e logo os gritos ficaram mais distantes, dando lugar a sussurros, não entendia muito bem o que diziam, pareciam milhares de vozes falando ao mesmo tempo, continuei e os sussurros não cessaram. Lembravam-me o som de uma vitrola velha quando queria sintonizar uma rádio qualquer, apenas chiados desconexos, sem clareza, mas eu sabia que tentavam dizer algo do tipo pedido de socorro.

Com a mente atordoada e confusa continuei até que senti como se algo tivesse mordido meu pé. Sabia que não era um animal, pois não senti dentes, mas senti certa pressão. Abaixei meu olhar e me deparei com a pior imagem que meus olhos já puderam contemplar. Imaginei estar em um pesadelo, pois era pior que qualquer imagem de filme de terror, tentei acordar, mas foi em vão.

Ali, sob meus pés, milhares de rostos submergiam e voltavam à superfície, não via corpos nem outros membros, apenas os rostos disformes, as bocas sem dentes e os olhos me olhando como que pedindo socorro. Ao fita lós pareceu que o desespero deles aumentou e um rosto sobrepunha o outro gruindo como que tentando me dizer algo, nesse momento me desesperei e corri o mais rápido que pude, não deixando de olhar para baixo, vendo que o caminho era repleto deles, foi nesse momento que bati em algo e caí. Senti como se todas as mãos que eu não havia visto antes tentassem me puxar para baixo na esperança de sair dali.

Levantei-me o mais rápido que pude e vi que havia batido em uma rocha, a parede e o teto se encontravam e alguns lugares eram mais baixos que outros. Segui o caminho à frente, que fazia uma pequena curva um pouco mais a esquerda e pude ver que meus pés já estavam em solo firme, não sei dizer ao certo que matéria prima era aquele solo, mas era mais firme que barro ou argila porem mais mole que a parede de rocha.

Olhei para traz e percebi que aquele lugar pantanoso no qual estava era uma espécie de lago, estava tão cheio do que parecia pessoas presas ali que a saturação não me permitiu afundar. Confirmei estar em um daqueles pesadelos onde mesmo sabendo se tratar de um sonho não conseguimos acordar, já imaginava um precipício a qualquer momento de onde me jogaria e então despertaria antes de chegar ao chão, mas não foi isso que aconteceu.

Os gritos de socorro ficaram próximos e agora conseguia ouvir claramente, havia muito choro e lamentação, as vozes se misturavam de homens e mulheres, ouvi então um som que parecia chibatadas, seguido de uma risada sarcástica e cruel.

Estava novamente cercado, mas agora as pessoas caminhavam de quatro como animais quadrúpedes, seus rostos eram desconfigurados e parecia não enxergar, pois trombavam uns nos outros. Corriam gritando, chorando e gemendo de um lado para outro, sem rumo certo, como baratas tontas. Alguns arriscavam parar e nesse momento um grande chicote de fogo surgia no ar atingindo-os ao ponto de parti lós ao meio. Uma massa gosmenta caia ao chão e se fundia formando o ser novamente ainda mais disforme. Por não enxergarem não podiam me ver, mas a cada clarão era como se pudessem sentir minha presença, não conseguia ver as expressões de quem auferia as chibatadas, mas o som das gargalhadas era suficiente para me gelar a alma.

Houve um instante em que uma das chibatadas de fogo quase me atingiu, me vi em meio a uma névoa de fumaça com um cheiro sufocante, não aguentei e vomitei. Não sei ao certo o que saiu de meu estomago, era parecido com uma espuma branca e gosmenta, mas não pude analisar por muito tempo, pois os seres atacaram na tentativa de comer e eu me afastei, observando tudo um pouco distante. Os que seriam braços e pernas não se dobravam e assim eles não conseguiam alcançar o chão, alguns caíram e aproveitaram para lamber a gosma, e nesse momento o chicote de fogo surgiu ainda mais ardente.

Não fiquei parado para ver como terminaria aquilo e continuei a andar, parecia que o pesadelo estava findando, pois por um tempo não escutei barulho algum. Era apenas a negritude, o frio, o cheiro estranho, as paredes rochosas e eu, mas estava enganada, das paredes saiam pessoas sem membros, apenas corpo e cabeça, pude perceber que eles possuíam boa visão, pois olhavam dentro de meus olhos como que querendo ler minha alma ou me relatar as deles. Tentei questionar porque estavam ali daquela forma, mas eles vinham e iam, na rocha, como se fossem minhocas na terra, e de alguma forma sabia que eles não podiam me ouvir nem falar.

