Não entendo bem o quê as pessoas comemoram no dia de
aniversário.
O dia parece tão estranho, desde a proximidade já há um peso
diferente no ar, uma certa nostalgia se apodera de mim.
Dizem que quando vamos morrer o resumo de nossa vida se
passa em um olhar, sendo assim a cada aniversário sinto o pressagio da morte,
pois revejo toda minha existência nos mínimos detalhes.
O bom da autoanalise é perceber que houve ao menos uma
evolução mental e espiritual, o difícil é recordar momentos tão alegres que o
tempo sufocou e agora são apenas lembranças.
Olho para traz e vejo várias pessoas que bem ou mal, direta
ou indiretamente colaboraram para a formação de meu “eu” atual. De algumas
sinto tantas saudades que recordar quase me faz sufocar, há outras que sou
extremamente grata porque seus exemplos me ensinaram a como não agir, há ainda
algumas que nem se deram conta de como foram significativas, mas em suma cada
qual assinou no meu livro da vida.
Me entristece cruzar com algumas dessas pessoas no dia a dia
e nem cordialmente por educação trocar um simples cumprimento. Me doe ver que
pessoas que na infância ou adolescência estiveram tão próximas a mim
simplesmente pela distancia, pelo tempo deixou chama da amizade se apagar, mas
mesmo com toda dor sentimentalista ainda prefiro recordar os bons momentos e
abençoar o destino, mesmo que eu esteja de longe, na plateia admirando a
vitoria de cada uma delas.
As vezes percebo que o mundo está cheio de pré anjos, sou
nervosa, estressada, chata, detalhista, critica, minuciosa, sincera ao estremo,
não sei mentir, cometo inúmeros erros e ainda assim estou sempre rodeada de
pessoas que sei poder chamar amigos.
Amigo é aquela pessoa que está além de conveniência, de
permutas, de agitações. Amigo é mais que marido ou mulher, é aquele que te
acompanha no médico em dias ruins ou que se não for vem te visitar na primeira
oportunidade. Amigo é aquele que se alegra com suas alegrias e sofre com suas
dores. Amigo é aquele que sorri de suas palhaçadas mais tolas. É aquele que é
frio ao usar a verdade, mas é utópico ao sonhar com você. Amigo é aquele que
sabe ser sincero sem ser ditador. É aquele que não diz o conveniente para
agradar ao contrario diz a verdade para elevar. Não fala o que o outro quer
ouvir e sim o que precisa. Amigo é aquele que o coração sorri com as lembranças
e lamenta a saudade. Amigo é aquele que o tempo não apaga, que a distância não
exclui, que a ausência não ignora. Amigo é aquele que uma década pode passar, a
vida pode afastar, podem em continentes diferentes estar, mas ao se reencontrar
há a percepção do carinho, mesmo que a atenção não seja como antes, mesmo que
tenha se passado uma década, mesmo que já haja filhos, marido e a fins, mesmo
que se perceba que nada se sabe da outra pessoa, o importante é que se sabe o
bastante, se conhece a integridade e o caráter de outrora.
Há várias pessoas de minha infância no interior, da época do
colegial, dos ministérios e congressos que frequentei, das loucas viagens que
fiz, dos trabalhos que participei, das pessoas que atendi, que adoraria rever,
olhar nos olhos e agradecer. Dizer o quanto em determinado momento, simples ou
breve, mas com uma palavra, com um gesto, com um exemplo me ensinou algo, e que
isso fez parte do “efeito borboleta” que alavancou a “maremoto” para construção
ou destruição de quem eu era antes e me tornar o que sou agora.
Me apetece a busca pela evolução mental e espiritual e saber
que agora já não sou quem era a 20 minutos atrás me fascina. O poder do ser
humano de fazer jus a vida, que significa movimento logo mudança, me deixa
vulnerável a novos aprendizados e grandes descobertas.
Ontem aprendi que ter medo é bom, significa que há algo a
perder. A principio a única coisa que temi foi meu eu justamente por ele não
temer nada. Então me questionei se isso era porque temia perder a vida, mas
como se não temo a morte? Foi ai que percebi a sutil diferença: temo perder meu
eu para essa socialização corrompida e cega que vivemos, temo ser manipulada
pela massa, corrompida pelo modismo, usada pela popularidade e até mesmo explorada
pelas superficialidades. Se em qualquer momento tiver que calar meu ser, tiver
que deixar minhas convicções por suposições impostas sem comprovações teóricas ou
sensitíveis, se tiver que me jogar na globalização com viseira e perceber em
mim o mínimo domínio da futilidade prefiro a morte da carne.
Meu espírito é como um pássaro que voa alto e livre, mas que
sem direção sempre volta ao mesmo caminho, mas que em cada retorno percebe grandes
diferenças. Após tanto me ferir no percurso aprendi a voar sem asas, aprendi
que mesmo com foco a trajetória pode ser interrompida, que não basta apenas a motivação
e desejo, a vida=movimento=mudança pode ditar algo mais, é o elemento surpresa
que não se esperava, mas que surgi avassalador.
