Começo a narrar não parte de
minha história vivida, mas um episódio especial que mudou todo meu existir.
Era uma manhã de segunda feira,
ao acordar parecia ter perdido a memória. Não despertei em meu quarto como
costumava, nem tão pouco em minha casa. Na verdade lembro-me de sentir muito
frio e por isso acordei, mas ao abrir os olhos o susto superou a surpresa e me
deixou atônito diante as imagens que meus olhos contemplavam.
Estava em um lugar desconhecido e
difícil de descrever. Não era parecido com nada que já havia visto antes.
Não havia ruas nem calçadas, nem
mesmo casas ou comercio, talvez fosse assemelhado a uma caverna. Eu não
conseguia ver começo nem fim, não sabia como havia chegado aquele lugar. As
paredes eram grotescas e baixas, deixando evidente serem rochas, mas delas
brotavam água sem parar, que deixava o solo pantanoso e causava a sensação de
frio.
A princípio eu pude observar as
paredes e o chão, não queria sair do lugar, olhava para direita e não via
ninguém, mas ouvia diferentes pedidos de socorro e gritos de dor. Eram gemidos
sofridos e aflitos, como se tivessem sendo torturados, os gritos intercalavam
com risadas macabras que soavam crueldade. Olhei para esquerda e também não vi
muito além, o ambiente era escuro, não havia luz alguma, meus olhos só
conseguiam ver ao meu redor.
Distante dali, ainda à esquerda,
por vezes surgia um raio de luz seguido de certa calmaria, mas tudo se passava
de forma muito rápida e quando a luz se esvaia os gritos se tornavam ainda mais
intensos e desesperados.
Por muito tempo fiquei ali
parado, sem me mover, sem sair do lugar. O medo parecia ter me roubado as
pernas e só a mente estava ativa. Depois de certo tempo já nem me importava
onde estava ou como havia parado ali, só desejava encontrar a saída. Ciente que
me manter ali não mostraria como sair, coloquei-me a andar. Como os gritos da
direita eram estridentes optei por seguir para a esquerda, onde os gritos
pareciam mais distantes, mas a cada passo uma visão me surpreendia.
Meus olhos pareciam habituados à
escuridão e via tudo como vultos. A princípio tentava olhar adiante o que
pudesse ver, caminhava sobre a água fria e barrosa daquele lugar. Dei alguns
passos e logo os gritos ficaram mais distantes, dando lugar a sussurros, não
entendia muito bem o que diziam, pareciam milhares de vozes falando ao mesmo
tempo, continuei e os sussurros não cessaram. Lembravam-me o som de uma vitrola
velha quando queria sintonizar uma rádio qualquer, apenas chiados desconexos,
sem clareza, mas eu sabia que tentavam dizer algo do tipo pedido de socorro.
Com a mente atordoada e confusa
continuei até que senti como se algo tivesse mordido meu pé. Sabia que não era
um animal, pois não senti dentes, mas senti certa pressão. Abaixei meu olhar e
me deparei com a pior imagem que meus olhos já puderam contemplar. Imaginei
estar em um pesadelo, pois era pior que qualquer imagem de filme de terror,
tentei acordar, mas foi em vão.
Ali, sob meus pés, milhares de
rostos submergiam e voltavam à superfície, não via corpos nem outros membros,
apenas os rostos disformes, as bocas sem dentes e os olhos me olhando como que
pedindo socorro. Ao fita lós pareceu que o desespero deles aumentou e um rosto
sobrepunha o outro gruindo como que tentando me dizer algo, nesse momento me
desesperei e corri o mais rápido que pude, não deixando de olhar para baixo,
vendo que o caminho era repleto deles, foi nesse momento que bati em algo e
caí. Senti como se todas as mãos que eu não havia visto antes tentassem me
puxar para baixo na esperança de sair dali.
Levantei-me o mais rápido que
pude e vi que havia batido em uma rocha, a parede e o teto se encontravam e
alguns lugares eram mais baixos que outros. Segui o caminho à frente, que fazia
uma pequena curva um pouco mais a esquerda e pude ver que meus pés já estavam
em solo firme, não sei dizer ao certo que matéria prima era aquele solo, mas
era mais firme que barro ou argila porem mais mole que a parede de rocha.