Escutei barulhos parecidos com gigantes panelas em cozimento, me aproximei e de fato algo parecia cozinhar, eram buracos aparentemente profundos no chão e não havia ninguém por perto. O conteúdo que estava sendo cozido exalava um odor mais forte que todos os outros que eu havia sentido. Cuidadosamente atravessei aquele local, e quando tomei certa distancia pude ver a tal substância que queimava subir como vulcão e atingir todo caminho por onde eu havia passado. Nesse momento os gritos pareciam se unir aos gemidos e sussurros formando um som estridente e quase insuportável, toda estrutura do local tremeu, como se as pessoas minhocas estivessem acelerado seus movimentos, a fim de não ser atingidas, o que era em vão, pois elas sempre voltavam para o mesmo lugar. Não fiquei observando por tempo suficiente para ver o que aconteceria a seguir, estava com medo, e assim a disposição de sair logo dali falou mais alto.

Não sabia quanto tempo havia se passado. Ao tempo que tudo parecia rápido sentia como se fosse uma eternidade. Houve momentos em que minha respiração parecia parar me sentia sem ar, sufocado, minhas pernas pesavam como que me impedindo de caminhar, meus braços pareciam adormecidos, meus olhos estavam ardendo e meus ouvidos cansados. Só minha mente não cessava, os pensamentos eram turbilhões de perguntas e afins. Havia muita curiosidade de saber que lugar era aquele, mas o desejo de sair dali era maior. Nesse momento me veio à indagação: sair e ir para onde?

Sentei-me no que pareceu um canto, encostada na parede, o teto não estando distante, e fechei os olhos. Diante mim revi minha vida como quem assiste a um filme no cinema. Todas as oportunidades perdidas, todas as escolhas que se revelaram erradas, os conselhos que ignorei as palavras malditas que lancei os projetos inacabados, as desistências no caminho, a fraqueza em cada novo desafio.

Tudo aquilo me sufocou ainda mais e me delimitou. Foi como se eu estivesse sem membros, sem sentidos, sem nexo. Então surgiram vozes entoando orações, a princípio eram vozes desconhecidas, vozes que não distinguia, mas que pediam por mim. Vozes sublimes e redentoras me acalmaram, não pude ver quem era, mas pela luz que erradiava paz sabia ser do próprio Criador através de Seu Espírito que intercedia da terra e de Jesus Cristo, que intercedia do céu. Senti-me repleta de afeto, um carinho sobrenatural me preencheu, me lembrei de meus pais e irmãos, de meus filhos, de minha mulher. Então novas orações surgiram e dessa vez pude reconhecer a voz, era minha.

Observei que cada pedido vinha acompanhado da solicitação para que o Senhor me livrasse de tudo aquilo que me separava dEle, que não permitisse pessoas mesquinhas, mentirosas e falsas em meu caminho, que independente de meus planos predominasse o Seu projeto para minha vida. Eu entregava minha vida nas mãos de Deus em oração, e o fazia com toda fé, pois esse era o desígnio de meu coração, mas as ações não condiziam com os anseios e assim eu sempre fazia escolhas por mim mesmo, o que era contrario a vontade do Senhor, por isso tudo sempre ficava pela metade.

Revi quantas oportunidades tive de falar sobre o Criador, quantos momentos eu podia aliviar dores com uma simples conversa ou com palavras de consolo, e ainda assim temia esvair de meu limite e usava o bom senso como argumento, falando apenas a quem me questionasse. Deixei de irradiar luz por onde passei e meu brilho foi se apagando. Sobre mim havia uma unção que não podia ser vista, mas eu sentia, pois era como um fogo santo a queimar, mas ao invés de alimentar esse fogo abençoando as pessoas, contando minhas experiências, servindo aos irmãos, minha timidez e todo receio, de não ser bem visto, aliado ao meu desejo pessoal de crescer profissionalmente e juntar bens fizeram o fogo se apagar.

Já havia passado dificuldades na vida, já conhecia bem a face do fracasso, mas agora ele havia chegado de maneira avassaladora que me cegava as esperanças e me ofuscava a fé.

