quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A felicidade e a internet

Meu primeiro monólogo. Após avaliação positiva de uma pessoa da área a coragem de divulgar chegou.
Arte em forma de teatro...novos desafios... vamos lá. "Eu não acho que você pode continuar escrevendo, eu acho que você DEVE continuar. Eu gostei muito...!" Obrigada pelo incentivo Guizo

Monólogo: A internet e a felicidade
Cenário:
Uma sala, um sofá, uma mesa de centro revirada, com um nootbook no chão, um rack com uma TV à frente e alguns bibelôs de louça e vidro. Uma luz no fundo indicando um corredor, que sugeriria a cozinha, cacos de vidro espalhados pela sala.
Na verdade uma cena escura, onde a moça está sentada no chão, com as pernas cruzada e as mãos o tempo todo entre as pernas. A luz vai mudando de acordo com a narração e ela só fica sobre a atriz no momento do desfecho, onde ela então levanta as mãos. Nesse momento o público vê que ela está com alguns hematomas. 
Ela está sentada diante o sofá, como se lá estivesse alguém lhe escutando [que seria um policial...]
O monólogo inicia como se a moça estivesse narrando às lembranças daquele momento a alguém.
Ela começa limpando as lagrimas e em tom esperançoso diz : “ Eu estava tão feliz. Uma felicidade diferente que há muito tempo não sentia...
Pequena pausa.
Ela confusa pergunta: Afinal, quantos tipos de felicidade existe?
Ainda confusa:  Não sei o que pensar.  Eu era feliz com Pedro... Tudo isso é culpa da tecnologia. Se não fosse a rede social...
Muda para um tom nostálgico: Eu namorava a 4 anos e havia acabado de ficar noiva, me sentia feliz, mas o Pedro apareceu e começou a ‘curtir’ minhas fotos, depois me ‘cutucou’ e um dia apareceu inbox me desejando uma boa semana. Eu nunca tive uma boa memoria, então perguntei se nos conhecíamos, afinal  estudei em tantas escolas, frequentei diferentes congressos estudantis, visitei varias igrejas... sempre tive uma vida ativa, sempre gostei de viajar, de praticar esportes...
Voz segura: Pensei que ele podia ser alguém que havia conhecido , sei lá quando e onde. Afinal, ninguém surge do nada na rede social de outra pessoa e começa a ‘conversar’. Ele não soube me dizer de onde nos conhecíamos, mas quanto mais ‘conversávamos’ mais aumentava a curiosidade...  ele parecia tão bom, tão ideal. Pensei que fosse minha versão masculina. Ele era perfeito, sabe? Comecei a questionar o amor que sentia por meu noivo e de repente percebi que se havia duvida era porque não era amor...
Voz esperançosa: Foi ai que o Pedro se tornou ainda mais presente...
Voz segura com timbre voraz: As pessoas diziam que eu estava louca deixando uma pessoa como meu noivo, de família boa, de índole, com princípios e valores. Parte de mim também pensava assim. Durante muito tempo ele era tudo que eu queria, sabia que ao lado dele a felicidade seria constante. Fazíamos planos de ter uma família grande, com uns 4 filhos, uma casa arejada, com muitos animais. Uma vida comum e simples, mas repleta de cumplicidade e amor.
Voz esperançosa: Mas o Pedro... ah o Pedro. Ele me despertava um instinto diferente. Me fazia desejar mais que ser ‘normal’. Incitava minha curiosidade.
Voz de descaso: Eu sempre fui muito certinha e nunca me arrisquei de verdade. Tudo que fazia era pensado e programado e eu desejava adrenalina. Eu, com 19 anos e pensando em me casar?
Voz esperançosa: O Pedro se dizia apaixonado e estava disposto a tudo pra me conquistar. Tanto que pediu transferência na empresa que trabalhava e veio morar aqui em (NOME DA CIDADE EM QUE O MONOLOGO ESTÁ SENDO APRESENTADO) Goiânia.
Voz animada: Nosso primeiro encontro foi a maior emoção que já vivi. Nunca havíamos nos visto nem pela webcam, mas trocávamos fotos com frequência. Não levou muito tempo para que eu me apaixonasse por ele. Corpo atlético, escultural, parecia modelo dessas revistas eróticas, sabe? E ele dizia que seria meu, só meu... eu acreditei! Quando ele chegou se instalou em um hotel lá perto de casa. Era uma quinta feira e eu precisava vê lo, assim disse para meus pais que dormiria em uma amiga para terminarmos um trabalho de faculdade.
Voz envergonhada:  Eles confiavam muito em mim, afinal nunca havia dado motivos para que fosse diferente...