Olhei para traz e percebi que
aquele lugar pantanoso no qual estava era uma espécie de lago, estava tão cheio
do que parecia pessoas presas ali que a saturação não me permitiu afundar. Confirmei
estar em um daqueles pesadelos onde mesmo sabendo se tratar de um sonho não
conseguimos acordar, já imaginava um precipício a qualquer momento de onde me
jogaria e então despertaria antes de chegar ao chão, mas não foi isso que
aconteceu.
Os gritos de socorro ficaram
próximos e agora conseguia ouvir claramente, havia muito choro e lamentação, as
vozes se misturavam de homens e mulheres, ouvi então um som que parecia
chibatadas, seguido de uma risada sarcástica e cruel.
Estava novamente cercado, mas
agora as pessoas caminhavam de quatro como animais quadrúpedes, seus rostos
eram desconfigurados e parecia não enxergar, pois trombavam uns nos outros.
Corriam gritando, chorando e gemendo de um lado para outro, sem rumo certo,
como baratas tontas. Alguns arriscavam parar e nesse momento um grande chicote
de fogo surgia no ar atingindo-os ao ponto de parti lós ao meio. Uma massa
gosmenta caia ao chão e se fundia formando o ser novamente ainda mais disforme.
Por não enxergarem não podiam me ver, mas a cada clarão era como se pudessem
sentir minha presença, não conseguia ver as expressões de quem auferia as
chibatadas, mas o som das gargalhadas era suficiente para me gelar a alma.
Houve um instante em que uma das
chibatadas de fogo quase me atingiu, me vi em meio a uma névoa de fumaça com um
cheiro sufocante, não aguentei e vomitei. Não sei ao certo o que saiu de meu
estomago, era parecido com uma espuma branca e gosmenta, mas não pude analisar
por muito tempo, pois os seres atacaram na tentativa de comer e eu me afastei,
observando tudo um pouco distante. Os que seriam braços e pernas não se
dobravam e assim eles não conseguiam alcançar o chão, alguns caíram e
aproveitaram para lamber a gosma, e nesse momento o chicote de fogo surgiu
ainda mais ardente.
Não fiquei parado para ver como
terminaria aquilo e continuei a andar, parecia que o pesadelo estava findando,
pois por um tempo não escutei barulho algum. Era apenas a negritude, o frio, o
cheiro estranho, as paredes rochosas e eu, mas estava enganada, das paredes
saiam pessoas sem membros, apenas corpo e cabeça, pude perceber que eles
possuíam boa visão, pois olhavam dentro de meus olhos como que querendo ler
minha alma ou me relatar as deles. Tentei questionar porque estavam ali daquela
forma, mas eles vinham e iam, na rocha, como se fossem minhocas na terra, e de
alguma forma sabia que eles não podiam me ouvir nem falar.
Escutei barulhos parecidos com
gigantes panelas em cozimento, me aproximei e de fato algo parecia cozinhar,
eram buracos aparentemente profundos no chão e não havia ninguém por perto. O
conteúdo que estava sendo cozido exalava um odor mais forte que todos os outros
que eu havia sentido. Cuidadosamente atravessei aquele local, e quando tomei
certa distancia pude ver a tal substância que queimava subir como vulcão e
atingir todo caminho por onde eu havia passado. Nesse momento os gritos
pareciam se unir aos gemidos e sussurros formando um som estridente e quase
insuportável, toda estrutura do local tremeu, como se as pessoas minhocas
estivessem acelerado seus movimentos, a fim de não ser atingidas, o que era em
vão, pois elas sempre voltavam para o mesmo lugar. Não fiquei observando por
tempo suficiente para ver o que aconteceria a seguir, estava com medo, e assim
a disposição de sair logo dali falou mais alto.
Não sabia quanto tempo havia se
passado. Ao tempo que tudo parecia rápido sentia como se fosse uma eternidade.
Houve momentos em que minha respiração parecia parar me sentia sem ar,
sufocado, minhas pernas pesavam como que me impedindo de caminhar, meus braços
pareciam adormecidos, meus olhos estavam ardendo e meus ouvidos cansados. Só
minha mente não cessava, os pensamentos eram turbilhões de perguntas e afins.