Lá estava eu, um homem que havia se separado da esposa devido às dificuldades financeiras, não conseguindo cumprir com meu papel de progenitor optei por abrir mão de minha família, acreditei que assim eles não sofreriam comigo, afinal meus sogros tinham melhores condições de ajudar minha mulher e nossos filhos. Nossos filhos... Dois garotos que ainda nada sabiam da vida, ainda viviam no mundo de inocência e pureza. Nem faziam ideia da guerra que os esperavam na maturidade.

Voltando a mim, um homem no auge dos seus 28 anos, que muito viveu, já teve excelentes cargos de chefia em diferentes empresas, sempre foi bem colocado no mercado de trabalho, sempre poupou para emergências, sempre pode escolher onde e com o quê trabalharia, pois as oportunidades lhe batiam a porta, sempre rodeado de colegas e amigos. Popular e agradável, com a agenda sempre lotada, convidado dos melhores eventos, sempre por dentro dos melhores acontecimentos, de classe média, mas sempre cercado pela alta sociedade, comia o que desejava a qualquer hora ou dia, agora não tinha mais nada disso.

Desempregado há quase um ano, só recebia propostas para ganhar salário mínimo. Sem minha esposa, sem meus filhos, sem nome no mercado, com dividas que ultrapassavam a lógica, sem um meio de condução, com a conta bancária zerada, sem dinheiro nem mesmo para me alimentar ou me locomover. Tentar uma vaga de emprego parecia utopia, pois não havia dinheiro nem mesmo para pagar um coletivo e chegar à entrevista.

Em casa o telefone toca, é um amigo indicando um super trabalho que poderia me trazer novamente as minhas origens, poderia me ajudar a sanar minhas dividas e ainda a sair da casa de meus pais, onde estava vivendo da caridade deles. Durante a ligação me entusiasmo e digo que entrarei em contato com a pessoa responsável pela contratação, anoto o numero, mas ao desligar a realidade esbraveja em minha frente como um ditador feroz. Como ligar se não tenho telefone nem mesmo dinheiro para comprar um cartão de orelhão? Quanta aflição, quanto desespero, de que adianta a força de vontade se os fatores externos não colaboram?

Sobre a estante uma caixa de remédios, diferentes tipos. Os pensamentos são tão perturbadores que desejo cessa lós. Preciso dormir, mas minha cabeça dói. Os pensamentos não param. Preciso de remédio para dor de cabeça, outro para pegar no sono, porque não tomar todos que estão aqui? Porque me preocupar com a indicação? Quero dormir, bom seria nunca mais acordar, não ter mais uma vida com qual me preocupar, apenas me desligar e pronto. É isso ai. Vou tomar todos e dormir.

Nesse ultimo momento estava vivendo de fato a situação, tomei inúmeras caixas de remédio e então abri os olhos e voltei aquele lugar escuro e frio. Não sabia discernir o que era real e o que era sonho. Não entendia porque não acordava daquele pesadelo. Fechei novamente os olhos e uma dor horrível corroia meu estomago e se dissipava por todo corpo. Parecia haver vida em mim, uma baba grossa espumava de minha boca, foi quando finalmente acordei. Acordei naquele mesmo momento em que não sabia onde estava, onde o frio me despertou e pude ver um lugar parecido com uma caverna com paredes rochosas emendando com o teto e o chão pantanoso. Retornei ao principio, teria que refazer todo aquele caminho novamente e voltaria para onde estava sentada em um canto de olhos fechados revendo toda minha existência. Entendi que estava vivendo algo redundante e cíclico, não importava o quanto eu caminhasse eu voltaria para o mesmo lugar.

Coloquei-me a chorar, não com lágrimas saindo dos olhos, mas com uma dor voraz que saia da alma e encontrava com a dor do coração. Não queria estar ali, mas também não queria voltar àquela situação deplorável. Queria sim dormir eternamente, mas como se apaga uma luz, cortando toda energia, queria desligar minha mente, minhas lembranças, todas as possibilidades de estar em algum lugar. Queria ser como uma gota de água que evapora quando aquecida, mas era bem diferente, eu até podia sair da condição que estava vivendo, mas acabaria ficando ali, preso naquele lugar que nem mesmo sabia onde nem o quê era. Eu não desejava nenhuma das duas opções e chorava incessantemente desejando orientação, foi quando senti um leve toque na cabeça, foi como se uma energia percorresse todo meu corpo. Tentei abrir os olhos, mas não consegui. Meu corpo estava envolto em uma luz muito forte, era o mais branco da pureza, um tom jamais visto antes. Fiquei cego e atordoado.

