Um momento atípico me assolou os pensamentos. Após certo
tempo caminhando perdida me vi em uma favela ás margens do esgoto aberto.
Pessoas caminhavam a margem do esgoto retirando objetos que nem desejei
identificar, outros pareciam usar certos pontos como cofres, escondendo
tesouros, outros caminhavam apressados como se estivessem atrasados, outros
tinham o caminhar suspeito, alguns carregavam nos braços tantos pertences que
mal conseguiam se mover, sendo algumas peças de roupas, cobertas e garrafas de
bebida.
A princípio o medo me atormentou, cada vez que alguém se
aproximava esperava o pior e quanto mais caminhava mais questões me vinham à
mente.
Entre as casinhas simples e aparentemente imundas pessoas
sentadas nas calçadas, crianças correndo na rua, cães latindo ao redor. Uma
casinha no morro me chamou atenção, uma mulher mau vestida, roupas
aparentemente sujas, cantarolava ao estender algumas peças de trapo no varal. Ao
fundo um cão prezo, pela caleira, latia em resposta aos latidos que vinham de
outra direção. De repente olhei um homem, de aparência jovem, descia os
barrancos rumo ao esgoto. Pude observa ló até ver que ele se acomodava sob a
ponte que cruzava aquele lugar.
As pessoas ali pareciam ter mais medo de mim que eu delas,
eu quem estava no lugar errado, ou não... assim estive por quase uma hora,
caminhando amedrontada e observando todos os movimentos ao meu redor, armada
psicologicamente e preparada para ser “atacada” a qualquer momento. E de fato
esse momento chegou, um homem aparentando uns 40 anos se aproximou e falou
algo, a principio nem escutei porque o medo e a espera do pior era tamanhos que
me ensurdeceu, mas vendo meu espanto e silencio ele repetiu: “toma, é pra você.
Um jornal do dia pra você.” E se foi.
Mal tive tempo de dizer obrigada, quando voltei a mim ele já
havia se distanciando, logo pude apenas abençoar sua trajetória e me questionar
sobre a generosidade, índole, humanização e instrução de quem ali estava.
Minutos depois me situei e pude seguir meu curso de volta ao
conforto do lar que tem me acolhido. Durante o regresso me coloquei a
questionar tal situação e a tentar entender a moralidade da vulga classe baixa.
O que leva as pessoas a se conformarem com suas situações? Falta de condições
sociais? Vícios? Hipocrisia mental? Herança genética? Educação voltada à
realidade presente que impede de almejar algo melhor?
Me questiono se alguma dessas pessoas ou de seus antecedentes
se viram como eu em algum momento de suas vidas. Se tiveram escolhas. Se viram
oportunidades. Se tentaram mudar. Se
viram no conformismo um meio de fuga ou aceitação da realidade. Se em algum
momento viveram conflitos espirituais ou se esses lhe faltaram. Se guerrearam
consigo mesmos. Se tiveram alguém para lhes apoiar. Se alguém tentou mesmo com
palavras, carinho, ou atenção ajudar.
Até onde questões sociais influenciam?
Tudo isso me leva a uma analise social, não relativa à política,
governo e liderança, mas a questão da socialização, dos padrões
pré-estabelecidos. Volto a narrar a questão do ser humano viver ciclicamente,
evoluir geração após geração, mas voltar sempre para o ponto de partida. A era
do consumismo, do querer status, querer poder, querer sempre mais. Nada é
suficiente, nada está bom, quanto mais experimentamos mais desejamos novidades,
quanto mais conquistamos mais temos a conquistar. E aos que experimentam e não conseguem
manter procuram viver de aparências, mas cedo ou tarde a realidade chama e
muitos não tem força suficiente para entender que cada um é responsável por
suas escolhas e encontram um caminho obscuro, um caminho que a principio traz
alivio, mas na verdade é uma fuga tão eficaz que pode arrasta lós por toda existência
terrestre, como zumbis perdidos no tempo. Assim a vida pode se arrastar em
lugares como aquela favela na qual caminhei ou pode se findar em um momento de
desespero pela saciedade de um vício.
Tudo é questão de escolha quando há o discernimento de ver
as possibilidades e apreciar as oportunidades.
Em resumo o discernimento que me veio foi: força de vontade
independe de necessidade, de certa forma ela está aliada a curiosidade de ir
além ou ao orgulho de regredir.
Que Deus me permita vencer cada batalha não quando a guerra tiver
acabado, mas quando o discernimento tiver chegado. Quanto mais caminho mais
dúvidas me surgem, mas a própria sociedade carrega em si as confirmações e a própria
natureza me traz as respostas.
Às vezes me vejo frágil e temerosa, pensamentos negativos me
surgem, uma enorme vontade desistir e voltar ao ponto de partida, mas logo
percebo que são apenas pensamentos e eles irão da mesma forma que as
dificuldades.
Meu viver sempre se deu em meio a uma imensa guerra
espiritual e desde que aceitei esse fato tudo se transformou, um grande portal
se abriu me transportando para um nível que tudo é inédito e a cada novo passo
uma incógnita se apresenta, mas com equilíbrio e racionalidade desvendo os
mistérios. Pouco a pouco achego mais ao meu eu. Enquanto isso os cosmos me
protegem, trazendo anjos em formas humanas para me mostrar que não posso
desistir.
Lamento que nem todos entendam o que tenho vivido, lamento
que não saibam o quanto os amo e os quero bem, lamento que não acreditem no
quanto gostaria de fazer diferente, de ser diferente, para estar perto, para vê
lós feliz, mas tudo isso foge de mim. Então como sempre afirmo: o que não faço
em ação faço em oração.
Talvez eu não passe de uma mente perturbada perdida em meios
a pensamentos sem nexos, talvez em não passe de uma frustração ambulante que
usa a fé como esperança, talvez eu não passe de um erro existencial, mas seja
como for sou tudo e nada, mas sou consciente de ser tudo que desejo ser, de
fazer tudo que desejo fazer.
Em relação a vida cada dia mais dúvidas, mais incertezas,
mais medo, mais em relação a mim cada dia mais convicções, mais expectativas,
mais motivação.
Vivo o hoje porque o amanha virá independente de mim e o
ontem nunca me pertenceu.
Avante, sempre avante e além!
“Na juventude perdemos tempo ao
acreditar que temos o futuro pela frente até que o presente revela que a
juventude passou e nada foi feito, então na tentativa de recuperar o tempo
perdido nos tornamos mais racionais, observando as oportunidades com mais avidez,
buscando os ideais com mais humildade. Em um movimento retrogrado onde a sensação
é de termos gastado tempo curtindo a vida sem perceber de vive La é a real
curtição.” Panmella Janaina

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Me pergunto se sou mesmo maluca ou há mais alguem que pensa como eu? Critícas são sempre construtivas, deixe seu comentário.