Havia muita curiosidade de saber que lugar era aquele, mas o desejo de sair
dali era maior. Nesse momento me veio à indagação: sair e ir para onde?
Sentei-me no que pareceu um
canto, encostada na parede, o teto não estando distante, e fechei os olhos.
Diante mim revi minha vida como quem assiste a um filme no cinema. Todas as
oportunidades perdidas, todas as escolhas que se revelaram erradas, os
conselhos que ignorei as palavras malditas que lancei os projetos inacabados, as
desistências no caminho, a fraqueza em cada novo desafio.
Tudo aquilo me sufocou ainda mais
e me delimitou. Foi como se eu estivesse sem membros, sem sentidos, sem nexo.
Então surgiram vozes entoando orações, a princípio eram vozes desconhecidas,
vozes que não distinguia, mas que pediam por mim. Vozes sublimes e redentoras
me acalmaram, não pude ver quem era, mas pela luz que erradiava paz sabia ser
do próprio Criador através de Seu Espírito que intercedia da terra e de Jesus
Cristo, que intercedia do céu. Senti-me repleta de afeto, um carinho
sobrenatural me preencheu, me lembrei de meus pais e irmãos, de meus filhos, de
minha mulher. Então novas orações surgiram e dessa vez pude reconhecer a voz,
era minha.
Observei que cada pedido vinha
acompanhado da solicitação para que o Senhor me livrasse de tudo aquilo que me
separava dEle, que não permitisse pessoas mesquinhas, mentirosas e falsas em
meu caminho, que independente de meus planos predominasse o Seu projeto para
minha vida. Eu entregava minha vida nas mãos de Deus em oração, e o fazia com
toda fé, pois esse era o desígnio de meu coração, mas as ações não condiziam
com os anseios e assim eu sempre fazia escolhas por mim mesmo, o que era
contrario a vontade do Senhor, por isso tudo sempre ficava pela metade.
Revi quantas oportunidades tive
de falar sobre o Criador, quantos momentos eu podia aliviar dores com uma
simples conversa ou com palavras de consolo, e ainda assim temia esvair de meu
limite e usava o bom senso como argumento, falando apenas a quem me
questionasse. Deixei de irradiar luz por onde passei e meu brilho foi se
apagando. Sobre mim havia uma unção que não podia ser vista, mas eu sentia,
pois era como um fogo santo a queimar, mas ao invés de alimentar esse fogo
abençoando as pessoas, contando minhas experiências, servindo aos irmãos, minha
timidez e todo receio, de não ser bem visto, aliado ao meu desejo pessoal de
crescer profissionalmente e juntar bens fizeram o fogo se apagar.
Já havia passado dificuldades na
vida, já conhecia bem a face do fracasso, mas agora ele havia chegado de
maneira avassaladora que me cegava as esperanças e me ofuscava a fé.
Lá estava eu, um homem que havia
se separado da esposa devido às dificuldades financeiras, não conseguindo
cumprir com meu papel de progenitor optei por abrir mão de minha família,
acreditei que assim eles não sofreriam comigo, afinal meus sogros tinham
melhores condições de ajudar minha mulher e nossos filhos. Nossos filhos... Dois
garotos que ainda nada sabiam da vida, ainda viviam no mundo de inocência e
pureza. Nem faziam ideia da guerra que os esperavam na maturidade.
Voltando a mim, um homem no auge
dos seus 28 anos, que muito viveu, já teve excelentes cargos de chefia em
diferentes empresas, sempre foi bem colocado no mercado de trabalho, sempre
poupou para emergências, sempre pode escolher onde e com o quê trabalharia,
pois as oportunidades lhe batiam a porta, sempre rodeado de colegas e amigos.
Popular e agradável, com a agenda sempre lotada, convidado dos melhores
eventos, sempre por dentro dos melhores acontecimentos, de classe média, mas
sempre cercado pela alta sociedade, comia o que desejava a qualquer hora ou
dia, agora não tinha mais nada disso.