Não sei quanto tempo fiquei desmaiado, mas despertei em outra atmosfera, o lugar era repleto de luz do dia. Não sei explicar onde estava. Despertei sobre a grama, mas era mais confortável que qualquer colchão que eu conhecia. Havia muitas arvores em volta e muitos animais de diferentes espécies também. As pessoas caminhavam em meio a eles como que interagindo entre si. A principio me amedrontei, pois haviam inúmeros animais de grande porte que normalmente eram selvagens, mas até os tigres ali pareciam inofensivos gatinhos.

Eu despertei, mas não levantei, observava tudo deitado onde estava, temia o que aconteceria quando levantasse. Sobre toda extensão daquele lugar havia tecidos brancos amarrados nas arvores, como que formando tendas.

Um rugido soou por traz de mim, o medo foi tamanho que nem mesmo consegui me virar para olhar o que era. Um homem, aparentemente com seus 50 anos, se aproximou e com um sorriso suave me saudou. Perguntei onde estava e ele me disse que aquele era um hospital e que eu estava ali para tratamento. Eu não entendia aquilo, um hospital na natureza e eu nem doente estava.

Imaginei-me em um sonho, mas o lugar era tão lindo, a sensação era tão boa que eu não queria acordar. Levantei e ao meu lado estava um leão, aparentemente mais feroz que os que já havia conhecido em zoológicos e circos, era mais robusto, mais bem tratado, o pelo era brilhante e aparentemente macio. O animal olhou dentro de meus olhos e foi como se pudesse ler minha mente, o olhar lançou fora tomo medo que eu sentia e toquei lhe o pelo. Seu pelo era mais macio que qualquer coisa que pudesse me lembrar, seus dentes eram brancos e afiados, podia ver minha imagem refletida neles.  Levantei-me com a ajuda do homem que me falava sobre tudo que veria ali, mas minha mente não capturava nada do que ele dizia,estava atônito com aquele animal tão próximo de mim.

Quando me coloquei de pé o leão fez o mesmo, percebi que ele batia em minha cintura, era alto e forte. Ele novamente rugiu, o homem sorriu como que satisfeito com a situação, dessa vez eu não senti medo, ao contrario, uma paz me tomou. O homem disse que eu já estava pronto para explorar o lugar, pois minha alma e de meu guia já haviam se reconhecido, e após essas palavras ele saiu cantando uma canção que não pude ouvir, mas pude sentir que emanava paz.

Olhei ao meu redor e todo mundo que estava por ali brincava com  um animal, haviam pessoas deitadas como que dormindo, mas até ao lado dessas havia um animal aguardando o despertar do sono. Procurei pelo meu guia e não vi ninguém, foi nesse momento que ouvi um novo rugido. Não sabia exatamente o que aquilo significava, mas o leão foi caminhando e eu sentia que devia acompanha ló.

Não sabia há quanto tempo estava naquele lugar, não sabia por quanto tempo havia dormido, não sabia sequer como havia chegado ali. O leão caminhava entre as pessoas e os outros animais que se curvavam levemente e sorriam. Após um tempo de caminhada olhei para traz e vi que todos estavam distantes, já não via mais tecidos, apenas nuvens azuis e brilhantes cobriam o céu. O sol estava claro, parecia maior, era como se eu pudesse ver uma grande bola de fogo queimar perto de mim, mas a sensação térmica era agradável, uma suave brisa tocava minha pele.

Ainda estávamos caminhando sobre uma grama verdinha e macia, foi quando percebi que eu não estava usando minhas roupas normais, eu estava com uma espécie de túnica longa que chegava aos meus pés. O tecido era claro, um branco diferente, era fino e leve, em nada lembrava os tecidos que sempre conheci e usei. Olhei em volta e havia muitas flores espalhadas como que em cercados, onde muitas borboletas pousavam. Ouvi um zunir e percebi que havia também muitas abelhas por ali, beija-flores, joaninhas e dezenas de espécie de insetos que eu não conhecia, todos pareciam olhar quando passava.

