Os dias estão tendo um peso desfavorável a minhas emoções, não
que estejam difíceis, a mente é que não para.
Fico revendo o resumo da minha vida desde a infância e
sempre volto ao ponto de partida, e quanto mais no passado vou mais convicta
fico de hoje estar vivendo meu melhor...
Tento olhar meu eu fora de mim, tento apenas me entender,
entender o que se passa, o que almejo, o que de fato espero de mim mesma, mas a
cada analise tudo se torna apenas fictício. É como se meus objetivos não
passassem de meros devaneios.
Não consigo entender a discrepância entre quem sou e quem
gostaria de ser, isso porque vivo o meio termo que a socialização me impõe, a
fim de ser aceita e conviver sem atritos. Me questiono se não deveria assumir
uma identidade qualquer, um estilo qualquer, visto que seguir é na verdade
optar por uma situação.
Talvez meus objetivos não passem de sonhos frustrados,
talvez meus ideais sejam surreais para quem de fato sou, talvez a conquista
seja a mim apenas a fase da luta, talvez a coragem seja o reflexo da fuga,
talvez a motivação seja a vergonha de um regresso, talvez a força seja a
ausência da ambição, talvez as duvidas sejam sinônimo do conformismo.
Um velho desejo voraz me volta à mente insistentemente dia
após dia, desejo que desde o momento que optei por experimentar o fútil e viver
de maneira contraria a que sempre vivi havia me abandonado. Desejo de desistir,
de me entregar, de assumir a derrota e quem sabe descansar...
Mas eu me nego! Vejo quanto tempo perdi por desistir. Tantas
oportunidades abandonei por ser fraca, tantas chances deixei de aproveitar, eu
me nego a cometer o mesmo erro.
O pior de ser forte é que quando a sensibilidade aflora ela
fica indomável. Toda alegria se evapora no ar, toda positividade converge em
lamentações, todas as possibilidades parecem impróprias, as cores se tornam
pálidas, a luz perde o brilho, o tempo se esguia entre um pensamento e outro,
assim nada se cria, nada se transforma, nada acontece. Apenas pensamentos
cíclicos, lembranças de momentos que se perderam na trajetória. Projeção é algo
que suga tanta energia que é melhor aceitar tudo como está e evitar maiores
ilusões.
Me vejo anciã para buscar tudo que gostaria, e que de fato
me deixaria em uma zona de conforto diante a sociedade, que me abriria as
portas que tanto desejo adentrar. Em contrapartida me vejo jovem e cheia de
disposição para lutar e começar do 0. Me pergunto em função de que ainda quero
seguir?
Vejo ser humano como ser frágil e o que nos torna assim é o
sentimentalismo. Ser pensante, ser racional, mas que ao deparar com o emocional
tudo muda, tudo transforma, as certezas se perdem, as razoes geram duvidas, o
coeso se contradiz, um mix de sensações que sufoca, que aliena.
O evangelho segundo o Cristianismo nos diz para amar Deus
acima de todas as coisas, que devemos abrir mão até mesmo da família para
servir a Cristo. Creio que Cristo está em cada um, e que a missão é ditada
pelos desígnios do coração, logo cada qual deve escrever sua historia de acordo
com seus anseios.
Por mais que eu negue tento ser racional, tento entender as
pessoas e os fatos que ocorrem, tento aceitar tudo de forma branda, tento olhar
o lado positivo, tento entender as estratégias do Criador em toda situação, mas
ainda assim fantasmas me perturbam a alma.
Quem sabe a diferença entre a ausência e a morte esteja
apenas nas ultimas lembranças?
Talvez a maior de todas as utopias seja acreditar que a ferida
que sangra há tanto tempo continuamente um dia irá cessar. Se estou mal me
lembro dos sorrisos, dos momentos alegres e ternos, das expressões de carinho,
dos gestos inocentes, das vozes suaves e doces, assim uma breve alegria me
conforta o coração, mas são milésimos de segundo porque logo a saudade vem me
torturar e sufocar minha alma. Se estou bem me lembro das fantasias, faço uso
da imaginação e projeto como estaríamos se tudo tivesse sido diferente, se
fosse apenas eu e minha dupla imbatível, assim a culpa me fere a mente e
adentra minhas entranhas como veneno eficaz, que chega trazendo um mix de
saudade, revolta e lamentações.
Talvez eu seja mesmo um ser evoluído, pois optei em abrir
mão da materialização do único sonho que ansiei desde a infância, na esperança
de ver todos bem e felizes. Para alguns esse fato me faz um monstro desalmado e
sem coração, para outros me faz apenas fraca e imatura, há ainda aqueles me
ditam irresponsável e imprudente, mas no fundo algo dentro de mim, no fundo,
além da ferida que pulsa em uma sangria dolorosa e incurável, bem no fundo onde
as vezes nem mesmo eu consigo ver, sinto que mesmo tendo me sido outorgado foi
a melhor escolha, foi como Deus gostaria que fosse, foi como Deus escreveu que
deveria ser. Estratégias do sobrenatural, estratégias...