Desempregado há quase um ano, só
recebia propostas para ganhar salário mínimo. Sem minha esposa, sem meus
filhos, sem nome no mercado, com dividas que ultrapassavam a lógica, sem um meio
de condução, com a conta bancária zerada, sem dinheiro nem mesmo para me
alimentar ou me locomover. Tentar uma vaga de emprego parecia utopia, pois não
havia dinheiro nem mesmo para pagar um coletivo e chegar à entrevista.
Em casa o telefone toca, é um
amigo indicando um super trabalho que poderia me trazer novamente as minhas
origens, poderia me ajudar a sanar minhas dividas e ainda a sair da casa de
meus pais, onde estava vivendo da caridade deles. Durante a ligação me
entusiasmo e digo que entrarei em contato com a pessoa responsável pela
contratação, anoto o numero, mas ao desligar a realidade esbraveja em minha
frente como um ditador feroz. Como ligar se não tenho telefone nem mesmo
dinheiro para comprar um cartão de orelhão? Quanta aflição, quanto desespero,
de que adianta a força de vontade se os fatores externos não colaboram?
Sobre a estante uma caixa de
remédios, diferentes tipos. Os pensamentos são tão perturbadores que desejo
cessa lós. Preciso dormir, mas minha cabeça dói. Os pensamentos não param.
Preciso de remédio para dor de cabeça, outro para pegar no sono, porque não
tomar todos que estão aqui? Porque me preocupar com a indicação? Quero dormir,
bom seria nunca mais acordar, não ter mais uma vida com qual me preocupar,
apenas me desligar e pronto. É isso ai. Vou tomar todos e dormir.
Nesse ultimo momento estava
vivendo de fato a situação, tomei inúmeras caixas de remédio e então abri os
olhos e voltei aquele lugar escuro e frio. Não sabia discernir o que era real e
o que era sonho. Não entendia porque não acordava daquele pesadelo. Fechei
novamente os olhos e uma dor horrível corroia meu estomago e se dissipava por
todo corpo. Parecia haver vida em mim, uma baba grossa espumava de minha boca,
foi quando finalmente acordei. Acordei naquele mesmo momento em que não sabia
onde estava, onde o frio me despertou e pude ver um lugar parecido com uma
caverna com paredes rochosas emendando com o teto e o chão pantanoso. Retornei
ao principio, teria que refazer todo aquele caminho novamente e voltaria para
onde estava sentada em um canto de olhos fechados revendo toda minha
existência. Entendi que estava vivendo algo redundante e cíclico, não importava
o quanto eu caminhasse eu voltaria para o mesmo lugar.
Coloquei-me a chorar, não com
lágrimas saindo dos olhos, mas com uma dor voraz que saia da alma e encontrava
com a dor do coração. Não queria estar ali, mas também não queria voltar àquela
situação deplorável. Queria sim dormir eternamente, mas como se apaga uma luz,
cortando toda energia, queria desligar minha mente, minhas lembranças, todas as
possibilidades de estar em algum lugar. Queria ser como uma gota de água que
evapora quando aquecida, mas era bem diferente, eu até podia sair da condição
que estava vivendo, mas acabaria ficando ali, preso naquele lugar que nem mesmo
sabia onde nem o quê era. Eu não desejava nenhuma das duas opções e chorava
incessantemente desejando orientação, foi quando senti um leve toque na cabeça,
foi como se uma energia percorresse todo meu corpo. Tentei abrir os olhos, mas
não consegui. Meu corpo estava envolto em uma luz muito forte, era o mais
branco da pureza, um tom jamais visto antes. Fiquei cego e atordoado.
Não sei quanto tempo fiquei
desmaiado, mas despertei em outra atmosfera, o lugar era repleto de luz do dia.
Não sei explicar onde estava. Despertei sobre a grama, mas era mais confortável
que qualquer colchão que eu conhecia. Havia muitas arvores em volta e muitos
animais de diferentes espécies também. As pessoas caminhavam em meio a eles
como que interagindo entre si. A principio me amedrontei, pois haviam inúmeros
animais de grande porte que normalmente eram selvagens, mas até os tigres ali
pareciam inofensivos gatinhos.
Eu despertei, mas não levantei,
observava tudo deitado onde estava, temia o que aconteceria quando levantasse.
