No processo de existência alguns optam por apenas seguir, se
ligam no automático e vão. Muitos até sem perceber estão presos à ideologia de
nascer, crescer, ter, reproduzir e morrer, mesmo que inconscientemente, e
acabam não se questionando sobre a vida e o que ela pode oferecer.
Essas pessoas normalmente se tornam bem sucedidas, ocupam um
cargo bom, são líderes em determinado departamento, alcançam o objetivo
financeiro que almeja, no entanto são pessoas vazias de valores e escassez de
questionamentos.
Pode soar cruel dizer que ‘são vazias de valores’, mas é de
fato o que acontece. Não que sejam pessoas sem escrúpulos que irão passar por
cima de tudo e de todos para chegar onde deseja, apesar de que isso muitas
vezes acontece, a questão é que o único foco é ir alem na carreira, trabalhar,
ter bens, ser reconhecido.
É uma busca incessante por ir sempre alem, mesmo tendo
conquistado os objetivos anteriormente programados não há satisfação, os
objetivos nunca acabam, querem sempre mais e mais, de um modo que se esquece de
comemorar as conquistas que tiveram e assim vão se tornando ainda mais ausentes
da viva. Estão mergulhados na existência que não conseguem enxergar alem.
Em resposta a esse fato temos os consultórios médicos cada
vez mais lotados, muitas vezes problemas físicos que são apenas reflexos de
problemas emocionais. Nunca se ouviu falar tanto em stress como nos últimos anos.
A depressão já está presente em um quarto da população, inclusive em crianças
que ainda nem tiveram tempo de analisar a existência e despertar para a vida.
Falar em depressão e stress me leva de volta as questões
psíquicas. É a analise do contexto social envolto no núcleo familiar diante as
experiências vividas. Sendo assim como justificar que alguns conseguem superar
situações traumatizantes sem grandes fantasmas e outros acabam fazendo disso o
motivo de seus fracassos?
Tudo está na maneira de ver e sentir a vida.
Uma pessoa que apenas existe ela não se apega a dogmas,
crenças, nem nada semelhante. Pode até dizer ter fé, mas na dificuldade não
enxerga o poder sobrenatural que dita situações e propõe consequências a
evolução. Ela acredita que consegue passar por tudo sozinha e quando algo ruim a
acontece se sente vitima da vida e o lamento profundo domina seus pensamentos
chegando ao coração.
O lugar de vitima é o mais deprimente que um ser existente
pode estar, pois assim ele não consegue ver as estratégias da situação, não
consegue aceitar os fatos, logo dificilmente conseguirá supera lós sem a ajuda
de um bom profissional.
A vitima tem sempre uma desculpa para o que aconteceu, tem
sempre uma resposta pronta para justificar e se sente ameaçada por tudo e por
todos. Está sempre procurando culpados que justifique sua falha, seu medo, sua
dor, sua perda.
Gosto de trabalhar pessoas e não necessariamente com elas. Trabalhar
pessoas vai alem de atender ou interagir, é a oportunidade de abrir a mente
para o despertar, é incitar indiretamente que a pessoa saia do automático da
existência e tome o mastro da direção. Abaixe o freio de mão que estagna a vida
e descubra que viver está muito alem de existir e que por mais difícil que seja
a felicidade pode estar presente em sua melhor forma: paz.
Escuto muitas mães dizer que os filhos reprovaram na escola
por influencia de amigos, ou que passaram por uma fase difícil por andar com má
companhia. Infelizmente a própria mãe está ligada no existir e de forma remota procura
culpados para tirar a responsabilidade do filho e principalmente de si mesma.
Se for assim como explicar jovens que moram em favela, que convivem livremente
com trafico, bandidos, tiroteio, prostituição, mas que acima de tudo isso se dedica
e conseguem mudar de vida? Seja através de estudo, trabalho, esporte?
Pessoas carentes deveriam ser mais estressadas que as de uma
melhor classe social? Afinal ela tem menos preocupações, elas sabem que não
precisam guardar do almoço para janta, elas sabem que amanha terão alimento.
Sendo assim pessoas pobres deveriam ser deprimidas? Elas sobrem não só com más
condições de moradia, saúde e educação, bem como com a reclusão social, falta
de objetivos, não conseguem enxergar nem se quer um amanhã como sonhar com uma
mudança de vida? Esses são motivos que justifiquem depressão? Se sim porque
depressão na maioria das vezes é diagnosticada em famílias com condições no
mínimo básicas de sobrevivência?
A grande verdade dos fatos é que as pessoas estão tão
ligadas no automático que quando algo sai diferente do planejado elas se frustram
e ao invés de curtir o lamento e tentar novamente elas se fecham com medo que
aconteça novamente e assim acabam se tornando reféns de suas experiências e não
se permitem escrever uma nova historia.