Um som diferente se fez no ar, e o leão novamente rugiu, como que me pedindo para caminhar mais rápido, pois ele já estava distante de mim. Parei de olhar para traz e para o lado e olhando para o felino caminhei rápido. O som aumentava de acordo com as passadas que dava. O leão parou e sentou como faz um cão diante algo interessante de se ver. Quando me aproximei não podia ser diferente, me sentei e contemplei toda maravilha que meus olhos jamais haviam visto. Estávamos sobre um monte, era como um morro, de onde podíamos ver o que se passava lá em baixo.

Havia uma imensa cachoeira que desembocava em um rio de águas calmas e transparentes. De cima podia ver tudo que se passava sob as águas, como se fosse um aquário. Muitas pedras, peixes, diferentes seres vivos que eu não conhecia. Em torno do rio muitas arvores de diferentes espécies, algumas frutíferas, muitas flores em locais reservados, as pessoas e os animais brincavam em volta. A direita uma grande toalha branca estava posta, e as pessoas vinham uma a uma colocando as frutas que haviam colhido ali.

Ficamos observando de longe até que um grave som se fez. Era como um raio no céu, mas não vi clarão, apenas o som. Não havia chuva ali, mas o clima agradável indicava que ela havia passado, e após o estrondo um belo arco ires se formou. Parecia descer de traz do sol pelas nuvens e chegar ao chão. Todos olharam admirados por alguns instantes, até que voltaram e se sentaram ao redor da tolha branca. O leão que me acompanhava também se levantou e desceu rumo ao que parecia um pic-nik. O segui como sentia que tinha que ser. Ao meu lado havia outras pessoas com expressão de tão perdidas como eu, todos nos olhavam como que nos saudando por estar ali e acenavam para que comecemos.

Eu não sentia a menor fome, mas visto que todos esperavam que eu provasse algo não me opus. A minha frente havia um belo cacho de grandes uvas verdes, peguei uma e comi. A sensação que tive foi de liberdade, me senti leve e livre, como se aquela uva tivesse mais que sabor, o que já seria difícil visto que era a fruta mais doce que já havia provado. Seu gosto não era de uvas comuns, era um saber que incitava vida. Não resisti e provei então uma maçã, uma pera, um caqui, um kiuí, e muitas outras frutas que ali estavam. Quanto mais eu comia mais sentia gosto de vida, não consigo explicar o que era nem tão pouco como era, mas eu não sentia fome nem tão menos necessidade de comer, mas o sabor daquelas frutas era algo mágico.

Um novo trovão soou, e todos levantaram e saíram, eu não entendia porque não podia continuar a comer, ainda havia tanta coisa ali, e por mais que eu não estivesse com fome degustar aquelas frutas me causava prazer.

O leão olhou dentro dos meus olhos e sem piscar ou rugir me fez segui ló, naquele momento confirmei que aquele era de fato meu guia, pois sem dizer uma palavra só de me olhar eu entendia o que ele dizia.

Fomos até o lago que se formava ao final da cachoeira, era na verdade o belo rio que havia visto do alto. As pessoas que pareciam não entender nada, assim como eu, estavam a frente rodeando o lugar, os animais se colocavam atrás. Um leve vento começou a soprar, ele parecia trazer uma canção, a mesma canção que o homem havia saído cantando antes. Não me era possível entender o que dizia, nem tão pouco distinguir as notas, mas me trazia calma e paz.

Fiquei ali, como os outros, parado escutando a musica. Foi como se ela me conduzisse a um transe, fechei meus olhos e sem ver me deixei levar.

Um grande choque me despertou, vi que estava em meu quarto agonizando em dor. De minha boca saia uma gosma espumada branca. Recordando os inúmeros medicamentos que havia tomado lembrei-me do desejo de adormecer e não mais despertar, e novamente se passou o resumo de minha existência como que em um filme a minha frente. Com essas lembranças novamente fui levado naquele local que parecia uma caverna, o frio gelava minha alma, os gritos eram ensurdecedores, as pessoas eram de longe humanas. Senti-me sufocado e temeroso e foi nesse momento que a luz mais alva que qualquer luz já vista ou narrada me percorreu o corpo, escutei como que distante o som do vento cantar a canção que não entendia, mas me acalmava e trazia paz. Abri os olhos e ainda estava ali, diante aquele rio, com pessoas desconhecidas e animais de todas as espécies e tipos.