A vida é um barquinho no grande oceano da existência, as
vezes há calmaria, há momentos de grandes ondas, tempestades e tormentas, há
grandes predadores a espreita, alguns aguardam a queda para atacar, outros
atacam tentando te derrubar. Há momentos que é possível ver terra firme e até
parar e relaxar, mas há momentos em que não há chão, onde quer que se olhe não
vê a direção, tudo está igual. Desde que entendi que minha vida é um empréstimo
do Criador resolvi cuidar bem dela para devolve La agradável e com grandes
louvores. Me espelho na passagem bíblica dos talentos, onde os que
multiplicaram receberam ainda mais, mas aquele que teve medo de perder e
guardou o que tinha até esse perdeu. (Mateus 25.14-30) Não escondo meus
talentos, não temo perde lós. Aprendi que por mais que se tenha um projeto bem
elaborado haverá momentos em que terei que correr riscos, e se não tiver
coragem ou estagnarei ou farei escolhas que deixarão grandes consequências,
logo me arrisco sim. Não temo errar, não temo o fracasso, não temo assumir a
derrota estando certa que dei meu melhor, porque sei que se perder o talento
que me foi dado tentando, meu Pai Celestial me dará novos talentos, ainda
melhores para que eu possa começar e me arriscar e seguir com a redundância da existência.
Só sai da praia quem assume a fragilidade do seu barquinho e
ainda assim não teme, que confia no Senhor como Mestre do destino e o permite
se não guiar ao menos proteger durante a trajetória. Eu desde sempre desenvolvi
o projeto, pesquisei a direção, analisei o caminho, assumi o leme e remei,
remei e remei. Avistei o alvo, pude ver a luz da conquista, mas quando me dei
conta não havia soltado a corta que prende o barco no porto. E todo tempo
remando, todo investimento feito, tudo se perdeu por falta de elaboração de estratégias.
Investi tudo que tinha, dediquei todo meu eu, mas não desprendi o que me
ancorava, logo o cansaço bateu e quando percebi estava de novo no ponto de
partida. Duas opções então me surgiram: aceitar a decepção do erro e me estagnar,
me vestir do conformismo como a maioria e apenas existir na vidinha pacata que
me foi imposta pela existência, mas me alegrar com o conformismo da futilidade ou
começar novamente, com mais atenção desde a partida, começando do começo,
soltando a corda assumindo o leme e remando, remando, mesmo que seja contra a
maré, mesmo que esteja em tempos de tempestades, mesmo que o tempo pareça escasso
para a travessia.
Ao meu ver o importante é não desistir!
Precisei de quase 3 décadas para descobrir que o erro foi
ter esquecido de soltar a corda, de pegar a ancora, quando essa percepção me
surgiu me vi velha, cansada, cheguei a pensar em desistir, imaginei não ter
mais forças, não conseguir, mas então anjos vestidos de humanos foram colocados
no meu caminho e como exemplos se fizeram espelhos, então percebi que a
temporalidade do tempo nada representa, o que de fato tem valor é o desejo de
evolução contido no espírito humano.
“O ser humano é dotado de qualidades que nem mesmo se dá
conta, é a obra perfeita do Criador, o herdeiro não só de Seu trono, mas também
de Seus dons ao receber o sopro da vida que passou tudo que Ele tinha em seu
Ser para o homem. (Gênesis 1.26 ; 2.7)”
Até poucos meses atrás acreditava me conhecer bem, sabia
exatamente quem era, o que queria e como agiria, mas as metamorfoses me
trouxeram para um plano onde não me imaginava, logo por mais que seja um plano
conhecido tudo está diferente, porque isso é vida=movimento=mudança.
O difícil na trajetória é que muitas pessoas de quem eu
gostaria de ter apoio ou mesmo de apoiar se perderam no caminho, se afastaram
em demasia de uma forma que mesmo nos vendo não é possível retornar, mas o
importante é não parar, é não desistir, é não cansar de lutar, é estar atendo
aos sinais, é saber diferenciar os anjos dos malignos que surgem para
confundir, é mesmo temendo não deixar de seguir!
27 anos de muita briga interior, de muita guerra pessoal,
mas de grande satisfação. Sei que a guerra só acaba quando o barco afunda, mas
enquanto houver leme sei que o Deus está comigo, logo não irei desistir. Posso
ficar sozinha com lembranças e recordações que ainda estarei feliz, pois a mim
felicidade é estar em paz mesmo que em meio à guerra, é ter equilíbrio mesmo
que na tempestade, porque viver vai alem de existir.
27 ANOS! A idade da loba se aproxima, dizem que a mulher se
torna mulher quando se torna loba, se é assim ainda não sei, mas espero que
tudo esteja diferente quando chegar lá. Independente de melhor ou pior, apenas
diferente, porque notar as mudanças é perceber a evolução.
Hoje em especial agradeço a Deus por tudo que foi. Agradeço
por cada pessoa que cruzou meu caminho, por cada um que assinou no meu livro da
vida. Agradeço por cada oportunidade liberada, por cada porta destrancada, por
cada pedra removida. Agradeço por todas as benções, por todos os ‘presentes’,
por todos os talentos, por todos os dons. Agradeço principalmente por me
permitir errar. Por todas as lagrimas, por tanta dor, por tanto sofrimento.
Agradeço por todas as vezes que o inimigo veio voraz contra minha vida, por
todas as vezes que me iludiu e me enganou. Agradeço por todas as perdas.
Me felicita as vitorias, mas muito mais me apetece as
lastimas, pois o positivo me tenta mas o negativo me eleva.
Grata a Pai ao Filho e ao Espírito Santo por tanta graça, misericórdia
e amor.
Grata aos humanos por cumprirem tão bem seu papel, positiva
ou negativamente.
Grata a minha família (de sangue e a de coração) que por ser
exatamente quem são me moldou.
Grata ao meu “ser” que não cessa em evoluir.
Grata ao meu “eu” que está sempre em lapidação.
Feliz Aniversário para mim que acima da nostalgia do dia
ainda consigo ter tanto a agradecer e desejar.
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