Não me esqueço da primeira vez que ouvi falar sobre como os
adestradores de elefante em circos os treinam. Quando o elefante é ainda
pequeno eles acorrentam uma de suas patas a uma estaca no chão, ele tenta sair
e não consegue porque está com a pata presa, assim ele acredita que não
conseguirá sair e para de tentar. Quando um elefante passou por essa
experiência, pode se prender até mesmo um barbante com palito de fósforo ao
chão que, mesmo estando na fase adulta e pesando seis toneladas ele não tentará
sair. Ele já tentou antes e acredita que tentar novamente será em vão, assim
ele aceita a situação e fica a mercê dos fatos.
No dia a dia me deparo com inúmeras pessoas assim, que por
terem vivido experiências desagradáveis simplesmente pararam de tentar e o pior
é que são problemas tão simples, as possibilidades de vencer são tão maiores,
mas elas não conseguem perceber, pois está presa a experiência que não deu
certo.
Quanto mais pensa na existência mais desejo viver. Na
loucura de existir conheci muitas pessoas que me ensinaram muito,
principalmente como não agir. Na intensidade de viver conheci pessoas que me
ensinaram além do que minha razão consegue compreender.
Viver é não apenas seguir um curso natural, mas se
questionar ‘por que esse destino?’
O despertar para a vida não te torna imune aos problemas e lamentações,
mas te dá um novo ângulo de visão, ou melhor, novos ângulos de visão. Quem vive
sai do papel de vitima, toma a direção das mãos das consequências e escreve sua
própria historia.
Emociono-me a cada família carente que entra em minha sala.
Sou instruída a evitar ouvir a historia de vida, mas como se aprendo tanto com
elas? São famílias que sobrevivem abaixo do índice de pobreza e ainda assim
conseguem sorrir, ainda assim tenta encontrar uma perspectiva de futuro para
seus filhos. São pessoas que não aceitam simplesmente existir, fazem questão de
viver.
Ao contrario de existir há muitas formas de se viver. Quem
escolhe a vida escolhe um caminho, não por ter sido outorgado, tão menos por
ter sido a única opção, mas escolhe de fato baseado no que acredita e no
deseja, visando não só o presente, mas o futuro em longo prazo.
Quem me acompanha sabe o quanto existi antes de me despertar
para vida, alguns nem mesmo perceberam esse despertar, mas isso porque estão
tão presos aos rótulos que me deram em determinado estagio da existência que
não acompanharam a evolução.
Meu processo de despertar foi lento e doloroso, marcado por
perdas e lamentações, fases que abriram feridas que jamais cicatrizarão. O
stress foi tanto que cheguei ao ponto da profunda depressão, mas justamente
cavando o posso para baixo, sem ver saída, sem nenhuma perspectiva que
despertei e posso dizer que o despertar é melhor que qualquer alucinógeno que
se possa tomar, melhor que qualquer entorpecente que se possa usar, melhor que
qualquer prazer físico que se possa sentir.
Viver está relacionado não com o modo com que você se
apresenta ao mundo ou como as pessoas te veem e sim ao modo como você se
comporta consigo mesmo, com a forma que você se vê. Não analisando com o ego,
mas olhando os diversos ângulos. É justamente o ‘egocídio’. É o sair do centro
e se fazer observador, pois assim as respostas surgem mais facilmente e a percepção
do todo é melhor.
Quem vive pode lamentar o que passou, pode lembrar, pode
remoer, mas usa tudo como experiência a fim de não reviver o que causa trauma e
dor. Não se entrega a depressão. Não se faz de vitima. Não procura culpado, ao
contrario entende que apenas ela é responsável por tudo que acontece.
Viver é tomar as redias do destino e ditar a direção.
Quem vive é mais leve, não leva detalhes demasiadamente a
serio, não faz imposição, não cobra incoerentemente, não sofre devaneios na
realidade.
Quem vive consegue se alegrar em pequenos gestos, no sorriso
de um desconhecido, nas palavras sutis de quem tenta orientar, no silencio de
quem escuta.
Quem vive tem os dias mais longos consegue tempo para
admirar pássaros a voar, para observar insetos caminhar, para ver um jardim
florido em um lugar qualquer.
Vida chama vida, por isso dizem que alegria é contagiante.
Quem vive não fica preso no que poderia ter feito ou no que irá fazer, simplesmente
vive cada momento como sendo único, pois sabe que um dia é suficiente para
mudar todo curso do destino. Sabe que a única coisa que não se pode parar,
comprar, ou negociar é com o tempo, assim senti ló é imprescindível.