Senti uma grande vontade não sair daquele lugar, mas eu sabia que uma hora ou outra eu voltaria a percorrer aquelas lembranças que me causavam dor. Desejei nunca mais abandonar aquela serenidade que sentia. Sentia-me completo, era como se a paz me preenchesse de tal forma que nada mais me importava. Se desejava adormecer queria acordar ali, naquele local, e nunca mais dormir. Queria viver cada minuto daquele paraíso.

Quando estava ansiando não sair dali o leão novamente rugiu, dessa vez como que me alertando de algo. A princípio não discerni o que queria dizer, mas depois foi claro o saber que eu ainda não estava pronto para ficar ali.

Só o fato de ainda ter lembranças, o fato de ainda questionar sobre dormir e acordar, tudo isso revelava que eu ainda não estava pronto para permanecer ali. De alguma maneira eu sentia que estar ali era a glória e não queria sair.

O leão olhou me novamente dentro dos olhos, mas dessa vez me transportou para momentos de minha existência nos quais eu nunca havia dado valor. Guiou-me diante breves instantes em que eu ajudava um cego a atravessar a rua, instantes em que eu sedia o banco aos mais velhos, instantes em que eu deixava de comer algo que estava desejando para dar a um pedinte na rua, instantes em que eu ia contra a lógica dos fatos e dizia palavras de incentivo e apoio a pessoas que precisavam de direção.

Revi diversos momentos em que me vi no chão e encontrei um meio de me levantar. Me vi contemplando flores, e admirando a criação. Me vi feliz ao ouvir o som dos pássaros a cantar. Me vi alegre ao contemplar a infinidade de tons e a diversificação das cores. Revi que muitas vezes eu não conquistava o que queria por abrir mão do meu anseio em função do anseio do próximo, mas tudo isso inconscientemente, por que era minha essência e fugia ao meu racional, por isso muitas vezes quando a razão me cobrava eu me sentia perdido e me alienava. Foi nesse momento que senti queimar em mim um desejo de começar novamente.

Não importava quão ruim estava não me importava o que estavam dizendo ou pensando. Eu sabia que havia feito tudo conforme o momento. Claro que havia muita culpa pelos erros, mas em cada escolha havia o desejo de acertar. E por pior que eu estivesse ainda tinha membros, ainda tinha sentidos e isso me tornava capaz de começar novamente. Por mais que fosse humilhante a dependência, por mais que fosse constrangedor passar necessidades, eu ainda era dotado de saúde para começar.

Com esses pensamentos o desejo de dormir e nunca mais acordar deu lugar a um desejo muito maior de despertar para a vida. De sair da condição de ser existente para a condição de ser que vive a existência.


Abri novamente os olhos e todos me olhavam como que se despedindo. Nos olhos do leão haviam lagrimas acompanhadas de uma expressão de satisfação e vitoria. Era como se ele me dissesse que havia feito à escolha certa. Sem entender nem questionar entrei no rio. A água era cristalina. A princípio me pareceu fria, mas me lembrei da caverna gelada e percebi que a temperatura era agradável, caminhei mais para o centro do rio que parecia não ser tão fundo, visto que as águas permitiam ver o solo. Enquanto caminhava novamente o leão rugiu, me virei para vê ló, mas era tarde, ele já havia saltado sobre mim. Veio tão rápido que não pude vê ló, apenas senti seu peso sobre meu corpo.

O choque, do peso do corpo do imenso felino contra o meu, pareceu causar um impacto tão grande que me transportou para outra dimensão. Apreensivo de onde estaria abri os olhos assustado e lá estava eu, deitado sobre uma cama de hospital com tubos por todo lado.

Meu corpo estava frágil e já não queria lutar, os equipamentos que mantinham meu coração funcionando. Meus sinais vitais eram escassos. Ao redor estavam meus pais, meus filhos e minha mulher, todos de mãos dadas levantando clamor a Deus. Então reconheci que aquelas eram as vozes que havia escutado, mas não havia discernido. Pude escutar claramente eles pedindo para que predominasse a vontade do Criador, que eu descansasse em paz onde quer que fosse em vida ou em morte.