Sobre toda extensão daquele lugar havia tecidos brancos amarrados nas arvores,
como que formando tendas.
Um rugido soou por traz de mim, o
medo foi tamanho que nem mesmo consegui me virar para olhar o que era. Um
homem, aparentemente com seus 50 anos, se aproximou e com um sorriso suave me
saudou. Perguntei onde estava e ele me disse que aquele era um hospital e que
eu estava ali para tratamento. Eu não entendia aquilo, um hospital na natureza
e eu nem doente estava.
Imaginei-me em um sonho, mas o
lugar era tão lindo, a sensação era tão boa que eu não queria acordar. Levantei
e ao meu lado estava um leão, aparentemente mais feroz que os que já havia
conhecido em zoológicos e circos, era mais robusto, mais bem tratado, o pelo
era brilhante e aparentemente macio. O animal olhou dentro de meus olhos e foi
como se pudesse ler minha mente, o olhar lançou fora tomo medo que eu sentia e
toquei lhe o pelo. Seu pelo era mais macio que qualquer coisa que pudesse me
lembrar, seus dentes eram brancos e afiados, podia ver minha imagem refletida neles. Levantei-me com a ajuda do homem que me
falava sobre tudo que veria ali, mas minha mente não capturava nada do que ele
dizia,estava atônito com aquele animal tão próximo de mim.
Quando me coloquei de pé o leão
fez o mesmo, percebi que ele batia em minha cintura, era alto e forte. Ele
novamente rugiu, o homem sorriu como que satisfeito com a situação, dessa vez
eu não senti medo, ao contrario, uma paz me tomou. O homem disse que eu já
estava pronto para explorar o lugar, pois minha alma e de meu guia já haviam se
reconhecido, e após essas palavras ele saiu cantando uma canção que não pude
ouvir, mas pude sentir que emanava paz.
Olhei ao meu redor e todo mundo que
estava por ali brincava com um animal,
haviam pessoas deitadas como que dormindo, mas até ao lado dessas havia um
animal aguardando o despertar do sono. Procurei pelo meu guia e não vi ninguém,
foi nesse momento que ouvi um novo rugido. Não sabia exatamente o que aquilo
significava, mas o leão foi caminhando e eu sentia que devia acompanha ló.
Não sabia há quanto tempo estava
naquele lugar, não sabia por quanto tempo havia dormido, não sabia sequer como
havia chegado ali. O leão caminhava entre as pessoas e os outros animais que se
curvavam levemente e sorriam. Após um tempo de caminhada olhei para traz e vi
que todos estavam distantes, já não via mais tecidos, apenas nuvens azuis e
brilhantes cobriam o céu. O sol estava claro, parecia maior, era como se eu
pudesse ver uma grande bola de fogo queimar perto de mim, mas a sensação
térmica era agradável, uma suave brisa tocava minha pele.
Ainda estávamos caminhando sobre
uma grama verdinha e macia, foi quando percebi que eu não estava usando minhas
roupas normais, eu estava com uma espécie de túnica longa que chegava aos meus
pés. O tecido era claro, um branco diferente, era fino e leve, em nada lembrava
os tecidos que sempre conheci e usei. Olhei em volta e havia muitas flores
espalhadas como que em cercados, onde muitas borboletas pousavam. Ouvi um zunir
e percebi que havia também muitas abelhas por ali, beija-flores, joaninhas e
dezenas de espécie de insetos que eu não conhecia, todos pareciam olhar quando
passava.
Um som diferente se fez no ar, e
o leão novamente rugiu, como que me pedindo para caminhar mais rápido, pois ele
já estava distante de mim. Parei de olhar para traz e para o lado e olhando
para o felino caminhei rápido. O som aumentava de acordo com as passadas que
dava. O leão parou e sentou como faz um cão diante algo interessante de se ver.
Quando me aproximei não podia ser diferente, me sentei e contemplei toda
maravilha que meus olhos jamais haviam visto. Estávamos sobre um monte, era
como um morro, de onde podíamos ver o que se passava lá em baixo.