Um único instante, uma única conversa, um simples sim ou não
pode mudar vidas.
O que falta na existência é o despertar para vida, é
humanização. É sair do automático de acumuladores, de bens, riquezas, poder, e
nos conscientizarmos que independente de credo, classe social, situação
financeira, todos somos seres pensantes, alguns mais que outros, mas todos
humanos e dotados e direitos e deveres, logo todos temos direito a vida.
Ao invés de ensinarem a historia de Cristo nas escolas que
aplicam ensino religioso deveriam ensinar a importância do despertar. Não
apenas impor uma fé, religião, ou manter o padrão cultural, mas ajudar no
despertar. Lançar a flecha de questionamentos nas crianças, para que essas se
tornem seres pensantes e responsáveis por suas escolhas, não robôs controlados
por padrões.
Cada vez mais as pessoas se tornam marionetes na mão da
hierarquia. Hierarquia existe para que haja ordem, mas ordem é o mínimo que
deve haver quando há respeito.
Um dia, em uma entrevista de emprego, narrei uma historia
que havia vivido onde cometi um grande erro e me arrependi de tal, foi difícil
reverter à situação, mas felizmente consegui. Os olhos da psicóloga que me
ouvia brilharam e ela não hesitou em dizer em um timbre empolgante ‘ essa é uma
grande qualidade. ’ Não percebi de que qualidade ela esta falando e não hesitei
em perguntar, ela logo respondeu ‘ você reconhece seus erros’. Reconhecer os
próprios erros é uma qualidade? A meu ver isso é obrigação de todo e qualquer
cidadão.
A partir desse dia comecei a observar a discrepância com que
alguns veem qualidades. Escuto as pessoas falarem ‘sou uma pessoa boa, eu ajudo
todo mundo que posso, dentro de minhas condições’; ‘sou alegre e divertido’;
‘sou honesto’; ‘sou fiel’; ‘sou bem positivo’; ‘sou trabalhador’; ‘sou
dedicado’... Quanto mais escuto mais me preocupo, não só com essa geração do
presente ou com a que virá no futuro, vejo que independente de idade o problema
está em não ver a vida, apenas existir. Ajudar o próximo, sentir alegria, não
são qualidades, talvez para quem exista, mas para quem vive é uma questão de
humanização, assim como honestidade, lealdade, positividade.
Sempre tive dificuldades em destacar qualidades, a meu ver
qualidade é uma mãe criar os filhos com um salário mínimo e ainda conseguir oferecer
estudos. É um pai dar bons exemplos. Qualidade é não se corromper com a
facilidade, é não se vender a valores distorcidos, é negar a corrupção, é não
silenciar diante uma atrocidade.
Qualidade é não ser
dominado por um sistema capitalista que gera cada vez mais predador dentro da
própria espécie.
Qualidade é querer viver por si e pelos seus, não para
mostrar ou ter. É despertar para o viver. É não se contentar com o existir. É
evitar simplesmente seguir. É escrever a própria historia.
Ao invés de discutirem tanto sobre stress e depressão deviam
discutir sobre a solidao.
A solidao está se tornando cada vez mais presente na vida
dos indivíduos, e ela é avassaladora e voraz. Pode ser uma ótima companhia, mas
para quem sabe aceitar sua presença e não se deixa intimidar, pois ao contrario
ela pode causar uma grande alienação.
Aos que existem a solidao é quase que insuportável, ela não
se cala, não dorme. Isso é notável em bares, festas e baladas. Cada vez mais as
pessoas estão se entregando há momentos. Mulheres cada vez mais despidas, como
que deixando o corpo gritar a solidao. Homens que estão tão ligados no
automático que nem mesmo conhecem a cumplicidade de um relacionamento e assim
na louca busca por companhia se entregam um ao outro pelo simples fato de
estarem presente na mesma balada e acabam se esquecendo de que a solidao não
dorme e os aguarda no fim da noite.
Alguns acreditam conhecer essa realidade e procuram
companhia diária, mas a primeira adversidade abre mão do relacionamento, acreditando
que o mercado está mais para oferta que para procura. E assim temos essa
geração de relacionamentos instantâneos, que na manhã ama e quer ficar junto
para vida toda e a noite já não suporta mais.
É perceptível como o ser humano não se vê como o único ser
racional e se sujeita a receber o mesmo valor que um objeto inanimado que pode
ser substituído ou trocado.
Os valores se perderam e não é culpa dos jovens é resultado
da falta de despertar das gerações passadas. A existência muda o foco e
distancia as pessoas da vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Me pergunto se sou mesmo maluca ou há mais alguem que pensa como eu? Critícas são sempre construtivas, deixe seu comentário.