Ser humano tem uma qualidade que admiro e me agarro a ela
para conseguir seguir minha trajetória: adaptação. Ser humano se adapta a tudo,
como seres sobreviventes a seleção natural, usa o externo a seu favor se
adaptando as situações que surgem. Talvez esse seja o segredo da existência, o
que dá força para seguir, o que não permite que o abismo se instale.
Não sei o que incomoda mais: o que de fato é ou o que
poderia ter sido.
Um amigo me disse que há sempre outra chance, eu descordo. Há
momentos que são únicos e mudam todo curso da historia. Desde os primórdios do
mundo é assim, por isso o peso do livre arbítrio. Esse mesmo amigo me falou
sobre ‘voar sem asas’, essa frase há dias tem mexido comigo.
Voar sem asas, isso é o que tenho feito a vida toda. Entre
altos e baixos, entre alegrias e tristezas, entre a felicidade e a dor, na
oscilação imposta pelas consequências, desde sempre tenho voado sem asas. De
certo forma agora entendo o que muitos me falaram sobre a força que eu não
percebo que possuo, sobre eu não me notar, sobre eu não saber do meu poder.
Desde sempre tenho voado sem asas! Por isso nunca tive apoio para levantar voo,
nunca tive onde tomar impulso, mas sou grata ao meu Pai Celeste por me permitir
ter onde pousar caso caia, e ainda ter a quem recorrer caso fique ferida. Sei que
apenas Ele me basta, mas meu corpo físico clama por apoio humano e ter amigos
que escolhi como família, e família ligada por laços sanguíneos e algo
indescritível que gera grande gratidão ao coração.
Gostaria de manter a convicção de quem sou. Abandonar a
metamorfose e apenas seguir em paz, curtindo a maresia do tempo.
Há momentos em que vivo o extremismo do narcisismo em outros
me afogo nas profundezas da depressão. Procuro encontrar a panaceia para
tamanha discrepância, mas tudo que vejo são mitos e anseios.
O que tenho buscado afinal? Até onde ir? O que espero
encontrar? Que mistérios o sobrenatural ainda tem a me revelar? Quanto mais
encontro respostas mais se multiplicam as perguntas! Tudo está muito além de
toda essa vã nostalgia. Tudo está além da capacidade de interpretação. Tudo
está alem das possibilidades da imaginação. Volto ao ponto de origem, aquele
ponto que em outrora me tirou da cidadezinha do interior e me apresentou o
mundo, aquele ponto que na adolescência me fez sentir uma mulher e encarar a
vida curiosa por descobrir novidades, aquele mesmo ponto que, após toda
percepção na maturidade, desejei voltar. Um ponto onde novas descobertas são
feitas, onde um mundo indestrutível é exposto, onde a curiosidade de ir além
clama alto, o mesmo ponto que também se torna um caminho sem volta. Se antes me
fosse permitido voltar à ignorância passada essa seria minha escolha então
porque insistir aqui? Será que não é melhor adotar uma postura excêntrica, crer
em tudo ou não crer em nada, e apenas seguir fria e calculistamente?
Porque as vozes não param? Porque os pensamentos me
atormentam quando estou na companhia da solidão? Porque a solidão se agarrou a
mim e não me deixa mais? Porque toda essa carência e fragilidade? Porque essa
necessidade do fútil e banal? Talvez a diferença entre a ausência e a morte
esteja apenas nas ultimas lembranças!
Seja como for será. Como me foi aconselhado não quero muito
racionalizar, deixarei acontecer, vou tentar apenas sentir, curtir cada
sensação, viver cada momento.
Não faço ideia do que há além dos planetas, não conheço os
mistérios do sobrenatural, no pouco que me foi revelado sei que sou apenas uma
formiguinha na imensidão, um grão menor que areia, uma poeira no infinito da
existência, mas me faço barro fresco, me vejo joia bruta, escolho o processo da
alquimia nem que isso me cause dor.
Se minha vida se findasse aqui gostaria que ao menos as
pessoas de minha rotina pudessem relatar além de meus estresses e choros,
pudessem também lembrar das batalhas que enfrentei, mesmo que isso envolvesse
as que perdi, pois assim fica claro que mesmo no fracasso eu superei a dor e
comecei novamente.
Voar sem asas, encontrar a liberdade e continuar voando ou
acreditar que o sonho pode ser real? A restituição acontece por si só ou devo
correr de encontro a ela?
Como ser completo estou pela metade, mas certa de que tudo
que tinha de mais valioso me foi roubado, sigo com fé que o amanhã é sempre
melhor que o hoje!
Vamos que vamos, avante e além!
Shekinha esteja sobre mim, que Shalom domine! Amém

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Me pergunto se sou mesmo maluca ou há mais alguem que pensa como eu? Critícas são sempre construtivas, deixe seu comentário.