Havia uma imensa cachoeira que
desembocava em um rio de águas calmas e transparentes. De cima podia ver tudo
que se passava sob as águas, como se fosse um aquário. Muitas pedras, peixes,
diferentes seres vivos que eu não conhecia. Em torno do rio muitas arvores de
diferentes espécies, algumas frutíferas, muitas flores em locais reservados, as
pessoas e os animais brincavam em volta. A direita uma grande toalha branca
estava posta, e as pessoas vinham uma a uma colocando as frutas que haviam colhido
ali.
Ficamos observando de longe até
que um grave som se fez. Era como um raio no céu, mas não vi clarão, apenas o
som. Não havia chuva ali, mas o clima agradável indicava que ela havia passado,
e após o estrondo um belo arco ires se formou. Parecia descer de traz do sol
pelas nuvens e chegar ao chão. Todos olharam admirados por alguns instantes,
até que voltaram e se sentaram ao redor da tolha branca. O leão que me
acompanhava também se levantou e desceu rumo ao que parecia um pic-nik. O segui
como sentia que tinha que ser. Ao meu lado havia outras pessoas com expressão
de tão perdidas como eu, todos nos olhavam como que nos saudando por estar ali
e acenavam para que comecemos.
Eu não sentia a menor fome, mas
visto que todos esperavam que eu provasse algo não me opus. A minha frente
havia um belo cacho de grandes uvas verdes, peguei uma e comi. A sensação que
tive foi de liberdade, me senti leve e livre, como se aquela uva tivesse mais
que sabor, o que já seria difícil visto que era a fruta mais doce que já havia
provado. Seu gosto não era de uvas comuns, era um saber que incitava vida. Não
resisti e provei então uma maçã, uma pera, um caqui, um kiuí, e muitas outras
frutas que ali estavam. Quanto mais eu comia mais sentia gosto de vida, não
consigo explicar o que era nem tão pouco como era, mas eu não sentia fome nem
tão menos necessidade de comer, mas o sabor daquelas frutas era algo mágico.
Um novo trovão soou, e todos
levantaram e saíram, eu não entendia porque não podia continuar a comer, ainda
havia tanta coisa ali, e por mais que eu não estivesse com fome degustar
aquelas frutas me causava prazer.
O leão olhou dentro dos meus
olhos e sem piscar ou rugir me fez segui ló, naquele momento confirmei que
aquele era de fato meu guia, pois sem dizer uma palavra só de me olhar eu
entendia o que ele dizia.
Fomos até o lago que se formava
ao final da cachoeira, era na verdade o belo rio que havia visto do alto. As
pessoas que pareciam não entender nada, assim como eu, estavam a frente
rodeando o lugar, os animais se colocavam atrás. Um leve vento começou a
soprar, ele parecia trazer uma canção, a mesma canção que o homem havia saído
cantando antes. Não me era possível entender o que dizia, nem tão pouco distinguir
as notas, mas me trazia calma e paz.
Fiquei ali, como os outros,
parado escutando a musica. Foi como se ela me conduzisse a um transe, fechei
meus olhos e sem ver me deixei levar.
Um grande choque me despertou, vi
que estava em meu quarto agonizando em dor. De minha boca saia uma gosma
espumada branca. Recordando os inúmeros medicamentos que havia tomado
lembrei-me do desejo de adormecer e não mais despertar, e novamente se passou o
resumo de minha existência como que em um filme a minha frente. Com essas
lembranças novamente fui levado naquele local que parecia uma caverna, o frio
gelava minha alma, os gritos eram ensurdecedores, as pessoas eram de longe
humanas. Senti-me sufocado e temeroso e foi nesse momento que a luz mais alva
que qualquer luz já vista ou narrada me percorreu o corpo, escutei como que
distante o som do vento cantar a canção que não entendia, mas me acalmava e
trazia paz. Abri os olhos e ainda estava ali, diante aquele rio, com pessoas
desconhecidas e animais de todas as espécies e tipos.
Senti uma grande vontade não sair
daquele lugar, mas eu sabia que uma hora ou outra eu voltaria a percorrer
aquelas lembranças que me causavam dor. Desejei nunca mais abandonar aquela
serenidade que sentia. Sentia-me completo, era como se a paz me preenchesse de
tal forma que nada mais me importava. Se desejava adormecer queria acordar ali,
naquele local, e nunca mais dormir. Queria viver cada minuto daquele paraíso.