Atrás de cada um deles havia uma pessoa amparando com as mãos os pensamentos. Os rostos me eram familiar, do tal local de tratamento. Um homem entra na sala e vem em minha direção. Eu estava de pé, de frente para meu corpo delimitado e frágil. Percebo que é o mesmo homem que falou comigo quando despertei na grama verdinha, e pude sentir que era o mesmo homem que tocou minha cabeça quando estava sentado em um canto na caverna fria, ele chegou com a mesma luz, mas dessa vez menos ofuscante. Não foi possível contemplar seu rosto e sua idade nada tinha haver com os 50 anos que havia imaginado antes, na verdade sua existência nada tinha haver com o tempo cronológico vivido na terra.

Bem certo foi a interpretação quando ele me disse que eu devia fazer a escolha, pois meus familiares já sofriam em demasia, visto que para eles já haviam se passado longos meses em que estava naquela situação. Nesse momento entendi o que de fato significa livre arbítrio e o que quer de fato dizer que o tempo de Deus não é o tempo dos homens.

Minha escolha foi voltar a humanidade, não apenas como ser humano que sou, mas sendo humano em minhas ações com o próximo e deixando meu ser falar mais vezes. 

Aprendi de uma maneira indescritível e inexplicável que muito mais vale ser que ter. Que admirar as coisas simples da criação nos leva para perto do nosso paraíso pessoal. E assim, acreditando que um dia me será permitido viver eternamente em uma bela colônia de tratamento, não sendo tratada, mas ajudando a tratar é que voltei à vida terrestre.

É verdade que poucas lembranças ficaram das sensações de tais experiências, mas desde então em mim começou a arder um imenso desejo de evoluir espiritualmente, a fim de um dia poder viver toda paz novamente, de poder provar tão doce sabor das frutas e de ter como guia um protetor que de fato conhece até meus pensamentos.

Até esse tempo tinha plena ciência e conhecimento que do todo, da eternidade, muito pouco havia sido revelado e sabia que muito ainda viria a conhecer, mas essa experiência me bastou para escolher viver a existência terrestre como me era proposto, aceitando os desafios e encarando as consequências, certo de que um dia todo sofrimento seria muito bem recompensado.

Manter em vida terrena o equilíbrio mental aliado ao emocional se aproximava daquela paz que sentia naquele lugar sobrenatural. E foi assim que optei por nunca me desesperar e aguardar que tudo se desse, independente dos obstáculos. E posso afirmar que de fato foi a melhor escolha que fiz.

É com grande satisfação que narro uma de minhas mais audaciosas experiências com o sobrenatural. Muitas outras ainda virão, mas cada uma em seu tempo determinado.

Eu creio!

[Com a graça e a paz, do nosso Senhor Jesus Cristo, saúdo você. Minha benção está sobre ti.] 


Obs.: As vezes escrevo coisas que nem mesma entendo, as vezes vejo de fato o que relato em textos como se eu estivesse lá, mas sei que meu corpo não saiu do lugar, mas as vezes é ainda mais estranho, pois é como se não fosse eu quem estivesse escrevendo. Simplesmente começo e não consigo parar até que tudo esteja terminado. Muitas vezes tenho medo de reler, pois não reconheço o conteúdo, é como se não tivesse saído de minha imaginação, não me recordo de ter escrito nada do contexto...
De certo modo me vi nos lugares narrados, senti o frio, senti o cheiro, meu coração acelerou ao mesmo compasso que depois se alegrou, mas eu não sai do lugar, estava o tempo todo sentada em minha cama escrevendo, dessa vez ao reler não só o conteúdo me intrigou, mas a primeira frase que cortei onde constava: “Olá, me apresento a você como Henrique Alberto Damascena, quando o fato a ser narrado ocorreu eu tinha 28 anos na cronologia terrestre. “

Não conheço ninguém com esse nome, bem como minha memória não me recorda nenhum fato que eu possa inconscientemente ter ligado a ele. Não consigo explicar porque nem mesmo consigo entender. Às vezes temo perder a sanidade e me ver presa em um manicômio qualquer, as vezes temo dar asas demais a minha imaginação e alcançar lugares onde não consiga voltar a realidade... Não sei ao certo como, mas continuo escrevendo o que diz respeito a mim ou o que prefiro chamar de contos, que passam diante meus olhos como filme.

Bom seria se minhas mãos acompanhassem minha mente...


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