Voz animada: Fui direto para o hotel. Um misto de emoções me dominava. Quando cheguei lá ele já havia deixado autorizada minha subida e quando abri a porta lá estava ele... Não sei ao certo como aconteceu...afinal, foi minha primeira vez... (LEVE SORRISO SAFADO E ENVERGONHADO) Sei que desde então não conseguíamos mais nos desgrudar, ele logo alugou uma casa pequena em um bairro distante, perto da empresa que trabalhava.
Voz insegura: Meus pais começaram a implicar dizendo que eu não era a mesma, que estava diferente. Mas claro que estava, eu agora era mulher. O Pedro e eu nos víamos todas as noites e meus pais não queriam um namoro daquele jeito.
Voz confiante: Mas eu estava feliz e só isso me importava! Acabei me afastando de minhas amigas porque queria ter mais tempo com Pedro. Os trabalhos da faculdade já não tinham tanta importância, assim como a opinião de meus pais também não...Já haviam dois meses que ele estava aqui, parecia que havíamos estado juntos a vida toda, em uma noite quando veio me deixar em casa, meu pai, que estava nervoso, foi até o portão e disse que só me permitiria namorar em casa e aos finais de semana, como havia sido sempre. O Pedro ficou enfurecido, não aceitou aquela decisão e me convidou para morar com ele...Não pensei duas vezes e fui.
Voz tímida: Não sabia muito sobre ele, só que não queria ter filhos, dizia que me amava de mais para dividir meu amor com alguém. Que detestava animais de estimação, porque eram como crianças... Eu achava tudo muito diferente, mas estava aberta a aprender uma nova ideologia de vida. Sabia que ele era trabalhador e dedicado e pensei que isso bastava...Meus pais não aceitaram minha decisão. Meu pai de tao chateado parou de falar comigo e minha mãe chorava inconsoladamente. Mas eu não me importei, eu só queria viver a paixão que ardia em mim...
Voz segura: Pedro recebia o suficiente para manter a casa. Na primeira semana foi como viver um sonho, era o meu conto que se realizava e o ‘viveram felizes para sempre’ era quase tangível... não fosse por meu pai ter cortado minha mesada. Estava totalmente sem dinheiro. Desse modo me vi obrigada a abandonar a faculdade...
Voz sarcástica: ...mas, eu nem queria mesmo ser advogada, estava só seguindo os passos de meu pai e meu ex noivo...
Voz animada: Assim passei a viver para o Pedro... Não sentia falta de minhas amigas nem de minha família, era como se ele me completasse. Não tínhamos telefone fixo e ele ficava com meu celular, dizia ter medo do meu ex noivo me ligar. Acreditei que isso sim era amor. Ele não me deixava sair de casa sozinha, ficava em casa o dia todo enquanto ele trabalhava. Achava esse ciúme lindo, era uma forma de proteção.
Voz nostálgica: Meu ex noivo me deixava livre, dizia que as pessoas eram como pássaros, não podiam ser aprisionadas ou perderiam sua essência. Por isso devíamos tratar todos bem para que mesmo livres eles voltassem...Por mais que dizia me amar ele nunca implicou com minhas amizades, com minha família, nunca me proibiu de nada...
Voz confiante: Tudo ia muito bem. Já havia se passado dois meses e eu nem havia percebido. Alias, pode se contar nos dedos da mão quantas vezes sai de casa nesse período. Minha mãe já estava enlouquecendo de tão preocupada e começou a ligar no meu celular, mas o Pedro quem ficava com ele...não sei o teor das conversas entre eles, mas o Pedro chegava muito nervoso sempre que ela ligava...
Voz alegre: Hoje estava cuidando da casa quando minha mãe apareceu. Meu pai a principio ficou no carro, mas depois acabou descendo. Ele não disse nada, apenas observou tudo na casa.
Voz confusa: Minha mãe dizia entre lágrimas que não entendia a escolha que eu havia feito. Saído de casa, abandonado a faculdade, deixado para traz uma vida de privilégios para me tornar uma dona de casa.
Voz confiante: Mas o que ela não sabia era que eu estava feliz.
Voz confusa: Ela dizia que eu devia estar enfeitiçada, sob efeito de alguma magia ou algo do tipo. Que aquela não era eu.
Voz confiante: Logo ela? Uma psicóloga tão conceituada dizendo isso? Ela sabe muito bem que personalidade pode ser moldada. Que nada é imutável.
Voz triste: Após uma longa conversa, meu pai, que não disse uma só palavra, chamou para ir embora. Minha mãe saiu sem nem se despedir, dizendo que eu não era a filha que ela havia criado e educado, pediu que se eu a encontrasse para lhe indicar o caminho de casa que todos estavam sentindo sua falta.