Quando estava ansiando não sair
dali o leão novamente rugiu, dessa vez como que me alertando de algo. A
princípio não discerni o que queria dizer, mas depois foi claro o saber que eu
ainda não estava pronto para ficar ali.
Só o fato de ainda ter
lembranças, o fato de ainda questionar sobre dormir e acordar, tudo isso
revelava que eu ainda não estava pronto para permanecer ali. De alguma maneira
eu sentia que estar ali era a glória e não queria sair.
O leão olhou me novamente dentro
dos olhos, mas dessa vez me transportou para momentos de minha existência nos
quais eu nunca havia dado valor. Guiou-me diante breves instantes em que eu
ajudava um cego a atravessar a rua, instantes em que eu sedia o banco aos mais
velhos, instantes em que eu deixava de comer algo que estava desejando para dar
a um pedinte na rua, instantes em que eu ia contra a lógica dos fatos e dizia
palavras de incentivo e apoio a pessoas que precisavam de direção.
Revi diversos momentos em que me
vi no chão e encontrei um meio de me levantar. Me vi contemplando flores, e
admirando a criação. Me vi feliz ao ouvir o som dos pássaros a cantar. Me vi
alegre ao contemplar a infinidade de tons e a diversificação das cores. Revi
que muitas vezes eu não conquistava o que queria por abrir mão do meu anseio em
função do anseio do próximo, mas tudo isso inconscientemente, por que era minha
essência e fugia ao meu racional, por isso muitas vezes quando a razão me
cobrava eu me sentia perdido e me alienava. Foi nesse momento que senti queimar
em mim um desejo de começar novamente.
Não importava quão ruim estava
não me importava o que estavam dizendo ou pensando. Eu sabia que havia feito
tudo conforme o momento. Claro que havia muita culpa pelos erros, mas em cada escolha
havia o desejo de acertar. E por pior que eu estivesse ainda tinha membros,
ainda tinha sentidos e isso me tornava capaz de começar novamente. Por mais que
fosse humilhante a dependência, por mais que fosse constrangedor passar
necessidades, eu ainda era dotado de saúde para começar.
Com esses pensamentos o desejo de
dormir e nunca mais acordar deu lugar a um desejo muito maior de despertar para
a vida. De sair da condição de ser existente para a condição de ser que vive a
existência.
Abri novamente os olhos e todos
me olhavam como que se despedindo. Nos olhos do leão haviam lagrimas
acompanhadas de uma expressão de satisfação e vitoria. Era como se ele me
dissesse que havia feito à escolha certa. Sem entender nem questionar entrei no
rio. A água era cristalina. A princípio me pareceu fria, mas me lembrei da
caverna gelada e percebi que a temperatura era agradável, caminhei mais para o
centro do rio que parecia não ser tão fundo, visto que as águas permitiam ver o
solo. Enquanto caminhava novamente o leão rugiu, me virei para vê ló, mas era
tarde, ele já havia saltado sobre mim. Veio tão rápido que não pude vê ló,
apenas senti seu peso sobre meu corpo.
O choque, do peso do corpo do
imenso felino contra o meu, pareceu causar um impacto tão grande que me
transportou para outra dimensão. Apreensivo de onde estaria abri os olhos
assustado e lá estava eu, deitado sobre uma cama de hospital com tubos por todo
lado.
Meu corpo estava frágil e já não queria
lutar, os equipamentos que mantinham meu coração funcionando. Meus sinais
vitais eram escassos. Ao redor estavam meus pais, meus filhos e minha mulher,
todos de mãos dadas levantando clamor a Deus. Então reconheci que aquelas eram
as vozes que havia escutado, mas não havia discernido. Pude escutar claramente
eles pedindo para que predominasse a vontade do Criador, que eu descansasse em
paz onde quer que fosse em vida ou em morte.
Atrás de cada um deles havia uma
pessoa amparando com as mãos os pensamentos. Os rostos me eram familiar, do tal
local de tratamento. Um homem entra na sala e vem em minha direção. Eu estava
de pé, de frente para meu corpo delimitado e frágil. Percebo que é o mesmo
homem que falou comigo quando despertei na grama verdinha, e pude sentir que
era o mesmo homem que tocou minha cabeça quando estava sentado em um canto na
caverna fria, ele chegou com a mesma luz, mas dessa vez menos ofuscante. Não
foi possível contemplar seu rosto e sua idade nada tinha haver com os 50 anos
que havia imaginado antes, na verdade sua existência nada tinha haver com o
tempo cronológico vivido na terra.
Bem certo foi a interpretação
quando ele me disse que eu devia fazer a escolha, pois meus familiares já
sofriam em demasia, visto que para eles já haviam se passado longos meses em
que estava naquela situação. Nesse momento entendi o que de fato significa
livre arbítrio e o que quer de fato dizer que o tempo de Deus não é o tempo dos
homens.
Minha escolha foi voltar a
humanidade, não apenas como ser humano que sou, mas sendo humano em minhas
ações com o próximo e deixando meu ser falar mais vezes.
Aprendi de uma maneira
indescritível e inexplicável que muito mais vale ser que ter. Que admirar as
coisas simples da criação nos leva para perto do nosso paraíso pessoal. E
assim, acreditando que um dia me será permitido viver eternamente em uma bela
colônia de tratamento, não sendo tratada, mas ajudando a tratar é que voltei à
vida terrestre.
É verdade que poucas lembranças
ficaram das sensações de tais experiências, mas desde então em mim começou a arder
um imenso desejo de evoluir espiritualmente, a fim de um dia poder viver toda
paz novamente, de poder provar tão doce sabor das frutas e de ter como guia um
protetor que de fato conhece até meus pensamentos.
Até esse tempo tinha plena
ciência e conhecimento que do todo, da eternidade, muito pouco havia sido
revelado e sabia que muito ainda viria a conhecer, mas essa experiência me
bastou para escolher viver a existência terrestre como me era proposto, aceitando
os desafios e encarando as consequências, certo de que um dia todo sofrimento
seria muito bem recompensado.
Manter em vida terrena o
equilíbrio mental aliado ao emocional se aproximava daquela paz que sentia
naquele lugar sobrenatural. E foi assim que optei por nunca me desesperar e
aguardar que tudo se desse, independente dos obstáculos. E posso afirmar que de
fato foi a melhor escolha que fiz.
É com grande satisfação que narro
uma de minhas mais audaciosas experiências com o sobrenatural. Muitas outras
ainda virão, mas cada uma em seu tempo determinado.
Eu creio!
[Com a graça e a paz, do nosso Senhor
Jesus Cristo, saúdo você. Minha benção está sobre ti.]
Obs.: As vezes escrevo coisas que
nem mesma entendo, as vezes vejo de fato o que relato em textos como se eu
estivesse lá, mas sei que meu corpo não saiu do lugar, mas as vezes é ainda
mais estranho, pois é como se não fosse eu quem estivesse escrevendo.
Simplesmente começo e não consigo parar até que tudo esteja terminado. Muitas
vezes tenho medo de reler, pois não reconheço o conteúdo, é como se não tivesse
saído de minha imaginação, não me recordo de ter escrito nada do contexto...
De certo modo me vi nos lugares
narrados, senti o frio, senti o cheiro, meu coração acelerou ao mesmo compasso
que depois se alegrou, mas eu não sai do lugar, estava o tempo todo sentada em
minha cama escrevendo, dessa vez ao reler não só o conteúdo me intrigou, mas a
primeira frase que cortei onde constava: “Olá, me apresento a você como
Henrique Alberto Damascena, quando o fato a ser narrado ocorreu eu tinha 28
anos na cronologia terrestre. “
Não conheço ninguém com esse
nome, bem como minha memória não me recorda nenhum fato que eu possa
inconscientemente ter ligado a ele. Não consigo explicar porque nem mesmo
consigo entender. Às vezes temo perder a sanidade e me ver presa em um
manicômio qualquer, as vezes temo dar asas demais a minha imaginação e alcançar
lugares onde não consiga voltar a realidade... Não sei ao certo como, mas
continuo escrevendo o que diz respeito a mim ou o que prefiro chamar de contos,
que passam diante meus olhos como filme.
Bom seria se minhas mãos acompanhassem minha mente...