Voz chorosa e lágrimas nos olhos novamente: Algo dentre de mim mudou naquele momento. Foi como se de fato eu não me reconhecesse. Me senti perdida. Mas e toda felicidade? Procurei por ela e não a vi. Comecei a recordar momentos vividos. A nostalgia veio me abraçar. E eu comecei a perceber que estava vivendo a escolha de me arriscar, mas que a adrenalina do principio havia passado e agora o que restava era uma mesmice. Os dias se repetiam no tempo.
Voz confusa: Quando Pedro chegou eu ainda estava pensativa e não consegui disfarçar minhas duvidas. Ele claro questionou o que havia acontecido e eu lhe disse que minha mãe havia estado aqui...
Voz assustada: Ele enlouqueceu, disse que eu estava proibida de receber visitas, que se passasse os dias cuidando da casa não teria tempo de me preocupar com bobeiras.  Naquele momento a pessoa ideal que eu pensei conhecer deu lugar a uma pessoa fria que eu só via na TV. Eu nunca havia o visto tao nervoso. Ele revirou a mesa, começou a jogar os bibelôs no chão me mandando catar os cacos, pois assim pensaria menos. Me vi em uma cena que nunca me imaginei e não sabia como agir. Disse que talvez nós tivéssemos nos precipitado, que devíamos ter nos conhecido melhor, ter namorado mais antes de irmos morar juntos. Quando acabei de dizer isso ele me lançou um olhar maquiavélico e cheio de ódio. Senti medo, muito medo. Percebi que afinal eu não o conhecia. Não sabia do que ele era capaz.
Voz ainda assustada e com lagrimas rolando pela face: Ele me bateu forte na face e disse que eu jamais devia repetir isso, porque ele me amava e só queria me proteger do mundo e das pessoas.
Breve pausa. Limpa as lágrimas. Olhar parado.
Voz calma: O medo me paralisou.
Voz mais alta e confiante:  Mas uma voz dentro de mim queria gritar. Me senti um passarinho enjaulado desejando lutar pela liberdade. Então, disse que ele não podia me prender, que se ele me amava devia me deixar livre. Ai ele começou a me bater...
Voz confusa: Não sei exatamente o que aconteceu. Foi como se quanto mais fraca eu fosse ficando mais ele ia se enfurecendo. Por um instante eu pensei que ele havia se cansado e que finalmente pararia de me bater...rumou para a cozinha e me deixou ali, caída no chão da sala.
Voz triste: Eu não tinha forças para me levantar, mal conseguia respirar. Meu corpo todo doía. Mas ele logo voltou... se abaixou, beijou meus lábios... pensei que estava arrependido e que me pediria perdão... me lembro nitidamente dele me dizendo que me amava de mais para me dividir com o mundo e que se eu não fosse só dele não seria de mais ninguém...
Pausa curta... como se o ar estivesse preso nos pulmões...
Voz assustada e lembrando pânico:  Foi quando vi que estava com uma faca na mão...  o medo que me paralisou foi o mesmo que me motivou naquele momento... não sei exatamente como aconteceu... lembro que  vi um caco ao meu lado... meus pensamentos se misturaram ao som das viaturas que chegavam...
Voz confiante: ...e tudo que sei é que agora estou aqui, com sangue nas mãos.As dores me fazem saber que tudo isso é real...
Voz esperançosa: Procuro vestígios de qualquer felicidade para me consolar...
Voz triste:  mas só restou lamento.
Desejei correr risco e acabei vivendo a adrenalina de ter que escolher, matar ou morrer.
Voz confusa: Será quem sou? Quem Pedro era? Fugi de uma vida normal para viver a felicidade e acabei descobrindo que o incerto pode conduzir a um caminho trágico...
Voz confiante:  se bem que isso não é culpa minha...eu continuo a mesma... isso tudo é culpa da tecnologia. Se não fosse a internet... é tudo culpa das redes sociais... é por isso que antes de toda essa parafernália as pessoas eram mais sociáveis, os relacionamentos mais sólidos...
Voz nostálgica: Ah como queria voltar no tempo...
Voz confiante: impossível? Eu sei que é! Sendo assim um banho já me deixará feliz!
Voz duvidosa: Feliz? Huum, mas o que é a felicidade afinal? No que se baseia? Como, estando como estou posso pensar em felicidade?
Voz confiante: Mas se bem... pensando bem... talvez a felicidade seja apenas um momento passageiro que independe de circunstancias...”

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